sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

VALEU SAMPA!


Pessoal, o lançamento em Sampa foi um sucesso! Agradeço a todos que puderam ir, e aos que não puderam, mas que tenho certeza de que ficaram na torcida! Foi demais

E pra quem quiser comprar o livro pra ler, pra dar pro amigo ou pro inimigo...rsrsrsrs..pode comprar através do site da editora ou clicar no link aqui do lado.

O lançamento no Rio será dia 18 de dezembro. Em breve...convite aqui no blog!

beijos
Babi

segunda-feira, 29 de junho de 2009

RECADO ÀS LEITORAS

Lucila 33 começou como uma brincadeira e acabou também como uma brincadeira. Mas uma brincadeira que não tem tanta graça se for pra brincar sozinha. Por isso que foi bom! Bom demais!

Agradeço às minhas amigas, MH e Tino, pelos comentários no blog, os e-mails, telefonemas e todo o incentivo.
Obrigada pelas maravilhosas conversas de bar, onde ,entre um chope e outro, personagens foram tratados como reais. Pelos desabafos nos corredores. Pelo sofrimento, nervosismo e às vezes a insatisfação declarada como sempre, abertamente.

Pois, é claro, somos mulheres, e não somos boas com segredos, em engolir sapos, em ficar caladas. Somos mais emoção do que razão. E com toda razão, precisamos nos expressar. E a expressão de vocês que permitiu que a brincadeira começasse, seguisse e terminasse.

Muito obrigada! E até a próxima!

Beijos,
Babi (33)

CAPÍTULO 50 - THE END

Lucila dava os últimos retoques no seu visual. O vestido preto lhe garantia uma silhueta perfeita, a maquiagem bem desenhada a deixava orgulhosa de si mesma. Estava linda. Linda para o seu dia e para o seu amor.

Cadu a esperava ansioso na sala. Andava de um lado para outro. Estava nervoso e aparentemente não tinha nenhum motivo para isso.

Depois de alguns longos minutos, Lucila finalmente apareceu no corredor da sala:
- E aí? Como eu estou?

Ele não precisou fazer tipo, nem pensar em sua resposta. Aliás, depois da cara que fez, nem precisava ter dito nada. Era óbvio que estava encantado com o que via, mas mesmo assim, sua gentileza habitual o fez expressar o que via:
- Uau! Nossa!!!! Você está maravilhosa!

Lucila riu ainda mais orgulhosa. Sabia que estava bonita, mas o elogio da Cadú era muito importante, representava um novo momento na sua vida, com sua auto-estima, com sua nova idade que estava se aproximando.

Ana, André, Flávio, Marcos, Tadeu e Carla já esperavam pela aniversariante na boate reservada. Lucila havia chamado todos seus amigos. A meia-noite Lucila completaria 34 anos e este ano era diferente, ela se sentia especial e queria dividir isso com as pessoas que amava.

Pouco depois, Lucila entrou na boate radiante, foi aplaudida pelos amigos, estava pronta para curtir sua festa.

Aos poucos outros convidados foram chegando. Bardot, que surpreendeu aparecendo acompanhada de um belo rapaz. Sim, um rapaz! Ele não tinha trinta anos, mas parecia encantado com o jeito brincalhão e despojado de Bardot.

Outra surpresa da festa foi Juca que também surgiu de mãos dadas com uma exuberante mulher. Não era qualquer mulher. Com uma mini-saia e um enorme decote chamou atenção de todos no lugar. Lucila se aproximou para cumprimentá-los:
- Juca! Que surpresa! Que bom que você veio. Aliás, que bom que vocês vieram. Como você está Manú?

Manú sorriu docemente, contradizendo a sua aparência de mulher fatal.
Ainda curiosa sobre o novo casal, Lucila, que nunca teve papas-na-língua, perguntou:
- Mas, me diz uma coisa? Que novidade é essa? Vocês estão juntos?

Manú não respondeu, apenas olhou para Juca esperando uma resposta de seu amado, que prontamente respondeu:
- Existem coisas que só o tempo pode nos mostrar. Manú deixou de ser meu braço direito, passou a ser uma grande amiga e foi por esta amiga e hoje é a mulher por quem dia a dia eu me encanto mais e mais. O mundo gira, minha vida mudou e só quero acreditar que se tudo continua com seu curso, eu....aliás, nós vamos seguir o nosso curso.

Manú ria frouxo de felicidade. Finalmente tinha conseguido o que queria, estava ao lado de Juca. Agora como sua namorada. Neste momento Manú se afastou de Lucila e

Juca para cumprimentar alguém que passava. Lucila em tom de cúmplice aproveitou o momento e falou para Juca:
- Espero que esteja feliz, você merece. Sei que não devia tocar neste assunto, mas entenda como um pedido de uma aniversariante, ok? O que houve com Bruna, onde ela está?

Juca riu. E com bom humor respondeu:
- Ela está bem. Está com Jesus. Mas isso é uma história para outro dia. Vamos beber alguma coisa?

A noite corria muito bem, todos se divertiam. Ana e André dançavam, riam. Lucila reparou nos dois. Ficava em ver aquele casal tão feliz. Se juntou a eles. Ficaram muito tempo conversando, rindo, dançando. Até que Lucila olhou para o copo de Ana e exclamou:
- Coca-cola? Coca-cola normal? Não é light?

Ana riu. André ficou nervoso. E Lucila disparou com a intimidade de uma melhor amiga:
- Você está grávida!

Ana corou. Sabia que daria bandeira em rejeitar sua cervejinha habitual. Não tinha como negar. Estava grávida! Os três se abraçaram e Ana disse:
- Já que é um dia especial, saiba que você acaba de ganhar um afilhado!

Lucila se emocionou.

O que mais de bom poderia acontecer? A noite estava divina. Lucila e Cadú se completavam, apesar do evidente nervosismo que ele demonstrava. Ele estava inquieto, acanhado, nervoso. Mas podia ser pelo pouco tempo de namoro e a conseqüente falta de intimidade com a maioria dos convidados.

A meia-noite o DJ anunciou uma pausa para os parabéns. Cadu se juntou a ela perto do bolo. A luzes se acenderam e todos começaram a cantar. Pose para fotos. E entre um flash e outro Lucila achou ter visto Rafa. Mas não fazia nenhum sentido e a alegria do momento a fez dispersar.

Lucila entregou orgulhosa o primeiro pedaço de bolo ao seu namorado. A festa prosseguiu até altas horas.

Como era a anfitriã, Lucila foi a última a ir embora. Ela e Cadú já estavam mortos jogados nos sofás da boate, acompanhando os garçons em sua arrumação frenética. Cadeiras sobre as mesas, vassouras. Era hora de ir.

Lucila foi ao banheiro, antes do casal partir. Cadú ficou sentando a esperando. Foi quando alguém bateu em seu ombro:
- E aí bonitão? Aproveitou a festa?

- Você de novo? Não basta encher o eu saco me ligando o dia inteiro, querendo me intimidar. Você é muito cara-de-pau de vir a uma festa que não foi convidado.

- Tem certeza de que não fui? Não tem, não é?

Lucila voltou do banheiro e não acreditou na cena que via. Cadu discutia com... Rafa! Não tinha sido uma alucinação. Ele estava mesmo lá. Ela correu em direção aos dois que estavam a um passo de trocar socos.
- O que está acontecendo? O que vocês estão fazendo?

Rafa sorriu, como se nada tivesse acontecido. Se aproximou de Lucila, pegou sua mão e com a voz melada disse:
- Parabéns meu amor. Você está linda.

Lucila puxou a mão atordoada. Olhou para Cadu que estava vermelho de raiva e agora furioso perguntava:
- Lucila! Você convidou este canalha?

Antes que Lucila pudesse responder, irônico, Rafa disse para Cadú:
- Ah... você achava mesmo que eu não viria? Meu amigo, você acabou de chegar. E eu? Eu faço parte da vida de Lucila há muito tempo. Não existe a possibilidade de eu não estar na sua festa de aniversário. Entendeu?

Lucila estava tonta. Não entendia o que Rafa estava fazendo ali. Estava magoada com o jeito que Cadu se dirigiu a ela. Decidiu sair e deixar os dois pra trás. Saiu correndo em direção a porta.

Cadu foi atrás gritando seu nome. Lucila se irritou:
- Me deixa em paz. Eu cansada. Chega dessa confusão!

Batendo a porta do táxi, foi embora.

Foi chorando até sua casa. Não sabia direito por que. Não era por Rafa, nem por Cadú. Era por ela. Vivia tão em função dos homens ou a procura deles, que às vezes se esquecia dela mesma. Dos seus gostos, dos seus desejos.
- O que eu realmente quero para mim? – pensou em voz alta, despertando a curiosidade do motorista.

Ela queria um trabalho legal, ela tinha. Um apartamento confortável, ela tinha. Talvez não tivesse todas as roupas de que gostaria, mas certamente tinha os melhores amigos. E tinha Cadú, com quem não precisava fingir ser outra pessoa. Não existiam expectativas, nem cobranças, era bom. Mas até onde iria? Até onde Lucila queria ir?

Entrando em casa, foi direto para a cama. Se atirou sem mesmo tirar a roupa. Sentiu que tinha deitado em cima de alguma coisa. Era uma caixa. Uma caixa de jóia em feltro preto. Lucila abriu e eram duas alianças douradas. Sentiu um calafrio.

A campainha tocou, ela saiu em disparada. Só podia ser Cadú que correu para a ver abrir seu presente e para a pedir em casamento. Lucila abriu a porta afoita, com a caixa na mão.
- Oi Lú. Humm estou vendo que achou meu presentinho. Pelo seu sorriso, entendo que isso é um sim.

Ele se aproximou dela. Lucila sem pensar reagiu aos seus instintos e lhe deu um tapa na cara.
- O que você acha que eu sou, hein, Rafa? Acha que eu vou amolecer por causa dessa porcaria? Quem te deu permissão pra entrar na minha casa! Toma isso e vai embora. Você já arruinou demais minha vida, não vai estragar meu aniversário.

Batendo a porta na cara do ex-namorado, Lucila correu para ligar para Cadú.
- Onde você está?

- Estou aqui embaixo. Acabei de ver um pilantra saindo do prédio com cinco dedos estampados na cara. Você tem idéia do que seja isso?

Os dois riram. Cadú subiu.

Não foi naquela noite que Cadú a pediu em casamento, e na verdade, nem ela sabia quando seria. Mas estavam felizes, se completavam, se entendiam.
Lucila teve certeza de que era aquilo que ela queria para sua vida. A forma como o relacionamento aconteceria, se seria um namoro, um casamento, morar juntos ... isso agora não era a questão. Ela tinha o mais importante: o amor da sua vida.


FIM

domingo, 28 de junho de 2009

CAPÍTULO 49

Algumas semanas depois...

