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terça-feira, 23 de junho de 2009

CAPÍTULO 48

Bruna entrou no apartamento e sentiu algo que há muito tempo não sentia: se sentia em casa. Nem no apartamento de Marcelo ou na mansão em Miami conseguia ficar tão a vontade como estava agora. Aquela era sua casa. Ou tinha sido. Lá havia passado ótimos momentos. Momentos com Juca, com ela mesma, com os amigos.

Amigos. Não tinha mais amigos, não tinha coragem nem de tentar reconquistá-los. Traíra a confiança de suas melhores amigas. Usou Lucila, sabia disso.
No momento em que tudo aconteceu, não percebia o tamanho da sua própria traição. Não percebeu como foi baixa, dissimulada, cruel. Agora tinha vergonha de si mesma e aceitava estar sozinha sob pena de seus próprios erros.

Sentou-se na beirada da cama. Apesar de sentir em casa, não se sentia livre para se esparramar naquela cama. Voltou pra sala, onde as lembranças eram mais amenas. Pegou um porta-retrato com uma foto de seu casamento. Ela e Juca lindos, felizes, olhos brilhantes, caras rosadas, cheios de amor. “- Acabou” – pensou em sua certeza.

Estava cansada e com fome. Resolveu tomar um banho e preparar algo para comer. Ainda enrolada na toalha, foi até a cozinha ver o que encontrava. Encontrou Juca. Sentando na mesa, cabeça baixa, parecia não saber direito que estava fazendo. E não sabia.

Bruna se assustou, mas logo ficou calma. A presença de Juca lhe dava muita paz. Como se eles tivessem voltado ao passado, Bruna caminhou tranqüilamente até a dispensa e perguntou:
- Está com fome?

Juca entrou no mesmo clima. Sacudiu a cabeça dizendo que sim. E os dois juntos, sem explicarem nada, começaram a preparar o almoço. Conversaram amenidades, riram, arrumaram a mesa. Comeram juntos com uma conversa gostosa, sem pretensões. Nenhum dos dois sabia como e porque isso acontecia, mas deixaram fluir. Juca que não tinha certeza de como tinha ido parar ali, agora tirava os sapatos. Estava em sua casa, com alguém que se parecia com sua esposa. Não houve carícias de casal. Na verdade nem se tocaram. Apenas conversaram e também dividiram o mesmo silêncio. Ficaram a tarde juntos e a noite também. Dormiram no sofá da sala com a TV ligada. Era tudo muito tranqüilo, muito normal. Parecia que nada havia mudado.

No dia seguinte, os dois seguiram sua rotina, ignorando os últimos meses. Bruna tentou por algumas vezes falar com Juca sobre o que estava acontecendo. Ele sempre mudava de assunto. Quando estava pronto para ir para a JAEH, Bruna insistiu mais uma vez:
- Juca, não podemos fingir que nada aconteceu. Precisamos conversar.

Juca se irritou, respondeu ríspido:
- Quem foi o lesado da situação fui eu não foi? Então eu decido quando quero conversar, Bruna.

Bruna também gritou:
- Eu te fiz mal. Muito mal. O maior mal que eu poderia de fazer, eu sei disso! Mas eu também sofri, também levei meu troco. Me apaixonei por um canalha, perdi um filho, perdi meus amigos, minhas referências, minha ética. Agora estou aqui recebendo seu carinho. Um carinho de que preciso, mas sei que não mereço. Sinto o mesmo amor por você que sentia há meses, mas ele tem marcas, tem cicatrizes. Você sabe disso e não podemos fingir que nada aconteceu. Como você vai passar por cima de tudo que eu te fiz passar?

Juca se sentou novamente, largou sua pasta. Começou a chorar. Sabia que Bruna estava certa. Podia fingir que nada aconteceu apenas por alguns dias. Certamente em algum momento, alguma palavra, algum gesto, alguma coisa o lembraria de Marcelo, dos dois juntos, da dor. Ele amava Bruna, mas não conseguia perdoá-la.

Bruna interpretava o choro de Juca:
- Você não me perdoou, não é? Eu sei. Eu entendo e acho que também não conseguiria passar por cima de tudo. Eu quero voltar a nossa vida. Quero muito! Mais do que tudo! Mas não posso! A culpa, o sentimento de remorso e a falta do seu perdão, não vão nos permitir sermos felizes de novo.