Juca aos poucos recuperava o prestígio que perdera no mercado. A condenação de Marcelo Zacaro, Waldemar Zacaro e de Antonio Carlos, o ajudou a reforçar sua inocência.

Há algumas semanas Manú voltou a trabalhar na JAEH. Entediada em seu novo emprego, não resistiu ao pedido de seu antigo chefe. Os dois trabalhavam loucamente, tentando colocar as coisas no lugar.

Em uma manhã, como de costume, Manú separava a correspondência de Juca. No meio de contas, boletos, uma carta de Bruna. Era um envelope pardo e grande. O ciúme de Manú mais uma vez falava mais alto e a lembrava o motivo que a tinha feito se demitir.
Seu primeiro pensamento foi dar um fim aquela carta. Logo agora que as coisas iam tão bem. Ela e Juca eram mais do que companheiros de trabalho, eram amigos, cúmplices. Dividiam seus momentos de lazer, suas angústias, suas alegrias. Há dias

Juca não ouvia falar em Bruna. Segundo ele, a tentativa de reaproximação dos dois foi um fracasso. Juca nunca esqueceria a traição. Bruna não se sentia merecedora do carinho do ex-marido. A combinação disso tudo era desastrosa. Sem combinar, se afastaram. Com o tempo, os dois pararam de se telefonar, de se encontrar e atualmente Juca não tinha notícias da ex-mulher. Mas agora Bruna enviava uma carta e Manú fervia de raiva.

Antes que pudesse tomar qualquer atitude, Juca entrou pela sala. Brincalhão, deu um tapinha na cadeira de Manú e puxou da suas mãos o envelope pardo:
- Humm... hora da correspondência. Será que Papai Noel finalmente vai responder minha cartinha?

Ainda rindo, começou a ver do que se tratava o envelope. Mas ao contrário do que ele mesmo esperaria dele, não ficou nervoso, nem se abalou o perceber que eram notícias de Bruna. Rasgou o envelope e antes de ler disse:
- É da Bruna. Vamos ver o que ela quer.

Juca começou a ler em voz alta. Manú se surpreendeu, mas se ajeitou na cadeira para ouví-lo.


Juca,
Não repetirei nesta carta o meu pedido de desculpas e nem espero que um dia você consiga realmente me desculpar. Escrevo esta para lhe agradecer por tudo que fez por mim, mesmo eu não merecendo.
Continuo fazendo meu trabalho voluntário, de acordo com a minha sentença. Por incrível que pareça, é o meu melhor momento. É quando me sinto útil e que realmente faço algo de bom para alguém. Dar aulas para crianças carentes é um privilégio. Ensino informática, mas acho que aprendo muito mais do que ensino.
E foi através deste projeto social, que conheci o Pastor Germano. Um homem bom, que semanalmente sai de sua igreja para ensinar a palavra de Deus a estes pequeninos seres. Eu sempre assisto às suas aulas e confesso que há anos não me sentia tão próxima de Deus. Foi através da palavra do Pastor Germano que me converti e hoje sou mais uma em seu rebanho.
Hoje trabalho para a igreja e o que recebo é o suficiente para manter minha nova casa. Simples, mas cheia de amor. Percebi que tenho tudo o que preciso. Tenho Jesus, nada mais me falta.
Todos os dias, durante o culto, peço a Deus que ilumine seus caminhos e que Jesus abençoe um homem tão bom como você. Peço também por Lucila e Ana, amigas tão especiais, que merecem a glória divina.
Por isso, lhe envio a escritura do apartamento. Não preciso dele, nem de sua caridosa pensão. Estou bem, em paz e feliz. Meus dias de trevas terminaram. Graças à Jesus, hoje estou diante da luz.
Que Jesus lhe acompanhe.
Bruna.



Manú tinha vontade de rir, mas se controlou. Juca ficou pasmo relendo para se certificar do que tinha acabado de ler. Procurou no envelope e realmente os documentos do apartamento estavam lá, todos em seu nome. Bruna tinha virado evangélica? Seria mesmo a igreja evangélica o abrigo dos arrependidos?

terça-feira, 23 de junho de 2009

CAPÍTULO 48

Bruna entrou no apartamento e sentiu algo que há muito tempo não sentia: se sentia em casa. Nem no apartamento de Marcelo ou na mansão em Miami conseguia ficar tão a vontade como estava agora. Aquela era sua casa. Ou tinha sido. Lá havia passado ótimos momentos. Momentos com Juca, com ela mesma, com os amigos.

Amigos. Não tinha mais amigos, não tinha coragem nem de tentar reconquistá-los. Traíra a confiança de suas melhores amigas. Usou Lucila, sabia disso.
No momento em que tudo aconteceu, não percebia o tamanho da sua própria traição. Não percebeu como foi baixa, dissimulada, cruel. Agora tinha vergonha de si mesma e aceitava estar sozinha sob pena de seus próprios erros.

Sentou-se na beirada da cama. Apesar de sentir em casa, não se sentia livre para se esparramar naquela cama. Voltou pra sala, onde as lembranças eram mais amenas. Pegou um porta-retrato com uma foto de seu casamento. Ela e Juca lindos, felizes, olhos brilhantes, caras rosadas, cheios de amor. “- Acabou” – pensou em sua certeza.

Estava cansada e com fome. Resolveu tomar um banho e preparar algo para comer. Ainda enrolada na toalha, foi até a cozinha ver o que encontrava. Encontrou Juca. Sentando na mesa, cabeça baixa, parecia não saber direito que estava fazendo. E não sabia.

Bruna se assustou, mas logo ficou calma. A presença de Juca lhe dava muita paz. Como se eles tivessem voltado ao passado, Bruna caminhou tranqüilamente até a dispensa e perguntou:
- Está com fome?

Juca entrou no mesmo clima. Sacudiu a cabeça dizendo que sim. E os dois juntos, sem explicarem nada, começaram a preparar o almoço. Conversaram amenidades, riram, arrumaram a mesa. Comeram juntos com uma conversa gostosa, sem pretensões. Nenhum dos dois sabia como e porque isso acontecia, mas deixaram fluir. Juca que não tinha certeza de como tinha ido parar ali, agora tirava os sapatos. Estava em sua casa, com alguém que se parecia com sua esposa. Não houve carícias de casal. Na verdade nem se tocaram. Apenas conversaram e também dividiram o mesmo silêncio. Ficaram a tarde juntos e a noite também. Dormiram no sofá da sala com a TV ligada. Era tudo muito tranqüilo, muito normal. Parecia que nada havia mudado.

No dia seguinte, os dois seguiram sua rotina, ignorando os últimos meses. Bruna tentou por algumas vezes falar com Juca sobre o que estava acontecendo. Ele sempre mudava de assunto. Quando estava pronto para ir para a JAEH, Bruna insistiu mais uma vez:
- Juca, não podemos fingir que nada aconteceu. Precisamos conversar.

Juca se irritou, respondeu ríspido:
- Quem foi o lesado da situação fui eu não foi? Então eu decido quando quero conversar, Bruna.

Bruna também gritou:
- Eu te fiz mal. Muito mal. O maior mal que eu poderia de fazer, eu sei disso! Mas eu também sofri, também levei meu troco. Me apaixonei por um canalha, perdi um filho, perdi meus amigos, minhas referências, minha ética. Agora estou aqui recebendo seu carinho. Um carinho de que preciso, mas sei que não mereço. Sinto o mesmo amor por você que sentia há meses, mas ele tem marcas, tem cicatrizes. Você sabe disso e não podemos fingir que nada aconteceu. Como você vai passar por cima de tudo que eu te fiz passar?

Juca se sentou novamente, largou sua pasta. Começou a chorar. Sabia que Bruna estava certa. Podia fingir que nada aconteceu apenas por alguns dias. Certamente em algum momento, alguma palavra, algum gesto, alguma coisa o lembraria de Marcelo, dos dois juntos, da dor. Ele amava Bruna, mas não conseguia perdoá-la.

Bruna interpretava o choro de Juca:
- Você não me perdoou, não é? Eu sei. Eu entendo e acho que também não conseguiria passar por cima de tudo. Eu quero voltar a nossa vida. Quero muito! Mais do que tudo! Mas não posso! A culpa, o sentimento de remorso e a falta do seu perdão, não vão nos permitir sermos felizes de novo.

Juca desabou, mas soluçando falou:
- Eu não entendo. O que aconteceu? Porque você fez isso comigo? Eu sei que não merecia. Éramos felizes, não éramos?

- Éramos muito felizes, Juca. Não me faltava nada, nem material, nem amor, nem nada. Nunca esperei que nosso casamento fosse uma eterna história romântica, sabia que um dia as coisas iam esfriar. Estava pronta pra isso, teria seu companheirismo, sua amizade e nosso amor. Já seria suficiente. Mas me enganei. Quando vi a possibilidade de transbordar novamente romantismo e paixão em minha vida, não resisti. Marcelo apareceu, se mostrou mais presente, mais apaixonado, mais disponível. Eu me encantei por ele. Fui manipulada em meu romantismo.

Juca nunca imaginou compreender Bruna. Mas compreendeu. A conhecia tão bem, que sabia o quanto era romântica, o quanto precisava disso. Foi assim que a conquistou, com o mais puro romantismo. Entendia o que havia acontecido, se culpava por ter deixado acontecer, mas também sabia que o casamento chegaria a ter dias mais amenos e também não achava isso ruim. Se perguntava se perdoaria Bruna algum dia. Se conseguiria confiar nela novamente.

Os dois ficaram um tempo em silêncio. Não havia mais nada pra ser dito. Juca reafirmou que o apartamento seria dela. Ele voltaria a seu flat.

Antes de sair, Juca a olhou pra Bruna com ternura. Bruna retribuiu e disse:
- Quando quiser, se quiser, como quiser. Podemos tentar.
Juca balançou a cabeça e saiu.

Nos dias que seguiram, eles se falavam por telefone. Depois começaram a almoçar juntos em um ou outro restaurante. Foram ao cinema. Eram bons amigos.



Na Bahia outro casal também adormeceu junto. Mas dormiram exaustos, cansados de se sentirem felizes, de se amarem. Lucila recuperou suas forças e também as extinguiu nos braços de Cadu. Os dois não conversaram, não acertaram os pontos. Não houve DR*, apenas seguiram seus instintos, exatamente como na primeira noite que ficaram juntos.

O dia acordou ensolarado, como se espera de um dia na Bahia. Os dois se olharam amassados, riram com a intimidade de quem nunca acordou junto. Se abraçaram, se beijaram e se amaram novamente. Lucila em alguns momentos achava que ia acordar, que tudo não passava de um sonho.

No seu íntimo confundia Cadú com outra pessoa. Não sabia direito quem ele era. Mas o Cadú piadista, às vezes sem graça, descombinado, largado não era o mesmo Cadu que a puxava pelos cabelos, que a beijava com delicadeza. Era difícil entender que eles eram um só. Lucila sabia, em sua experiência, que entre quatro paredes as pessoas se revelam novas pessoas. Mas também conhecia o Cadú que a consolou no calçadão de Copacabana, que foi seu amigo. O Cadú companheiro de trabalho, inteligente, esperto, ativo e que duplava com ela como ninguém. Todos esses “cadus” eram aquele homem que estava ao seu lado agora. Não era um príncipe encantado, não era perfeito, nem lindo, nem o melhor amante do mundo. Era o homem que ela queria agora. Pra agora e pra sempre. Ou para quanto o sempre durasse.


* discutir a relação

segunda-feira, 22 de junho de 2009

CAPÍTULO 47

Sol, sombra e cerveja gelada. O que mais Lucila podia querer? Mais nada certo? Errado! Apesar da incrível beleza do lugar e da companhia divertidíssima de Marcos, alguma coisa faltava pra ela. Era Cadu.

Desde que havia o encontrado no escritório, daquela maneira tão fria, não parava de pensar nele e na noite maravilhosa que tiveram juntos. Não entendia porque ele não retornou quando ela ligou para contar de Rafa. Ao contrário, ele foi bem ríspido e depois não apareceu mais. Lucila achava que eles poderiam ficar juntos, mas se enganou. É... Cadu era mais um cafajeste que depois que conseguiu o que queria, desapareceu.

Mesmo com o empenho de Marcos, Lucila não conseguia se animar. Ia dormir cedo, acordava tarde, andava mal vestida e mal cuidada pelos cantos do resort. Marcos, que sabia de tudo que havia acontecido com ela, tentava a enturmar em seu novo grupo de amigos, mas ela não se interessava.

As férias que seria para colocar sua cabeça no lugar, estavam a colocando em direção de alguém que não a queria. Racionalmente era isso que parecia, mas Lucila não acreditava. Cadu não era aquele tipo de homem. Ou era?
Olhou em volta e viu que Marcos estava bem entretido entre seus novos amigos, então pegou seu celular. Sem pensar, sem pesar, sem se fazer de boazona, difícil ou algo assim. Ela precisava saber. Por isso, ligou para Cadu.

Ele atendeu surpreso:
- Lucila?
- Oi. Eu queria te fazer uma pergunta.
- Uma pergunta?
- Sim. Por favor, responda sinceramente.
- Que pergunta?
- Porque você não me ligou mais?
- Por que? Como porque?
- Isso, quero saber porque? Não que eu esperasse que fossemos namorar, não é isso. Eu Só achava que pelo menos éramos amigos.
- Namorar?


A ligação caiu. Era inacreditável, mas a bateria tinha acabado e Lucila havia esquecido seu carregador em casa. Chegou a correr para um telefone fixo e depois desistiu. Podia ser um aviso do destino. Ficou na sua cabeça a pergunta que ele fez em tom de surpresa: -“Namorar?”. Que raiva que sentia de si mesma. Agora ele achava que ela queria namorar com ele. Não queria! Não queria?

Lucila foi para o quarto esperar a noite chegar.

No rio, Cadu ainda ficou um tempo olhando para o celular. Tentava ligar de volta e não conseguia. Ele já estava trabalhando no escritório de Bardot e foi ela que ouvindo seu telefonema, resolveu que deveria se meter.
- Cadu, você pode vir aqui na minha sala?

Cadu entrou e fechou a porta a pedido de Bardot. Ela perguntou:
- Cadu, meu querido. Por que você ainda não foi atrás de Lucila? Se precisar de uns dias, são seus!
- Não estou entendendo Bardot.
- Eu sou bem velha pra me enganar. Sei muito bem quando duas pessoas estão apaixonadas.
- Mas...Lucila tem namorado.

Bardot soltou uma enorme gargalhada. Ainda rindo disse:
- Tinha, né? Terminou logo depois de uma certa festa em Itatiaia. Vai me dizer que você não sabia?
- Não!
- Então agora sabe. E não quero vê-lo nesse escritório nos próximos dias. Estamos entendidos?


Cadu estava atordoado. As coisas começavam a fazer sentido. Quando Lucila o procurou querendo falar de Rafa, ele ficou furioso. Achou que ela quisesse conselhos de como lidar com o namorado mesmo depois do que tiveram juntos. Mas agora percebia que ela podia estar apenas querendo lhe contar sobre o término. Como tinha sido idiota.

Tentou ligar mais algumas vezes e nada. Pegou suas coisas e saiu do escritório atônito.

Depois de dormir durante quase todo o dia, Lucila foi acordada por Marcos que a obrigou a tomar um banho e vestir pois eles iriam sair. Lucila obedeceu, mesmo sem nenhuma vontade. Colocou o vestido que Marcos separou e até deixou que ele o maquiasse. Estava linda, mas triste como nunca esteve antes.

Os dois foram para a boate do hotel e Marcos logo apareceu com uma taça de prosseco. Lucila bebeu essa e muitas outras que surgiram. Ao contrário do que queria, a bebida não a deixou feliz e sim cada vez mais deprimida. Em um momento que Marcos conversava com um grupo, ela saiu de fininho. Parou em frente a uma das piscinas, agora iluminada pela lua cheia. Zonza de bebida chegou a ver Cadu caminhando pela borda da piscina. Esfregou os olhos, e continuava a ter aquela visão. Então fechou os olhos por alguns segundos esperando que a visão fosse embora. Sentiu um braço em seu ombro, seguida de uma voz bastante familiar:
- Talvez não seja uma boa hora para um mergulho. Não quer entrar?

Lucila não acreditou no que via. Era Cadu bem ali na sua frente. Antes mesmo que ela pudesse dizer alguma coisa, ele a beijou.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

CAPÍTULO 46

Na volta para o Rio, os dois não conseguiam disfarçar. Lucila ria do nada, Cadu também. Estavam simplesmente felizes. Nenhum dos dois falou sobre o que aconteceria daqui pra frente e nem tinham vontade de falar. Parecia não ser preciso.

Bardot acompanhava o casal dissimulado, que acreditava que não estava dando nenhuma pista do que estava acontecendo. Mas era óbvio que aqueles dois tinham se divertido muito na noite anterior.

Bardot tinha dado o dia de folga para Lucila como recompensa pelo belo trabalho em Itaipava. Lucila chegou em casa e viu um casaco de Rafa sobre a mesa. Sentiu um arrepio. Sua ficha tinha caído. Ela que sempre sofreu com a infidelidade, tinha feito o que mais condenava em uma relação: a traição.

Precisava contar para Rafa. Precisava? Nestas horas só Ana poderia ajudar. Lucila ligou pra ela e contou tudo que havia acontecido. Não sabia responder quando Ana perguntou o que ela sentia por Cadu. Ana era contra Lucila contar a verdade. Se ela já estava certa de que o namoro não ia bem, bastava terminar e poupar Rafa daquela situação.

Lucila pegou o casaco de Rafa. O apertou contra o peito com culpa. Alguma coisa caiu de um dos bolsos. Era um fósforo. Um fósforo de Motel. Rafa não fumava.
Ela ficou parada olhando pro fósforo. Ao invés de raiva, sentiu alívio. Ligou pra Rafa e marcou de almoçarem juntos.

Lucila não demorou na conversa. Foi objetiva. Simplesmente disse que eles já haviam tentado o suficiente, mas não era pra dar certo e que ela não o amava mais. Ao contrário do que esperava, Rafa não tentou se defender ou fazer Lucila mudar de idéia. Ficou calado ouvindo. Sério, puto. No fim, Lucila entrou o casaco à Rafa e saiu.

Rafa pegou o casaco e achou o fósforo no bolso. Se lembrou da noite que tivera com Silvia há dois dias. - Ela era mesmo insistente. – pensou Rafa.



Juca estava nervoso. Hoje era o grande dia. O dia do julgamento de Marcelo, Bruna e Antônio Carlos. Ele iria dar seu depoimento e isso o deixava nervoso. Já tinha decido omitir a ida de Bruna a seu escritório, quando acompanhada por Lucila fingiu acreditar que ele era o ladrão da história.

Logo que chegou ao tribunal, encontrou Manú. Ela também parecia nervosa. Mas ao contrário do que pensava Juca, seu nervosismo nada tinha a ver com o julgamento. Estava nervosa por encontrar Juca, seu grande amor.

Os dois se cumprimentaram e trocaram meia dúzia de palavras. Juca se certificou que Manú realmente não iria mencionar sobre a ida d Bruna ao escritório. Ela repetiu que não diria nada, mesmo que nitidamente não concordasse com aquilo.

Enquanto esperavam, Marcelo passou escoltado por dois policiais. Ao ver Juca, parou e disse:
- Olá amigo! Saudades suas! Pena que não poderia matar essa saudade. Daqui a pouco estarei livre e não pretendo me demorar por aqui.

Juca quase voou em cima de Marcelo. Manú o segurou, pedindo calma. Marcelo entrou na sala. Juca tentava se acalmar. Manú falou:
- Eu ainda não entendendo com namorei esse merda! Esse filho da mãe me enganou direitinho. Não sei como!

- Ele é bom nisso! Conseguiu enganar Bruna também. É um dissimulado!


Manú se irritou. Ela não acreditava que Juca já estivesse amolecendo em relação à Bruna. Era realmente insustentável assistir Juca pouco a pouco arrumando justificativas para o comportamento de Bruna.

Depois de um tempo, um após o outro, foram chamados para depor. Felizmente não cruzaram novamente com Marcelo, nem com Bruna.

Todo o julgamento demorou mais de três horas. A espera era angustiante. Juca andava de um lado pro outro. Manú enrolava os cabelos, batia os pés no chão. Até que o advogado entrou na sala de espera. Juca se levantou imediatamente:
- E aí doutor?

Satisfeito o advogado falou:
- Vencemos! E Marcelo ainda será julgado por homicídio, conforme esperávamos.

Manú sorriu, correu para abraçar Juca, mas antes que o alcançasse ele perguntou:
- E Bruna? O que vai acontecer com ela, doutor?

Manú parou. Fechou a cara e esperou a resposta do advogado que disse:
- Ela foi declarada cúmplice por ter a posse dos documentos e não entregá-los à polícia. Mas cumprirá pena em liberdade, prestando serviços à comunidade.

Manú gritou:
- Em liberdade? Juca você acha isso certo?

Juca agora mais calmo disse:
- A justiça que decidiu, Manú.


Liberada pela polícia, Bruna não sabia pra onde ir. Não tinha ninguém que pudesse telefonar. Suas amigas, seus pais. Não tinha coragem depois de tudo que fizera. Andou pelos corredores até que encontrou Juca, Manu e seu advogado. Parou diante dos três, os cumprimentou com a cabeça. Virou-se pra Juca e disse:
- Mais uma vez obrigada, Juca.