Juca desabou, mas soluçando falou:
- Eu não entendo. O que aconteceu? Porque você fez isso comigo? Eu sei que não merecia. Éramos felizes, não éramos?

- Éramos muito felizes, Juca. Não me faltava nada, nem material, nem amor, nem nada. Nunca esperei que nosso casamento fosse uma eterna história romântica, sabia que um dia as coisas iam esfriar. Estava pronta pra isso, teria seu companheirismo, sua amizade e nosso amor. Já seria suficiente. Mas me enganei. Quando vi a possibilidade de transbordar novamente romantismo e paixão em minha vida, não resisti. Marcelo apareceu, se mostrou mais presente, mais apaixonado, mais disponível. Eu me encantei por ele. Fui manipulada em meu romantismo.

Juca nunca imaginou compreender Bruna. Mas compreendeu. A conhecia tão bem, que sabia o quanto era romântica, o quanto precisava disso. Foi assim que a conquistou, com o mais puro romantismo. Entendia o que havia acontecido, se culpava por ter deixado acontecer, mas também sabia que o casamento chegaria a ter dias mais amenos e também não achava isso ruim. Se perguntava se perdoaria Bruna algum dia. Se conseguiria confiar nela novamente.

Os dois ficaram um tempo em silêncio. Não havia mais nada pra ser dito. Juca reafirmou que o apartamento seria dela. Ele voltaria a seu flat.

Antes de sair, Juca a olhou pra Bruna com ternura. Bruna retribuiu e disse:
- Quando quiser, se quiser, como quiser. Podemos tentar.
Juca balançou a cabeça e saiu.

Nos dias que seguiram, eles se falavam por telefone. Depois começaram a almoçar juntos em um ou outro restaurante. Foram ao cinema. Eram bons amigos.



Na Bahia outro casal também adormeceu junto. Mas dormiram exaustos, cansados de se sentirem felizes, de se amarem. Lucila recuperou suas forças e também as extinguiu nos braços de Cadu. Os dois não conversaram, não acertaram os pontos. Não houve DR*, apenas seguiram seus instintos, exatamente como na primeira noite que ficaram juntos.

O dia acordou ensolarado, como se espera de um dia na Bahia. Os dois se olharam amassados, riram com a intimidade de quem nunca acordou junto. Se abraçaram, se beijaram e se amaram novamente. Lucila em alguns momentos achava que ia acordar, que tudo não passava de um sonho.

No seu íntimo confundia Cadú com outra pessoa. Não sabia direito quem ele era. Mas o Cadú piadista, às vezes sem graça, descombinado, largado não era o mesmo Cadu que a puxava pelos cabelos, que a beijava com delicadeza. Era difícil entender que eles eram um só. Lucila sabia, em sua experiência, que entre quatro paredes as pessoas se revelam novas pessoas. Mas também conhecia o Cadú que a consolou no calçadão de Copacabana, que foi seu amigo. O Cadú companheiro de trabalho, inteligente, esperto, ativo e que duplava com ela como ninguém. Todos esses “cadus” eram aquele homem que estava ao seu lado agora. Não era um príncipe encantado, não era perfeito, nem lindo, nem o melhor amante do mundo. Era o homem que ela queria agora. Pra agora e pra sempre. Ou para quanto o sempre durasse.


* discutir a relação

sexta-feira, 5 de junho de 2009

CAPÍTULO 41

Conforme havia combinado com Consuelo, logo na manhã seguinte, eles se encontraram com o advogado para discutir sobre as possibilidades de negociarem o depoimento de Consuelo em troca de seu visto permanente.

O advogado afirmava que se Consuelo pudesse identificar o provável assassino da Dra. Joana, isso seria um grande salto no caso e que era comum conseguirem esse tipo de negociação, visto que Consuelo vivia sozinha, sem família. Neste ponto da conversa, Consuelo interrompeu o advogado:
- O senhor me desculpe. Mas não vivo sozinha. Encontrei meu primo Ramirez que já tem o grenn card e vive com sua mulher aqui em Miami.

- Claro, claro. O que eu quero dizer, Dona Consuelo, é que a senhora só pede o visto para a senhora, não para sua família. Isso torna mais fácil, inclusive para senhora trazer seus filhos depois.

Consuelo se iluminou. Nunca havia pensado nessa possibilidade. Viver em Miami, a cidade dos sonhos, junto com seus filhos. Eles poderiam estudar, aprender inglês e se tornarem alguém na vida.