Se virou e continuou andando em direção a saída. Juca correu atrás dela. Quando a alcançou perguntou:
- Bruna, pra onde você vai?
Bruna sacudiu a cabeça. Juca tirou umas chaves do bolso e entregou para Bruna que imediatamente falou:
- Não, Juca! Não! É sua casa! Não posso aceitar.

- Bruna, desde que você saiu de casa, eu nunca mais voltei pra lá. Não conseguiria ficar lá sem.... Bom, não quis voltar. A casa é sua também. Fique o tempo que precisar, depois acertamos tudo.


Bruna aceitou. Não queria, mas não tinha outra opção. Sem emprego, sem dinheiro e sem amigos, não saberia como se virar se não fosse esta ajuda.

Juca saiu do tribunal acompanhado de Manú, que furiosa, não dizia uma palavra. Juca a convidou para comer alguma coisa, mas ela negou. Virou-se pra Juca e objetiva como sempre disse:
- Eu vou embora. Tenho que voltar para meu novo emprego. Você sabe onde me achar, mas por favor só me procure quando conseguir tirar essa louca da sua cabeça. Eu ainda não consegui te esquecer, mas pelo menos, eu tento.

Saiu andando, deixando Juca mais uma vez impressionado com ela. Sem saber o que fazer, Juca ligou para Lucila.
- Oi Juca! Eu ia te ligar. E aí? Como foi o julgamento?

Juca contou as novidades. Lucila também contou sobre ela e Rafa. Apesar da confusão permanente na vida dos dois, eles se consideravam bons amigos e com freqüência se falavam. Juca na verdade gostaria de se abrir para Lucila. Contar tudo o que ainda sentia por Bruna, mas a vergonha sempre o impedia.

Lucila desligou o telefone e voltou para a sala de Bardot, sua chefe. As duas colocava em dia as pendências para as férias de Lucila. Depois do término com Rafa, Lucila achou que seria uma boa idéia tirar uns dias de folga. Ela e Marcos, seu amigo gay também do escritório, passariam uns dias em um resort na Praia do Forte, na Bahia.

Assim que acertaram as pendências, Lucila saiu da sala e deu de cara com Cadu. Logo depois da festa em Itaipava, Lucila o procurou para contar o término com Rafa. Quando ligou dizendo que queria falar sobre Rafa, Cadu foi extremamente grosseiro. Disse que estava ocupado e que depois a procuraria. Passaram uns dias e ele não ligou. Foi quando Marcos comentou que iria para a Bahia e convidou Lucila pra ir junto. Faltando um dia para a viagem, Lucila acreditava que nunca mais veria Cadu e que ele seria apenas mais um dos que não telefona no dia seguinte. Agora se deparava com ele na sua frente.
- Oi Lucila.
- Oi Cadu. Tudo bem?
- Tudo e você?
- Melhor impossível. Faltam seis horas pras minhas férias.
- Ah.. vai viajar.
- Vou pra Bahia com um amigo
- Ah... que bom.


Bardot da porta da sua sala observava os dois. Percebia sérias rusgas naquele relacionamento. Ela se sentia responsável por Lucila ter voltado para Rafa e ter sofrido ao terminar. Torcia por ela e Cadu. Ela tinha os visto juntos e na sua opinião seriam um casal maravilhoso.
Ao ver Bardot, Cadu se despediu de Lucila e foi cumprimentar Bardot, com quem tinha marcado uma reunião. Lucila nem desconfiava, mas Bardot havia oferecido um emprego pra ele no escritório.

Lucila seguiu para sua mesa e tratou de ajeitar suas coisas. Não reparou quando Cadu saiu da sala de Bardot.

Na manha seguinte, Marcos a esperava no aeroporto. Juntos partiram para a Bahia.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

CAPÍTULO 45

De roupa nova e já pronta, Lucila esperava pela ligação de Cadu. Eram amigos, então é claro, ele não iria a buscar em casa. Não era um encontro romântico! Era apenas um jantar de bons amigos.

Cadu ligou dizendo que já estava indo para o restaurante. Lucila saiu de casa logo depois. Os dois chegaram na mesma hora. Cadu elogiou Lucila, que retribuiu o elogio. E não era mentira. Cadu estava mesmo bonito. Claro, que de novo vestia uma calça jeans e uma camiseta branca, seguindo outra vez o conselho de Lucila. Mas estava com um novo ar, algo diferente que nem Lucila conseguia identificar o que era.

Os dois pareciam se conhecer há muito tempo. Ambos falaram de suas vidas com muita tranqüilidade. Até as piadinhas de Cadu não atrapalhavam a conversa. Os dois conversaram a noite inteira e por fim Cadu perguntou a Lucila:
- Então amanhã você vai conversar com Rafa?

- Vou. Não sei como, mas não estou nervosa. E pra falar a verdade, nem sei o que vou dizer.

- Seja sincera. Conte a ele o que você está sentindo.

- É eu farei isso. Acho que nossa relação recomeçará muito mais forte se eu for sincera com ele como ele foi comigo.


Cadu engasgou:
- Recomeçará? Eu entendi que você tinha descoberto que não gostava mais dele.

- É, mas eu acho que eu e Rafa merecemos tentar. São muitos anos, muita história. Você acha que eu estou errada?


- Não. Se é o que você quer...


Cadu saiu do jantar menos animado. Não tinha percebido o quanto a idéia de Lucila continuar seu namoro tinha o abatido. Mas ao mesmo tempo estava feliz em ter tido uma noite tão agradável. Lucila era um delicioso presente. Uma mulher incrível. Uma excelente amiga. Ficaria feliz a vendo feliz. Ela merecia.

Mesmo descumprindo o combinado, Rafa ligou pra Lucila quando ela chegava em casa.
- Oi amor. Eu sei que não era pra eu ligar, mas estou com saudade.

- Tudo bem Rafa. Já estou chegando em casa. Amanhã nos vemos, certo?

- Não pode ser agora?


Quando Lucila saiu do carro viu Rafa parado na garagem. Trazia um buquê de rosas vermelhas. Lucila agradeceu. Tinha gostado da surpresa. Mas há poucos dias, teria se sentido a mulher mais feliz do mundo. Agora, ela apenas tinha gostado.

Os dois subiram. Lucila não queria transar com Rafa antes de conversarem. Queria ser honesta, abrir o jogo. Disfarçou pegando um copo de água na cozinha enquanto pensava no que fazer. Rafa se aproximou, bem mais tímido do que usual. Lucila o parou:
- Rafa, calma. Na verdade, eu não pretendia te ver hoje. Eu queria conversar com você amanhã, mas também não acho justo ficar fazendo mistério.

Os dois se sentaram na mesa da cozinha. Lucila não se lembrava de estar tão calma sobre um assunto tão sério, em anos. Rafa estava tenso. Mas Lucila conduziu como se falasse com uma criança. Falou por muito tempo sem nenhuma interrupção do namorado:

- Rafa, acho que não preciso te dizer que desde que me entendo por gente fui apaixonada por você. No nosso primeiro namoro éramos muito novos, vinte anos. Por quase todo o tempo não percebia nada de errado em nosso namoro, até que amadureci. Então percebi que nem tudo era tão bonito quanto parecia. Tentamos, nos separamos, voltamos. Acreditei que você tivesse amadurecido até que no casamento de Bruna...bom, você sabe. Achei que não podia mais me submeter a um relacionamento onde não havia confiança, sinceridade. Até que por causa da confusão de Bruna, nos reencontramos.E apesar do seu deslize, acho que acertamos a mão. Aliás, você acertou. Fez a coisa certa, foi sincero. E eu me senti dona da situação, sentia orgulho em te ver tão, tão... tão meu. Meu como nunca senti que fosse. Por sorte, percebi a tempo que estava sendo uma babaca contigo. Dominando você, usando o sentimento que você teve coragem de me mostrar. Mas junto com isso também percebi que meu sentimento por você não era mais o mesmo. Não é mais o mesmo.

- Lú, a gente se ama.

- Não sei, Rafa. Acho que não. Mas, não estou aqui pra terminar com você. Eu quero que dê certo. Quero me apaixonar de novo por você. Tenho certeza de que com a maturidade que você agora tem, vai dar certo, você vai ver.


Lucila não tinha esta certeza, mas não sabia como continuar aquela conversa. Então abraçou Rafa, que ainda atordoado com tudo que tinha ouvido, mal correspondeu. Os dois apenas dormiram juntos, abraçados.


Alguns dias se passaram e a rotina dos dois era sempre a mesma. Se encontravam depois do trabalho, às vezes jantavam fora, outras iam ao cinema. Rafa nitidamente se empenhava para reconquistar a namorada e Lucila também fazia o que podia pra sentir aquela paixão, que agora teimava em se esconder.

O trabalho no escritório seguia bem. Lucila e Cadu se encontravam com freqüência e os dois faziam uma bela dupla. Cadu não perguntava mais sobre o relacionamento de Lucila. O que era ótimo, pois ela também não tinha vontade de falar. Era como se Cadu e Lucila retrocedessem em sua amizade e tivessem voltado a ser apenas bons colegas de trabalho.

Na inauguração da casa de Itaipava, o cliente decidiu oferecer uma festa na própria casa para seus amigos e claro, para a equipe envolvida. Lucila, Cadu e Bardot eram os convidados de honra. Os três reservaram uma pousada e foram juntos para Itaipava.

Como era esperado, a festa estava deslumbrante. Lucila e Cadu estavam muito orgulhosos de seu trabalho. Beberam, dançaram, comemoraram. Talvez por conta da bebida voltaram a se tratar como aqueles amigos que jantaram juntos numa noite. Lucila ria das piadas sem graça de Cadu e mais uma vez achava ele bastante atraente.

Em momento da noite, Bardot se aproximou de Lucila e disse:
- Lucila, Lucila! Há tempo não te vejo tão brilhante, hein? Sabia que você e Cadu fazem um belo casal? Uma dupla do barulho! No trabalho, no amor....

- Que isso, Bardot! Imagina! Somos só amigos e eu tenho namorado, você sabe.

- Sei, sei. O famoso Rafa. Tá feliz?


Lucila não respondeu. Cadu chegou em seguida e a puxou pra dançar. Primeiro Lucila tentou escapar, mas depois, embalada pela música, se deixou levar.

Já eram altas horas da madrugada. Bardot já tinha ido embora. Cadu e Lucila estavam cansados e resolveram ir para a pousada. No caminho conversavam sem parar, nem eles entendiam como podiam ter tanto assunto e ser sempre tão bom. Quando chegaram na pousada, cada um foi para seu quarto. Lucila não sabia bem porque, mas achou melhor se despedir de longe.