Juca sorriu, interpretando o olhar de Consuelo. Imaginava como deveria ser dura sua vida, longe de seus filhos, de suas raízes. Ele tinha sido bruscamente separado de sua família: Bruna. Sabia o quanto era triste, sofrido. Num ímpeto de solidariedade, Juca sugeriu:
- Vamos pedir a vinda dos filhos de Consuelo também. Ambos com o Green Card. Se não conseguirmos, baixamos a proposta para o visto apenas de Consuelo. Precisamos pedir alto primeiro. É base de qualquer negociação.

O advogado se assustou. Ainda argumentou que poderia ser uma jogada arriscada. Juca não deu bola. Repetiu que queria que a proposta para a Polícia de Miami incluísse a vinda dos filhos de Consuelo e afirmava que isso seria simples, se comprovassem o assassinato.

Consuelo sorria para Juca. Pensava em seus filhos. Pensava em como Dona Bruna tinha deixado aquele santo homem pra trás.

Na delegacia, o agente brasileiro organizava os depoimentos de Marcelo, que só falaria na presença de seu advogado, e de Bruna. Enquanto aguardava ser chamado, Marcelo ocuparia uma cela próxima a de Bruna.

Bruna lia quando ouviu uma grande movimentação no corredor. Andou até as grades e viu Marcelo sendo colocado em uma das celas. Seu ódio foi tanto que começou a gritar:
- Desgraçado! Filho da puta! Você ia me deixar aqui? Ia? Seu filho da mãe!

Ouvindo os gritos de Bruna, Marcelo parou antes de entrar no único ponto em que os dois podiam se ver. Ele se virou pra ela e disse com um ar totalmente debochado:
- Deus sabe o que faz! Eu não poderia ter um filho com uma mulher tão sem classe como você.

Dito isso, entrou em sua cela. Bruna não podia mais vê-lo, o que não a impediu de continuar o xingando. Se ela ainda tinha dúvidas sobre o caráter de Marcelo, ele tinha as tirado agora. Sabia que agora estava sozinha nessa.

Passado um tempo após seu acesso de raiva, Bruna não se sentia tão viva há tempos. Tinha sede de vingança. Queria acabar com Marcelo. Tudo na sua mente se tornou muito claro. Voltou ao passado e viu um filme de sua história com Marcelo.

Bruna vivia muito bem com Juca. Eram felizes. Ela havia deixado a JAHE, empresa de Juca, logo depois que se casaram e se dedicou a fazer o que realmente gostava. Fazia cursos, yoga, dança e ainda se preparava para começar um projeto social com patrocínio da empresa do marido.

Ela e Juca tinham uma vida social bem intensa. Muitos jantares ligados as relações de trabalho de Juca, viagens, congressos. No início Bruna adorava acompanhá-lo, mas com o passar do tempo o fazia apenas para agradar ao marido, que na sua opinião, merecia este sacrifício.

Algumas vezes se sentia entediada com sua vida e sempre que isso acontecia, pensava em voltar a trabalhar. Juca sempre desrecomendava e sugeria que ela começasse algum novo curso ou focasse no projeto social que ainda estava no papel. Assim, Bruna se matriculava em um novo curso e a mudança de rotina logo surtia efeito e ela se sentia melhor.

Numa vez em que acompanhava o marido em um congresso em Porto Alegre, Bruna teve mais contato com Marcelo Zacaro. Claro, eles já se conheciam desde de a época que Bruna trabalhava na JAEH, mas nunca tinham conversado. Bruna se surpreendeu com a simpatia de Marcelo, sua cultura e a educação que ele exibia. Era extremamente charmoso e isso era bem observado pelas esposas dos demais executivos.
Bruna achava ridículo ver todas aquelas mulheres se derretendo para ele. – Elas não tem vergonha na cara? – Marcelo se mostrava sem graça com essa situação e sempre que podia se refugiava em sua nova amiga: Bruna.

Com os constantes compromissos de Juca, nos quatro dias de congresso, Marcelo foi sua maior companhia. Sempre a procurava sugerindo irem conhecer algum lugar da cidade ou somente para jogarem conversa fora no lobby do hotel.

Juca parecia não se incomodar com a amizade dos dois, talvez por saber que Marcelo fosse namorado secreto de sua assistente Manú.
Manú sim, que ao saber da amizade dos dois ficou claramente incomodada. Bruna não sabia da relação dos dois, então atribuía isso à óbvia antipatia que Manú sempre teve com ela.