Lucila entrou em seu quarto e ficou relembrando os bons momentos da sua noite. Alguém bateu na porta. Lucila abriu. Era Cadu que a puxou e lhe deu um beijo na boca. O beijo era meio desajeitado, molhado demais, mas Lucila não se importou.

Os dois se entregaram ao tesão. Um tesão completamente inesperado, imprevisível. Cadu era cuidadoso, romântico, atencioso. Não era um furacão como Rafa, mas era doce, meigo e tinha sua pegada. Eles se entrosaram tão bem na cama como nas conversas.

Quando terminaram, Cadu olhou Lucila nos olhos e disse:
- Você é uma mulher apaixonante.

Lucila respondeu:
- Você também.

terça-feira, 9 de junho de 2009

CAPÍTULO 44

Lucila não dormiu. Não parava de pensar nas palavras de Ana. Revia seu comportamento desde o jantar com Rafa, o dia em que ouviu dele próprio que tinha sido infiel. Nem ela sabia como havia lidado com tudo isso. Era um estranho sentimento. Em todos os seus namoros com Rafa, sempre o forçou a dizer a verdade e nunca conseguiu. E agora que sabia a verdade, não soube lidar com ela. Ao contrário Lucila suprimiu a infidelidade e apenas enxergou um Rafa submisso, humilde, desesperado pelo seu amor. Era louco isso tudo. No que ela havia se tornado? E o pior: no que o sentimento que ela tinha por Rafa havia se transformado?

“Nada” – pensou. Ela não sentia nada. Apenas orgulho, orgulho de vê-lo passar pelo que ele sempre a fez passar. Será que todo o amor que ela sempre achou ter por se resumia a um simples desejo de vingança?

Que mulher nunca sonhou em ver o ex namorado suplicando pelo seu amor e ter o gostinho de dizer um redondo não? Seria nisso que toda aquela paixão de uma vida inteira teria se transformado? Rafa só seria atraente se fosse um desafio?

Lucila rolou na cama até o dia amanhecer. Desistiu de dormir e se levantou. Era pouco mais de seis horas e Lucila decidiu ir caminhar na praia. Colocou seu tênis, um short e se foi. Copacabana já estava movimentada. Diversos velhinhos faziam seus exercícios matutinos. Lucila os acompanhava.

Enquanto caminhava achou que alguém tinha gritado seu nome. Não podia ser. Não aquela hora da manhã. Mas não era impressão. Um homem acenava. Lucila não enxergava quem era, estava contra o sol. Lucila espremeu os olhos e o reconheceu. Era Cadu que corria na orla. Ele veio em sua direção e Lucila não pode deixar de reparar no belo corpo do rapaz. Ela nunca imaginaria que por baixo daquelas roupas maltrapilhas e descombinadas pudesse ter um homem tão, tão...gostoso.

Cadu chegou perto de Lucila. Estava suado, seu cabelo como sempre despenteado, agora combinava com seu visual de atleta. Ele observou Lucila, como se surpreendesse com sua aparência.
- Oi Lú. Não sabia que você também gostava de acordar cedo.

Lucila sorriu. Tentou disfarçar, mas sabia que seria em vão. A ressaca física e moral da noite anterior estavam estampadas no seu rosto. Sem rodeios, Cadu disse:
- Não dormiu não é?

Lucila sacudiu a cabeça afirmativamente. Cadu a levou para um banco próximo onde os dois se sentaram. Ele a olhou com carinho como se quisesse saber dizer a frase perfeita para animá-la. Não sabia. Então, arriscou ser sincero:
- Desculpe me intrometer. Mas eu ontem percebi algo estranho em você. Sei que não nos conhecemos muito bem, mas você estava... diferente.

- É eu sei. Estava insuportável, não é?

Cadu não respondeu. E o ditado “quem cala consente” nunca foi tão apropriado. Ele tentou ajudar:
- Às vezes temos maus momentos. Acontece com todo mundo.

Lucila exausta e com a sensibilidade a flor da pele, começou a chorar. Entre seus soluços falou:
- Eu passei os últimos anos da minha vida procurando um grande amor. Sempre desconfiei que já tinha achado e que por circunstâncias da vida, eu tive que me afastar. Agora finalmente estávamos novamente juntos e eu consegui o que sempre queria de Rafa: sua sinceridade. Sinto que finalmente Rafa sente por mim o que eu sempre desejei que ele sentisse. Mas...

Lucila voltou a soluçar como uma criança. Cadu, meio desajeitado a abraçou. Apesar do suor no seu corpo, Lucila se aconchegou em seu peito. Precisava de um ombro amigo. Entre soluços continuou:
- Cadu, eu não sei. Mas eu acho que tudo que eu sentia por Rafa era uma ilusão. Fazia parte da minha imaginação.

Cadu a abraçou novamente, tirou o cabelo do seu rosto e a afagou como uma criança.

Lucila se sentia perdida. Não entendia toda aquela confusão de sentimentos. Mas a verdade era que Lucila caía na real: Rafa era muito mais interessante quando era um desafio. Vê-lo aos seus pés a fez perder todo o encanto. Conseguia entender o peso da traição de uma forma completamente racional. Via tudo com uma clareza impossível de existir no coração de uma mulher apaixonada.

Como se adivinhasse o que se passava na cabeça da amiga, Cadu disse:
- Tem vezes que nós buscamos fantasias para nos sentirmos vivos. Foi o que aconteceu em meu último relacionamento. Ignorei todos os sinais que ela me deu de que a relação não ia a diante. Cismei como um louco de seguir em frente, me forçando a acreditar que eu estava apaixonado e o pior: que era correspondido. Foi muito difícil pra mim admitir que me enganei, que me sabotei gratuitamente. Não se culpe, não se exija além do que você pode ir. A carência não é apenas uma palavra cafona e pejorativa, ela perigosa, mexe com os olhos, os ouvidos e com o coração da gente.

Lucila não imaginava que logo Cadu, que conhecia há poucos dias, pudesse ser tão incrivelmente sensível ao perceber o que se passava com ela. Cadu continuou com sua fala macia:
- Nós não somos mais crianças. Nossos amigos estão casando, alguns até se separando. Outros tem filhos e a sociedade, nossa família e até estes mesmos amigos começam a nos ver como vítimas, como os infelizes solteiros. E nós vestimos esta carapuça. Nos comportamos de forma irracional pra conseguir.... pra conseguir um amor.

Lucila sorriu. Era sua história, era descrição sincera dos seus sentimentos. Cadu se levantou e foi até o quiosque da praia. Lucila o observava de longe. Ainda estava absorvida pelas palavras de Cadu. Era como se ele conseguisse a ver por dentro. Já se sentia melhor e acreditava que não tinha mais que carregar nenhum peso por sentir o que sentia. Estava mais leve.

Cadu voltou trazendo duas águas de coco. Foram muito bem-vindas, já que Lucila não colocava nada no estômago desde a noite anterior. Os dois tomaram os cocos em silêncio. Quando acabou Cadu disse:
- Que tal marcarmos uma reunião em meu escritório durante a manhã?

Lucila não entendeu. Ele estava mesmo virando a chave e falando de trabalho e ainda mais marcando uma reunião com ela, que não tinha pregado o olho a noite inteira, pra daqui há algumas horas?

Cadu riu diante da cara de espanto de Lucila e continuou:
- Você liga pra Bardot, sua chefe, e diz que tem uma reunião comigo até o almoço. Que tal? Assim, você descansa e recupera o sono de que você precisa.

- Ahhh. Você me assustou. É eu acho que uma mentirinha não faz mal, né? Além do mais eu não seria capaz de fazer nada do jeito que estou.

- Então tá combinado! Descanse e se você estiver melhor, à noite podemos sair pra espairecer. Acho que nós como solteiros carentes assumidos merecemos um pouco de diversão, não é?

Lucila rindo concordou. E fez como combinado. Foi pra casa e dormiu algumas horas. Foi o que precisava pra se recuperar. Quando acordou, tinham duas ligações de Rafa. Não queria resolver nada sobre Rafa ainda, mas também não queria ser ainda mais filha da mãe com ele. Então ligou de volta:
- Oi Rafa. Desculpa não ter te atendido antes.
- Tudo bem meu amor. Como você está?
- Estou bem. Mas preciso te pedir uma coisa.
- Qualquer coisa, Lú.
- Preciso de um tempo pra mim, não quero mais agir de forma tão idiota. Sei que você vai dizer que não, mas eu sei. Então, me dê até amanhã, ok? Eu combinei um jantar hoje com uma pessoa amiga. Preciso disso. E prometo que amanhã nós vamos nos sentar e colocar tudo no lugar está bem?
- Mas o que aconteceu? Aconteceu alguma coisa? Eu fiz algo de errado? Me desculpe eu não queria...


Lucila o interrompeu. A humilhação que Rafa se permitia, agora a machucava. Se sentia ainda mais horrível.
- Rafa, você não fez nada. Por favor. Não faça isso. Eu só quero um dia pra mim, ok?

Rafa não se conformou, mas com o pavor que agora sentia em magoar e perder Lucila, nem ele entendia a forma como agia. Nunca tinha se sentido tão frágil, tão fora do controle e parecia que pela primeira vez sentia algo parecido com ciúme.

Lucila trabalhou tranqüila durante a tarde. Antes de ir pra casa parou no shopping com a desculpa de que comprar a deixaria melhor, mas na verdade queria vestir algo novo no jantar com Cadu.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

CAPÍTULO 43

Estava quase tudo acertado com a Polícia Especial de Miami. Faltava apenas um retorno sobre os filhos de Consuelo. O advogado não tinha muitas esperanças sobre isso. Sabia que os EUA não poderiam abrir um precedente como este.

Consuelo estava assustada. Acompanhada por Juca se sentia um pouco mais segura, mas sabia que ele não poderia ficar todo o tempo ao seu lado e isso a deixava apavorada. Sabia de histórias de outros latinos com a polícia e o desfecho nem sempre era bom. Mesmo assim, sabia que precisava arriscar. Por Bruna e por ela mesma.

Juca pediu para que se acalmasse e contasse tudo como tinha feito pra ele, sem medo que tudo daria certo. Consuelo entrou acompanhada de seu advogado de Bruna, que agora também era seu advogado.

Juca ficou aguardando do lado de fora. Sabia que todos os depoimentos já haviam sido colhidos, inclusive o de Bruna, que agora apenas aguardava sua extradição para o Brasil, que seria no dia seguinte. Assim, ela seria julgada em seu país, pelas leis brasileiras. Juca tinha marcado sua passagem para o dia seguinte. Depois do depoimento de Consuelo e sua legalização, não teria mais no que ser útil. Além disso, precisava voltar para a JAEH. Desde que Manú se demitira não tinha ninguém a quem pudesse confiar sua empresa.