Depois de Porto Alegre, como por mágica, Marcelo e Bruna sempre se cruzavam sem querer. Era uma coincidência atrás da outra. Uma vez na saída da academia de Bruna, outra nas proximidades de seu curso de feng shui e até uma vez que Marcelo sem querer fechou o carro de Bruna, provocando a maior confusão na rua. Os dois riam sempre deste dia, relembrando como tinha sido divertida a tarde pós batida.

Bruna lembrava de tudo em detalhes. E agora desconfiava da veracidade de tantas coincidências. Tentava descobrir em que momento exato Juca deixou de ser tão importante dando lugar à Marcelo. Não sabia ao certo. Marcelo ia cada vez mais participando da sua vida e Juca cada vez menos, nem sempre por culpa dele, a própria Bruna já não dava tanta importância para a companhia de Juca.

Um dia quando já tinha certeza de seu casamento não era mais o mesmo, Bruna discutiu com Juca, como sempre por uma besteira. Saiu de casa à noite, sem destino. Quando parou em um bar, deu de cara com Marcelo que por mais uma incrível coincidência estava sentado no balcão. Os dois beberam a noite toda. Marcelo contava histórias divertidas e Bruna ria. Ela se sentia bem, livre. Em um momento da noite, Marcelo pegou na sua mão. Bruna sentiu um frio na barriga. Algo que não sentia há muitos anos. Ele a beijou. Naquele momento, Bruna como romântica irrecuperável que era, sabia que estava loucamente apaixonada por aquele homem.

Os dois começaram a ter um caso. Se encontravam as escondidas todos os dias. Primeiro em motéis na Barra, depois Bruna começou a ir ao apartamento de Marcelo. Foi numa destas idas que Bruna achou uma pasta com documentos que comprovavam o esquema da JAEH com o governo. Bruna questionou Marcelo sobre aquilo e ele, de uma forma que hoje Bruna não sabia como, conseguiu convencer Bruna de que ele tinha sido envolvido naquilo pelo seu pai. Waldemar Zacaro sempre fora ligado à política. Era um velho lobo, que por toda sua vida aparecia envolvido em alguns escândalos, mas logo depois sempre estava em um bom cargo novamente. Bruna acreditou que a influência do pai havia prejudicado o discernimento de Marcelo, que agora se dizia arrependido.

Bruna acreditou. E concordou em simular toda aquela história contra Juca para inocentar seu novo amor. Marcelo garantia que Juca não seria prejudicado e que ao acusá-lo, Bruna apenas arrumaria um motivo para o divórcio sem ter que revelar nada sobre Marcelo.

Lembrando de tudo, Bruna se sentiu uma completa idiota. Chorou. Chorou de raiva de si mesma, da sua burrice, da sua cegueira e do que deixou pra trás. Tinha vergonha do que tinha feito Juca passar. Pensava em Lucila e Ana. Como ela pode ter envolvido suas melhores amigas nisso? Olhou a data em seu relógio e concluiu que a essa altura Ana já estaria casada e em lua de mel. Como gostaria de ter ido ao casamento de Ana. Como gostaria de voltar no tempo.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

CAPÍTULO 36

Conforme prometeu, Juca contratou um advogado para cuidar do caso de Bruna. Enquanto isso, a polícia especial de Miami e o agente da PF brasileiro procuravam Marcelo Zacaro.

Seguindo a dica dada por Bruna, o próprio Juca acompanhou o agente até a marina onde o iate de Marcelo estaria. Logo que chegaram lá descobriram que Marcelo tinha zarpado há alguns dias.

Os trâmites para organizar uma busca no Brasil são inúmeros e nem sempre se consegue o que se quer. Isso não acontecia em Miami. Foi só informar o acontecido que a guarda costeira de Miami foi acionada.

Bruna ainda estava sob custódia da polícia. Apesar de tecnicamente ser uma cela, não se parecia com uma. Pelo menos não na visão de uma brasileira. Era arejada, tinha cama confortável com lençóis limpos. Uma mesa com um abajur para leitura e um banheiro quase privativo. Bruna lia um livro que Juca havia lhe dado. Ela passava o tempo todo lendo ou dormindo. Mal comia o que lhe ofereciam. Esperava o tempo passar como se não tivesse pressa. Juca sempre que podia ia até lá. Às vezes junto com o advogado, outras não. Era o melhor momento do dia de Bruna ... e de Juca.


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Lucila acordou antes de Rafa e entrou no chuveiro com a cabeça à mil. Sabia que tinha se rendido cedo demais aos encantos de Rafa. Lembrava-se de Bardot, que por causa de caprichos como este, ficou vinte anos longe do seu grande amor. Isso a deixava confiante de ter feito a coisa certa. Mas quando pensava em Ana e no que ela diria se soubesse de toda história, se arrependia.

Antes de acabar seu banho, foi surpreendida por Rafa que entrou no chuveiro para lhe dar “bom dia”. Lucila mais uma vez deixou de lado os pensamentos e de novo mergulhou na paixão que não a deixava raciocinar.
Os dois se arrumaram e Rafa a deixou no escritório. Lucila falava pouco, sentia uma espécie de culpa. Enquanto Rafa agia naturalmente, como se nada tivesse acontecido.

Ao chegar no escritório Lucila foi interceptada por sua chefe Bardot. Ela falava sem parar sobre seus planos para os pontos finais do projeto da joalheria que as duas tocavam juntas. Lucila não conseguia prestar atenção. Só reparava na vitalidade da chefe e se forçava a acreditar que era obra da felicidade de Bardot junto ao seu amor Luis Antônio.

- Lucila??? Alou??? – Bardot percebendo que a funcionária estava longe, chamou atenção de Lucila.

Lucila sem graça, não disfarçou:
- Desculpa Bardot. Estava te olhando. Você está tão cheia de energia, tão “pra cima”.

Antes de chegar onde queria, Lucila foi interrompida por Bardot que disse:
- Em momentos de pesadelo emocional, só o trabalho me salva.

Lucila não esperava esta resposta. Ao contrário, esperava ter uma motivação, um embasamento para continuar acreditando em Rafa. Precisava de uma força, um exemplo que assegurasse de que ela não estava errada.

Nesse momento a energia de Bardot desapareceu. Ela se sentou no canto da mesa e falou baixo para Lucila:
- Acabou, Lucila. Eu e Luiz. Acabou. Mas desta vez não vou me arrepender por não ter tentado, não é? Eu tentei, acreditei que ele tinha mudado, tinha amadurecido. Mas me enganei.

Lucila quase chorou. Vendo seu desespero, Bardot se apressou em dizer:
- Lucila! Calma! Cada caso é um caso. Não é uma regra. Você não pode se basear no fracasso da minha relação. Viva a sua vida.

Lucila sorriu, mas não foi o suficiente para se sentir confortada. Precisava de mais. Precisava de certezas que não tinha. Bardot pensando em desviar o assunto falou:
- Vamos trabalhar? Pegue suas plantas e vamos, ok?

Mesmo meio perdida em seus pensamentos, Lucila tentou se concentrar e acompanhou Bardot. Os clientes já a aguardavam na sala de reunião e estavam ansiosos pelas criações de Bardot.

A reunião foi um sucesso, apesar as total dispersão de Lucila. Os clientes ficaram satisfeitos e um novo projeto foi encomendado. Era um pedido especial do dono da joalheria: a sua casa da serra. Bardot não pegava mais este tipo de projeto, mas era sem dúvida um caso especial. Lucila ficaria responsável pelo projeto junto com o engenheiro que construiu a casa. Logo depois da reunião já marcaram de irem juntos ver o imóvel.

Lucila estava agradecida por ficar uns dias fora neste projeto. E Bardot sabia disso. De alguma maneira ela se sentia responsável por encorajar Lucila na relação com o ex namorado, e percebia que as coisas não iam tão bem.

Logo que voltou pra sua mesa, Rafa ligou. Lucila foi seca, estava estranha. Sabia que em algum momento teria que confrontar Rafa a respeito da cena do anel, que ele fingia não ter existido. Falaram rapidamente e Lucila contou que passaria dois dias fora e que hoje não o poderia vê-lo, pois teria que providenciar as coisas para a viagem.
Rafa sabia que era uma desculpa, mas também conhecia muito bem Lucila e sua esperança é que com o tempo ela voltasse ao normal.

Ao final do dia, Lucila passou na farmácia e comprou algumas coisas que precisaria para sua viagem. A casa do dono da joalheria ficava em Araras, na serra do Rio. Pelo que tinha combinado com Carlos Eduardo, o engenheiro, eles ficariam uns dois dias pelo menos e se hospedariam em uma pousada próxima à casa.