O depoimento durou pouco mais de uma hora. Primeiro saiu o advogado. Ele fazia um sinal de positivo. Logo depois Consuelo. Logo que viu Juca, correu em sua direção:
- Seu Juca! Seu Juca! Eles vão me dar o Green Card! E meus filhos poderão vir daqui há dois anos! O senhor acredita?

A alegria de Consuelo era enorme. Juca não entendia como podia ser bom ter que esperar dois longos anos para ter seus filhos. Mas para uma mulher que não sabia se os veria novamente, realmente isso era uma grande vitória.

Juca e o advogado foram buscar as últimas informações sobre o caso com o agente brasileiro. Ele informou que se o crime de assassinato se comprovasse dificilmente Marcelo conseguiria ser safar. Sobre a extradição, talvez acontecesse por Marcelo estar respondendo a outro crime no Brasil, era a fraude da JAEH.

O advogado ainda explicou mais alguns trâmites. Depois de ficar a par de tudo, Juca fez um último pedido. Queria ver Bruna antes de partir para o Brasil. Sabia que lá seria mais difícil para ele estar com ela. O agente da PF mais uma vez deixou claro que não entendia e muito menos concordava com todo o cuidado que Juca tinha com ela, mas deu um jeitinho brasileiro e conseguiu a visita.

Bruna estava de pé olhando para a pequena janela. Não havia vista, apenas um pedacinho de céu, que Bruna agora admirava. Desde que capturaram Marcelo ela só recebia visita de seu advogado e apesar da curiosidade, se continha em perguntar sobre Juca. Como já haviam se passado alguns dias, Bruna imaginava que Juca já tivesse retornado ao Brasil. Sua surpresa foi enorme quando ouviu sua voz:
- Bruna?

- Juca? Nossa que bom te ver! Achei... achei que você já tinha voltado pro Brasil.


O guarda abriu a porta da cela e Juca entrou. Bruna que desde seu confronto com Marcelo rezava por essa visita, não se conteve e o abraçou. Juca ficou desconfortável. Ele queria corresponder, mas não podia. Se manteve duro, braços arriados ao lado do corpo. Bruna percebeu que não foi correspondida e disse:
- Desculpe. Me desculpe, eu não devia. Mas desde que eu vi o Marcelo. Aquele cachorro! Eu me sinto completamente sozinha e só você, só você que...

Bruna parou de falar. Se sentou na beira da cama e apoiou a cabeça com as mãos por um tempo e repetiu:
- Juca, me desculpe. Eu só tenho que te agradecer por tudo que tem feito por mim, mesmo eu não merecendo. Obrigada.

No seu íntimo Juca concordou. Mas se sentia frágil diante de Bruna. Pensou em falar alguma coisa, mas Bruna foi mais rápida. Ela contou sobre o rápido encontro com Marcelo, que agora não estava mais naquela delegacia. Contou sobre o que pensou, o que sentia e reforçou:
- Eu quero te ajudar. Vamos colocar ele atrás das grades. Eu vou te ajudar a recuperar tudo. Eu prometo.

Definitivamente Bruna voltava a ser a mulher por quem Juca havia se apaixonado. Decidida, forte, mas com uma aparência frágil, feminina, linda. Pensava que nada do que Bruna queria ajudá-lo a recuperar era realmente importante. O maior bem que ele tinha perdido estava ali na sua frente.

Interrompidos pelo guarda que avisou que o tempo de visita havia acabado, Juca se apressou em contar que também voltaria para o Brasil no dia seguinte e que provavelmente os dois só se veriam sob juízo. Bruna concordou. O advogado já a havia informado de como seria sua volta.

Os dois se despediram de longe e Juca saiu da visão de Bruna.

Bruna chorou.

domingo, 7 de junho de 2009

CAPÍTULO 42

Até Rafa, que não tinha nenhum tipo de pudor quando o assunto era sexo, se impressionou com a postura de Lucila na cama. Depois de arrancar as roupas de Rafa, Lucila se mostrou bem mais atrevida do que o normal. Era dona da situação, estava no comando e isso aumentava ainda mais seu tesão. Rafa, apesar de um pouco assustado, não podia negar que era uma maravilhosa surpresa ver sua namorada tão sexy e segura de si. Mas de alguma foram isso mexia com seu brios de homem acostumado ao comando.

Foi uma noite intensa, que acabou com os dois extasiados na cama. Rafa ainda não entendia muito bem tudo que acontecia, mas sabia que o melhor era deixar levar.
Lucila se levantou, colou um hobby e antes de entrar no banheiro falou para o namorado:
- Meu amor, melhor você ir. Já é tarde e amanhã tenho que acordar cedo. Preciso dormir bem, tenho uma importante reunião logo cedo.

- Melhor eu ir? Ir pra casa?

- Isso.

Lucila entrou no banheiro e Rafa confuso começou a catar suas roupas pela casa. Não entendia porque tinha que ir embora. Eles sempre dormiam juntos. Mas estava em desvantagem, então obedeceu.

Ela o levou até a porta, se despediram com um beijo quente. Lucila disse:
- Obrigada! Precisava relaxar.

E fechou a porta. Rafa ficou parado esperando o elevador. Definitivamente aquela não era a Lucila que ele conhecia.

Lucila teve uma maravilhosa noite de sono. Acordou absurdamente bem disposta e cheia de idéias para seu novo projeto da casa de Itaipava. Mesmo do caminho para o escritório ligou para Cadu. Tinha que dividir com ele as idéias que tinha. Os dois marcaram um almoço para discutirem as idéias.

No almoço Lucila falava sem parar. Sua criatividade estava a mil por hora. Contava seus planos, fazia anotações. Cadu apenas ouvia e concordava com um sacudir de cabeça. Depois que comeram, Cadu finalmente abriu a boca:
- Lucila, suas idéias são ótimas. Desculpe se não demonstrei entusiasmo, mas não tem nada a ver com suas propostas. Eu que não estou muito bem.

Lucila que até então não tinha parado para olhar Cadú, reparou que ele estava ainda mais esculhambado do que o normal. Fora suas roupas amassadas e descombinadas, tinha olheiras profundas e um ar de total desamparo. Lucila perguntou:
- Aconteceu alguma coisa Cadu? Você está tão abatido.

- Aconteceu sim. Eu nem sei como estou de pé. Estou arrasado. Minha namorada terminou comigo. Não entendo. Não sei o que eu fiz.

Cadu começou a chorar, como se fosse uma criança. Lucila em princípio havia se arrependido de perguntar o que havia acontecido. Não queria que nada atrapalhasse seu momento tão criativo. Mas aos poucos foi sentindo pena de Cadu. Era óbvio que aquele namoro não duraria muito. Mas ele por algum motivo, não havia percebido isso.

Lucila tentou confortá-lo. Mentiu ao dizer que o achava um cara muito interessante e que tinha certeza de que não faltariam boas opções para ele.
Ele agradeceu o carinho de Lucila e se desculpou pelo papelão. Disse que tiraria a tarde de folga para se recuperar e que no dia seguinte procuraria Lucila para detalharem o projeto. Lucila compreendeu e como sua mais nova amiga o fez prometer que não ligaria para a ex.


Alguns dias se passaram e Lucila e Rafa mantinham sua nova relação. Lucila dizia onde e quando queria vê-lo e ele prontamente atendia. Cadu também parecia bem melhor, mais disposto e falava ter conseguido se reerguer por causa da ajuda da nova amiga.

Lucila então teve uma idéia brilhante: iria apresentar Carla, sua amiga de trabalho ao Cadu. Como ela ainda não tinha pensado nisso? Carla vivia cada dia da sua vida pela esperança de arrumar um namorado. Estava tão desesperada que nem se importaria com a aparência de Cadu.
Cadu por sua vez era tão carente, que cairia como uma luva à obsessão louca de Carla. Estava resolvido! Eles seriam um casal perfeito!

Lucila resolveu fazer um queijos e vinhos em seu apartamento. Convidaria Ana e André que tinham acabado de chegar de viagem, Carla, Cadu e claro ela e Rafa. Ligou pra Rafa pedindo para que ele providenciasse os vinhos, enquanto ela cuidaria dos petiscos. Lucila não contou seu plano para Carla ou Cadu, queria que fosse uma surpresa. Os dois certamente se apaixonariam assim que se olhassem.

Os dois confirmaram a presença. Estava tudo certo. Lucila arrumou a casa, decorou com velas acesas e contou seu plano para Rafa e Ana, que seriam seus cúmplices na missão de unir mais um casal feliz.
Os primeiros a chegar foram Ana e André, que trouxeram lembrancinhas da viagem e tinham muita história pra contar. Lucila dava as coordenadas dos últimos detalhes e Rafa obedecia. Ana percebeu a mudança da amiga e principalmente a total obediência de Rafa.

O segundo a chegar foi Cadu. Seguindo os conselhos de Lucila, ele vestia uma calça jeans e uma camiseta branca lisa, sem nenhum estampa de Che Guevara ou algo parecido que ele costumava usar. Lucila o olhou e viu que tinha feito um bom trabalho. Ele estava até bonito. Tinha aparado o cabelo e feito a barba. Sorriu aberto quando Lucila abriu a porta e pareceu surpreso quando viu que haviam outras pessoas no apartamento.

Logo depois, o porteiro avisou que Carla estava subindo. Rafa que a recebeu. Quando abriu a porta não entendeu. Carla estava acompanhada de um rapaz. Rafa olhou para Lucila que sem perceber foi totalmente indiscreta:
- Carla? Você não disse que vinha acompanhada!

Carla ficou sem graça e mais ainda seu par. Ana vendo a situação constrangedora disfarçou:
- AHHAHAHA. Essa nossa amiga, né Carla! Tão ciumenta. Aposto que vai brigar com você por não ter contado sobre seu amigo. Ela é assim com todo mundo. Não liga não.

Lucila sorriu amarelo.

A noite transcorreu de uma forma curiosa. Ana e André abismados com o novo comportamento de Lucila, que falava alto, cortava os assunto dos outros, parecia se achar melhor do que os outros e dava comandos à Rafa que surpreendentemente cumpria sem reclamar.

Cadu estava completamente calado, louco para ir embora. Se achava mais uma vez um completo idiota. Como podia ter imaginado que Lucila tinha o chamado para um encontro a dois. Claro que não.

Carla dando atenção, como sempre excessiva, ao seu novo casinho, que parecia procurar o botão de eject.

No final da noite, só Lucila parecia feliz com seu queijos e vinhos, apesar de seus planos iniciais não terem dado certo.
Todos começaram a ir embora e Rafa também se despediu, já sabendo que não era do desejo de sua namorada que ele dormisse por ali. Ficaram Ana e Lucila arrumando as coisas. Ana não resistiu e falou:
- O que está acontecendo Lucila? Você está tão.. tão...tão...insuportável. Foi extremamente desagradável como todo mundo esta noite. E o Rafa? O que aconteceu pra você tratar ele assim?