Depois de duas horas tentando fazer uma mala pelo menos razoável. Lucila desmaiou de cansaço. Estava exausta emocionalmente.

Conforme combinado, no dia seguinte às 8h da manhã o tal Carlos Eduardo estava em sua portaria. Lucila desceu e se apresentaram. Carlos Eduardo não era feio, mas estava longe de ser bonito. Com certeza era solteiro, pois sua camisa xadrez nada tinha a ver com sua calça meio cargo, de uma cor indefinida, provavelmente desbotada pelo tempo. Os cabelos meio compridos e totalmente desalinhados ainda reforçavam ainda mais sua imagem “casual”, quase “hippie”

A viagem era curta, cerca de uma hora e meia, mas parecia uma eternidade. Carlos Eduardo era uma das pessoas mais chatas que Lucila já havia conhecido. Queria ser engraçado, simpático em excesso. Aquela hora da manhã falava sem parar, enquanto Lucila só queria sossego.

Lucila só pensava que teria que agüentar aquela mala ainda mais dois dias. Ele e suas piadas e trocadilhos infames. Mas tudo bem, ela precisava ficar longe de Rafa. Mesmo que ele não saísse da sua cabeça.

terça-feira, 28 de abril de 2009

CAPÍTULO 30

Bruna e Marcelo saíram do cinema e foram jantar. Quem os olhava jamais pensaria que aquele casal era uma dupla de refugiados. A barriga de Bruna ainda reforçava o ar de família feliz. Os dois riam, eram carinhosos um com o outro. Apesar do jeito calado de Marcelo, ele a encantava. Sua sobriedade era um charme pra ela, era um toque de mistério na sua personalidade.

Depois do jantar, voltaram pra casa. Assim que entraram, Consuelo correu em direção à porta e entregou pra Marcelo o bilhete, em seguida falou:
- Dr. Marcelo eles vieram aqui, mas eu não os deixei entrar não, viu? Avisei que os senhores não estavam e ele pediram pra entregar esse bilhete.

Marcelo abriu o papel:


Marcelo,
Precisamos conversar. O círculo está fechando. Estamos no Royal Palm Hotel. Procure-nos com urgência.
Abraços,
Antônio e Joana


Depois que leu o guardou no bolso. Bruna perguntou:
- De quem é? O que é?

Ele fez um carinho na sua cabeça e respondeu com voz calma:
- Não se preocupe minha querida. São negócios.

Bruna não gostou da resposta, mas como tudo de estranho na sua vida atual, resolveu ignorar e se concentrar apenas nas coisas boas. Consuelo a olhava desconfiada, com cara de quem não entendia porque a patroa não insistia em saber o que era o tal papel.

Marcelo subiu as escadas e Bruna ficou olhando pra Consuelo, até que disse ríspida em resposta ao olhar desafiador da emprega:
- O que foi? Está precisando de mais alguma coisa? Olha, já jantamos. Quando terminar tudo pode se recolher.

Consuelo fez cara de quem não gostou. Pediu licença e foi pra cozinha. Pensava consigo mesma que por mais boazinhas que as patroas fossem na hora do aperto elas sempre descontavam nos empregados. Riu debochado como alguém que já está mais do que acostumada a ser tratada daquela forma.

Em seu escritório, Marcelo ligava para o Royal Palm Hotel. Marcou um encontro com os ex-funcionários da JAEH para o dia seguinte. Percebeu que eles estavam aflitos com o fato de que a Polícia Federal já ter os identificado como os cúmplices de Marcelo e Waldemar. Marcelo não sabia dos avanços da investigação e ficou furioso com a notícia.

Minutos depois, Bruna também subiu e o procurou no escritório:
- Oi amor, você não vem se deitar?

Marcelo estava sério, sentado em sua cadeira perdido em seus pensamentos e não gostou de ter sido interrompido. Em um lapso de raiva respondeu com grosseria:
- Você não pode se deitar sozinha um só dia?

Bruna se assustou com a reação do seu amor. Sua cara deve ter transparecido isso, pois imediatamente Marcelo tentou consertar:
- Desculpa meu amor. Estou nervoso. Já estou indo, tá bem?

Bruna assentiu com a cabeça e foi para o quarto. Dormiu antes que Marcelo aparecesse.