Sem papas na língua, Lucila respondeu em seu tom mais arrogante:
- O que aconteceu? Ele me traiu. E se quiser ficar comigo, vai ter que agüentar.

- Ele te traiu e você se tornou uma vaca! Ah que ótimo! Uma bela maneira de se vingar dele é sendo insuportável com seus amigos. E eu duvido que você esteja feliz sendo assim. Pensa bem se é isso que você quer ser.

Ana e André foram embora e Lucila pela primeira vez desde o maldito jantar com Rafa, se deu conta do que estava acontecendo. Ana mais uma vez estava certa: ela não estava feliz.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

CAPÍTULO 41

Conforme havia combinado com Consuelo, logo na manhã seguinte, eles se encontraram com o advogado para discutir sobre as possibilidades de negociarem o depoimento de Consuelo em troca de seu visto permanente.

O advogado afirmava que se Consuelo pudesse identificar o provável assassino da Dra. Joana, isso seria um grande salto no caso e que era comum conseguirem esse tipo de negociação, visto que Consuelo vivia sozinha, sem família. Neste ponto da conversa, Consuelo interrompeu o advogado:
- O senhor me desculpe. Mas não vivo sozinha. Encontrei meu primo Ramirez que já tem o grenn card e vive com sua mulher aqui em Miami.

- Claro, claro. O que eu quero dizer, Dona Consuelo, é que a senhora só pede o visto para a senhora, não para sua família. Isso torna mais fácil, inclusive para senhora trazer seus filhos depois.

Consuelo se iluminou. Nunca havia pensado nessa possibilidade. Viver em Miami, a cidade dos sonhos, junto com seus filhos. Eles poderiam estudar, aprender inglês e se tornarem alguém na vida.

Juca sorriu, interpretando o olhar de Consuelo. Imaginava como deveria ser dura sua vida, longe de seus filhos, de suas raízes. Ele tinha sido bruscamente separado de sua família: Bruna. Sabia o quanto era triste, sofrido. Num ímpeto de solidariedade, Juca sugeriu:
- Vamos pedir a vinda dos filhos de Consuelo também. Ambos com o Green Card. Se não conseguirmos, baixamos a proposta para o visto apenas de Consuelo. Precisamos pedir alto primeiro. É base de qualquer negociação.

O advogado se assustou. Ainda argumentou que poderia ser uma jogada arriscada. Juca não deu bola. Repetiu que queria que a proposta para a Polícia de Miami incluísse a vinda dos filhos de Consuelo e afirmava que isso seria simples, se comprovassem o assassinato.

Consuelo sorria para Juca. Pensava em seus filhos. Pensava em como Dona Bruna tinha deixado aquele santo homem pra trás.

Na delegacia, o agente brasileiro organizava os depoimentos de Marcelo, que só falaria na presença de seu advogado, e de Bruna. Enquanto aguardava ser chamado, Marcelo ocuparia uma cela próxima a de Bruna.

Bruna lia quando ouviu uma grande movimentação no corredor. Andou até as grades e viu Marcelo sendo colocado em uma das celas. Seu ódio foi tanto que começou a gritar:
- Desgraçado! Filho da puta! Você ia me deixar aqui? Ia? Seu filho da mãe!

Ouvindo os gritos de Bruna, Marcelo parou antes de entrar no único ponto em que os dois podiam se ver. Ele se virou pra ela e disse com um ar totalmente debochado:
- Deus sabe o que faz! Eu não poderia ter um filho com uma mulher tão sem classe como você.

Dito isso, entrou em sua cela. Bruna não podia mais vê-lo, o que não a impediu de continuar o xingando. Se ela ainda tinha dúvidas sobre o caráter de Marcelo, ele tinha as tirado agora. Sabia que agora estava sozinha nessa.

Passado um tempo após seu acesso de raiva, Bruna não se sentia tão viva há tempos. Tinha sede de vingança. Queria acabar com Marcelo. Tudo na sua mente se tornou muito claro. Voltou ao passado e viu um filme de sua história com Marcelo.

Bruna vivia muito bem com Juca. Eram felizes. Ela havia deixado a JAHE, empresa de Juca, logo depois que se casaram e se dedicou a fazer o que realmente gostava. Fazia cursos, yoga, dança e ainda se preparava para começar um projeto social com patrocínio da empresa do marido.

Ela e Juca tinham uma vida social bem intensa. Muitos jantares ligados as relações de trabalho de Juca, viagens, congressos. No início Bruna adorava acompanhá-lo, mas com o passar do tempo o fazia apenas para agradar ao marido, que na sua opinião, merecia este sacrifício.

Algumas vezes se sentia entediada com sua vida e sempre que isso acontecia, pensava em voltar a trabalhar. Juca sempre desrecomendava e sugeria que ela começasse algum novo curso ou focasse no projeto social que ainda estava no papel. Assim, Bruna se matriculava em um novo curso e a mudança de rotina logo surtia efeito e ela se sentia melhor.

Numa vez em que acompanhava o marido em um congresso em Porto Alegre, Bruna teve mais contato com Marcelo Zacaro. Claro, eles já se conheciam desde de a época que Bruna trabalhava na JAEH, mas nunca tinham conversado. Bruna se surpreendeu com a simpatia de Marcelo, sua cultura e a educação que ele exibia. Era extremamente charmoso e isso era bem observado pelas esposas dos demais executivos.
Bruna achava ridículo ver todas aquelas mulheres se derretendo para ele. – Elas não tem vergonha na cara? – Marcelo se mostrava sem graça com essa situação e sempre que podia se refugiava em sua nova amiga: Bruna.

Com os constantes compromissos de Juca, nos quatro dias de congresso, Marcelo foi sua maior companhia. Sempre a procurava sugerindo irem conhecer algum lugar da cidade ou somente para jogarem conversa fora no lobby do hotel.

Juca parecia não se incomodar com a amizade dos dois, talvez por saber que Marcelo fosse namorado secreto de sua assistente Manú.
Manú sim, que ao saber da amizade dos dois ficou claramente incomodada. Bruna não sabia da relação dos dois, então atribuía isso à óbvia antipatia que Manú sempre teve com ela.

Depois de Porto Alegre, como por mágica, Marcelo e Bruna sempre se cruzavam sem querer. Era uma coincidência atrás da outra. Uma vez na saída da academia de Bruna, outra nas proximidades de seu curso de feng shui e até uma vez que Marcelo sem querer fechou o carro de Bruna, provocando a maior confusão na rua. Os dois riam sempre deste dia, relembrando como tinha sido divertida a tarde pós batida.

Bruna lembrava de tudo em detalhes. E agora desconfiava da veracidade de tantas coincidências. Tentava descobrir em que momento exato Juca deixou de ser tão importante dando lugar à Marcelo. Não sabia ao certo. Marcelo ia cada vez mais participando da sua vida e Juca cada vez menos, nem sempre por culpa dele, a própria Bruna já não dava tanta importância para a companhia de Juca.

Um dia quando já tinha certeza de seu casamento não era mais o mesmo, Bruna discutiu com Juca, como sempre por uma besteira. Saiu de casa à noite, sem destino. Quando parou em um bar, deu de cara com Marcelo que por mais uma incrível coincidência estava sentado no balcão. Os dois beberam a noite toda. Marcelo contava histórias divertidas e Bruna ria. Ela se sentia bem, livre. Em um momento da noite, Marcelo pegou na sua mão. Bruna sentiu um frio na barriga. Algo que não sentia há muitos anos. Ele a beijou. Naquele momento, Bruna como romântica irrecuperável que era, sabia que estava loucamente apaixonada por aquele homem.

Os dois começaram a ter um caso. Se encontravam as escondidas todos os dias. Primeiro em motéis na Barra, depois Bruna começou a ir ao apartamento de Marcelo. Foi numa destas idas que Bruna achou uma pasta com documentos que comprovavam o esquema da JAEH com o governo. Bruna questionou Marcelo sobre aquilo e ele, de uma forma que hoje Bruna não sabia como, conseguiu convencer Bruna de que ele tinha sido envolvido naquilo pelo seu pai. Waldemar Zacaro sempre fora ligado à política. Era um velho lobo, que por toda sua vida aparecia envolvido em alguns escândalos, mas logo depois sempre estava em um bom cargo novamente. Bruna acreditou que a influência do pai havia prejudicado o discernimento de Marcelo, que agora se dizia arrependido.

Bruna acreditou. E concordou em simular toda aquela história contra Juca para inocentar seu novo amor. Marcelo garantia que Juca não seria prejudicado e que ao acusá-lo, Bruna apenas arrumaria um motivo para o divórcio sem ter que revelar nada sobre Marcelo.

Lembrando de tudo, Bruna se sentiu uma completa idiota. Chorou. Chorou de raiva de si mesma, da sua burrice, da sua cegueira e do que deixou pra trás. Tinha vergonha do que tinha feito Juca passar. Pensava em Lucila e Ana. Como ela pode ter envolvido suas melhores amigas nisso? Olhou a data em seu relógio e concluiu que a essa altura Ana já estaria casada e em lua de mel. Como gostaria de ter ido ao casamento de Ana. Como gostaria de voltar no tempo.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

CAPÍTULO 40

O jantar não tinha sido tão ruim como Lucila esperava. Por algum motivo Cadu estava menos “engraçadinho”. Os dois conseguiram conversar tranqüilamente sobre trabalho e até sobre alguns assuntos pessoais.
Lucila ainda estava curiosa sobre como seria a namorada de Cadu. Não tinha conseguido descobrir muita coisa no jantar. Mas ainda teriam um dia inteiro e toda viagem de volta. E foi na viagem de volta para o Rio, que Lucila perguntou:
- Cadu, você namora há muito tempo?

- Eu? Não. Tem pouco tempo, mas é muito intenso, sabe?

- Quanto tempo?

- Nos conhecemos há menos de um mês. Quer saber como?


Lucila, é claro, respondeu que sim. E Cadu contou que estava em um aniversário quando sem querer derrubou seu drink em uma garota. A garota gritou, o xingou, mas mesmo assim Cadu ficou encantado. Sentia que tinha algo diferente naquela mulher e resolveu investir. Durante toda festa, recebeu toco em cima de toco, até que já no finalzinho, ganhou um beijo e conseguiu o telefone dela. No início, ela dizia não querer compromisso, pois havia acabado de sair de uma relação. Mas com o tempo, ela parecia ter mudado de idéia.

Lucila ficou com pena de Cadu. Era óbvio que essa mulher não queria nada com ele. Tudo que ele contava não tinha recíproca, mas só ele não percebia. Isso, somando às várias tentativas de Cadu em telefonar para a namorada, todas sem sucesso, só reforçava que ele estava cego.