No dia seguinte quando acordou, Marcelo já havia saído da cama. Interfonou para cozinha e perguntou a Consuelo sobre Marcelo, que respondeu:
- Dona Bruna ele já saiu há um tempão. Tava com uma cara! Perguntei se ele queria tomar café e ele nem respondeu.

Bruna não sabia o que estava acontecendo. Mas sabia que não era algo bom que Marcelo não queria contar. Entendia que ele quisesse a poupar, afinal estava grávida.

Enquanto isso Marcelo se encontrava com Antônio e Joana. Ele não queria ser visto junto dos dois então os buscou no hotel e foram para um bistrô discreto. Chegando lá Antônio logo começou a desabafar:
- Marcelo, eles estão na nossa cola! Estão interrogando minha família, meus amigos. É uma questão de tempo para nos acharem. O que vamos fazer?

Marcelo irritado respondeu:
- Pra começar você poderia virar homem, né? Você achou o quê? Que a polícia não iria descobrir sobre vocês? E pelo jeito vocês querem mesmo se entregar. Como chegaram a Miami? Não me digam que usar seus nomes e passaportes verdadeiros?

Joana, bem mais durona do que Antônio, não deixou barato:
- Sinto muito se não somos delinqüentes como você e não temos documentos falsos, nomes falsos e tudo mais. Desculpe pela nossa ineficácia em ser falsários. Mas respondendo sua pergunta, viemos até o México de avião e até aqui de carro com um esquema para imigrantes, nem carimbaram nosso passaporte. Ninguém sabe que estamos nos EUA.

Marcelo ficou ainda mais irritado. Antônio estava apavorado e Joana estava firme e assim continuou:
- Temos um problema e como você mesmo nos garantiu, viemos aqui para que você possa resolver. Não é possível que nesta gama toda de corrupção você não conheça ninguém que possa molhar a mão pra nos livrar dessa.

Marcelo riu alto. Apesar do deboche, não sabia o que responder. Não tinha esses contatos, seu pai que tinha e agora não podia procurá-lo, certamente todas as ligações estariam grampeadas. Então pensou rápido. Precisava tirar eles de Miami.
- Vamos nos acalmar. Quando disse que vocês podiam confiar em mim, é porque podem. Temos algumas providências imediatas a tomar. Primeiro, não quero saber de ninguém aparecendo na minha casa, telefonando pra lá. Nada! Minha esposa não tem nada a ver com isso e ela está grávida. Entendido? Segundo, vocês fizeram check in nesse hotel, certo? Não vão voltar lá. Irão daqui direto pra outro estado, qualquer que seja, mais o mais longe daqui. – Tirando um bolo de dólares do bolso, entregou a Joana – isso aqui vai garantir uma viagem e uma estadia confortável a vocês até que baixe a poeira.

Joana pegou o dinheiro e colocou na bolsa. A idéia de continuar a viagem com Antônio não era das melhores. Ela não o agüentava mais vê-lo reclamar de tudo. Mas não tinha saída, também não queria ficar sozinha nesta situação. Pensava em seu marido e filhos e principalmente no que eles pensavam sobre ela. Antes que pudesse se emocionar com seu pensamentos, perguntou a Marcelo:
- E como você nos achará? Como saberemos que podemos sair da toca?

Marcelo anotou um endereço, uma caixa postal e entregou pra eles:
- Vocês vão escrever o contato de vocês e enviar para este endereço. Sem assinar, sem bilhetinhos, apenas o endereço e telefone que vocês irão estar.

Antônio ainda balbuciou algumas palavras sobre o pavor e arrependimento que sentia. Marcelo tentou tranqüilizá-lo afirmando que a PF não tem provas concretas contra eles e que quando tudo isso passasse eles seriam ricos e felizes.

Se despediram secamente. Marcelo voltou para o carro deixando os dois a procura de um transporte que os levasse para um lugar longe dali. Sabiam que não podiam levantar suspeitas, preencher fichas ou mostrar o passaporte. Os dois não tinham intimidade com esse tipo de transação. Ia ser uma tarefa difícil pra eles e Joana sabia que dependia dela conseguir o carro sem suspeitas.

Marcelo não voltou pra casa para o almoço e pela primeira vez não avisou Bruna. Ela ficou preocupadat, mas achou melhor não telefonar. Almoçou na cozinha na companhia de Consuelo, que atenta percebia o clima estranho do casal.