Lucila ficou preocupada em também não estar dando atenção aos sinais negativos de sua relação e por isso se comprometeu consigo mesma em colocar a história do anel e do dia do casamento de Ana, em pratos limpos.
Por isso, mesmo do caminho, ligou pra Rafa e combinou de encontrá-lo mais tarde em um restaurante. Rafa insistiu para que eles jantassem em casa, mas Lucila foi firme. Sabia que precisava de um território neutro, onde não cederia aos encantos do namorado.

A viagem acabou sem maiores problemas. Cadu deixou Lucila em casa e tentava insistentemente falar com sua namorada que não atendia a nenhuma de suas ligações. Mesmo sabendo que estava se intrometendo, Lucila arriscou:
- Que tal você fazer o mesmo com ela? Fica um tempo sumido, ela vai te dar valor.
Cadu não achou graça no conselho de Lucila. Foi ríspido em sua resposta:

- Cada um sabe cuidar da sua vida, não é mesmo?


Apesar do desfecho não muito agradável, os dois se despediram cordialmente e combinaram os próximos passos do projeto.

Lucila entrou em casa já pensando em que roupa colocaria. Seria imprudente usar algo provocativo, mas também seria burro não fazê-lo. Seja lá como fosse o andamento de sua conversa com Rafa, ela queria sair por cima. Queria ser valorizada por ele. Então, resolveu pelo meio termo. Um blusa preta de mangas compridas, não muito justa mas com um belo decote. A calça jeans daria a informalidade de que precisava e a sandália de salto, ajudaria a equilibrar sua auto-estima. Faltava pouco para a hora marcada, mas Lucila se arrumava lentamente. Desde que havia marcado o jantar, já tinha decidido que se atrasaria pelo menos vinte minutos. Isso fazia parte do seu plano.

Faltando dez minutos para a hora marcada, Lucila saiu sem pressa de casa. Quando entrou no carro, ainda pensou que talvez fosse mais prático pegar um táxi. Mas claro que isso era uma reação do seu inconsciente que esperava que Rafa tivesse boas justificativas pra tudo e que em um final feliz, os dois iriam juntos pra casa. Lucila não tinha garantias e precisava ter força para não se deixar levar mais uma vez.

Quando entrou no restaurante não viu Rafa. Olhou para um lado, para o outro e nem sinal dele. Não acreditava que ele pudesse se atrasar justo para aquele jantar que definiria o futuro de suas vidas.
A recepcionista veio em direção de Lucila que explicou que tinha uma reserva, mas aguardava o namorado. A moça apontou para o bar, onde Rafa distraído tomava um wisky, Alívio e tensão tomaram conta dela. Sem que ele percebesse, Lucila o olhava, percebia cada traço, cada gesto e se certificava de quanto ele era lindo. O modo de se sentar, de apoiar o copo no balcão. Quando Rafa olhou nervoso para o relógio, Lucila sentiu um calafrio. Aquele gesto era pra ela como uma prova de amor. Um sinal de que ele estava ansioso por sua chegada. Lucila quase se esqueceu do motivo porque estava ali.

Rafa olhou pra trás como se sentisse a presença de Lucila. Seu sorriso ao vê-la deixou até a recepcionista do restaurante atordoada. Era iluminado, sedutor, incrivelmente bonito. Lucila tremia. Como poderia confrontar um homem como ele? Como teria forças se mal conseguia resistir a um simples sorriso?

Ele levantou do banco alto, e foi em direção a namorada. Sua expressão era de felicidade. Felicidade genuína, ninguém poderia negar. Ele primeiro a abraçou forte e foi a beijando do pescoço até a boca. Discretamente, sem ser vulgar para o ambiente que estavam. Lucila estava dura como uma pedra. Não se mexia. Respirava rápido, quase na mesma velocidade que seu coração. Rafa se afastou e a olhou:
- É tão bom ver você!

Lucila sorriu e se virou para a recepcionista que assistia a tudo de boca aberta:
- Onde é nossa mesa?

A menina os levou até uma mesa de canto, com um sofá. Lucila não gostou. Precisava pelo menos de uma mesa que os separasse. Então pediu:
- Não tem uma sem sofá?

Sem acreditar que a cliente não quisesse se sentar no sofá com aquele deus grego, a menina disse:
- Sem sofá? Bom, temos essa.

- Está ótimo.


Os dois se sentaram. Rafa entendeu que a conversa não seria tão fácil. Na verdade, já sabia disso desde que Lucila mal atendeu suas ligações enquanto viajava. Mesmo assim, desta vez, não conseguiu planejar nada. Sua enorme facilidade de inventar histórias para as mulheres, havia o deixado na mão. Teria que improvisar e isso também o deixava nervoso. Nunca tinha passado por isso. Sentia culpa, que era um sentimento totalmente novo para ele.

Lucila se refugiou atrás do cardápio por alguns minutos. Não sabia como começar. Não tinha apetite, muito menos conseguia ler alguma coisa daquela lista de pratos. Rafa também olhava o menu, mas por de trás, observava Lucila. Arriscou sugerir um prato, que Lucila fez que não com a cabeça. Por fim, ela pediu uma salada e ele uma massa. Ela recusou o vinho indicado pelo namorado, pedindo uma água sem gás. Precisava ter total controle da situação. Ele pediu uma taça de vinho. Precisava relaxar.

Assim que as bebidas foram servidas, ambos tomaram enormes goles. Lucila pela primeira vez encarou Rafa e respirando fundo perguntou, tentando manter a voz calma:
- Preciso saber a verdade. Já sei que você não esteve no escritório no sábado. Então por favor, não me faça sentir ainda mais idiota do que eu já estou me sentindo.

Rafa se apavorou. Lucila nunca o tinha visto assim. Ele não sabia como começar e nem o que dizer. Bebia o vinho e comia torradas do couvert para ganhar tempo. Lucila continuou:
- E sobre o anel. Também preciso saber de quem é aquele anel e porque estava no seu banheiro.

Rafa sorriu amarelo tentando disfarçar. Diferente do seu comportamento habitual, desta vez não tinha o jogo de cintura que sempre o ajudava a sair de situações como esta. Estava pálido, tenso e Lucila podia jurar que estava trêmulo.
Alguns minutos se passaram em silêncio. Rafa se mexia na cadeira, se ajeitava, abria a boca, mas desistia. Lucila foi ficando com raiva. Sua vontade era sacudir Rafa até que ele falasse alguma coisa. Perdeu a calma, perdeu o juízo e gritou:
- Fala, Rafa! Eu não agüento mais. Fala o que aconteceu? Chega de me fazer de otária! Eu não vou ser passada pra trás de novo! Não vou!

O restaurante inteiro olhou pra eles. As mulheres, que antes olhavam sedutoras para Rafa, agora o olhavam com desprezo. Mesmo sem saber da história, qualquer mulher que assistisse aquela cena entenderia que se tratava de mais um caso de um lindo cafajeste magoando uma mulher apaixonada.
Rafa olhava pra baixo e nessa posição começou a falar:
- Eu não tive culpa. Desde que nos separamos da última vez, não tive nenhum relacionamento sério. Não conseguia. Me envolvia com mulheres por pouco tempo, sem promessas, sem compromisso. Me acostumei a isso. Eu tinha controle da situação, mas nesse dia, perdi o controle.

Lucila olhava atenta, ainda sem entender do que o namorado falava. Ele se enrolava, enxugava a testa molhada de suor e não conseguia olhar para ela.
- Antes de ficarmos juntos, terminei com um relacionamento. Como disse, não era nada sério. Mas ela não aceitou. E foi me procurar no dia do casamento. Ela chorava, gritava e eu não sabia o que fazer. Não podia deixar ela chorando, podia?

- Podia! – gritou Lucila.

- Bem, talvez você tenha razão. Mas não consegui e ela entrou.

- Entrou onde? Ela quem, Rafa!? É a mulher do anel?

Rafa continuou falando em tom baixo, olhando para o prato ainda vazio. Surpreso com a própria sinceridade, contou tudo a Lucila, incluindo o real motivo que o fizera se atrasar para o casamento de Ana. Quase chorando, se declarou totalmente arrependido e de fato naquele momento sentia arrependimento. Não acreditava que estava dizendo tudo aquilo para Lucila, mas não conseguia falar nada diferente da verdade. Temia perder Lucila. E agora, achava que a perdia a cada palavra sua. Mesmo assim, não se calava.

Lucila sentia raiva, nojo, horror em pensar que horas antes a tal Silvia estivera com seu namorado na mesma cama que pouco depois ele dormiu abraçado com ela. Em uma atitude totalmente auto-destrutiva, pedia detalhes para Rafa. Ele constrangido respondia quase monossilabicamente.

Os pratos foram servidos, mas nenhum dos dois tocou na comida. Lucila parou de falar Apenas duas coisas vinham a sua cabeça: porque ele está sendo sincero e o que eu faço agora?

Rafa tentou segurar sua mão, mas Lucila a puxou. Ele não sabia o que fazer. Nem parecia mais aquele homem sedutor que conseguia tudo com um sorriso. Parecia frágil e inseguro. Lucila não pode deixar de sentir um pouco do sabor em vê-lo daquela forma. A mesma forma que ela se sentiu tantas vezes no passado, quando descobria uma mentira de Rafa ou percebia seus olhares para outras mulheres. Agora ele estava totalmente na sua mão. E ela não sabia o que fazer com todo esse poder. Rafa falou:
- Sei que não posso pedir para que você me perdoe.

- Não pode mesmo.

Rafa abaixou a cabeça de novo. Lucila continuou em seu tom firme. Era quase prazerosa a sensação de ter o controle, o que a tornou um tanto sarcástica:
- Mas você pode pedir a conta. Estou sem apetite, vou pra casa.

Rafa obedeceu. Ficaram muito tempo sem dizer nada. Lucila altiva, orgulhosa, apreciando aquele momento. Rafa, encolhido em um sentimento estranho, ruim. Queria sumir, Tinha vergonha de estar ali.

Ele pagou a conta, os dois levantaram. Lucila saiu andando na frente e Rafa tentando alcançá-la. Antes de ela entrar no carro ele tomou coragem e perguntou:
- E nós?

Com um sorriso sarcástico, ela disse:
- Vamos pra minha casa. Preciso relaxar.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

CAPÍTULO 39

Juca andava de um lado para o outro no quarto do hotel. Tinha medo de sair e o agente da PF telefonar informando a situação de Bruna, Marcelo e Antônio Carlos. Mas apesar de toda sua ansiedade, o agente não ligou durante todo o dia. Juca então resolveu telefonar para saber o que estava acontecendo.
- Fala seu Juca! Estamos quase com o pedido de deportação na mão. Assim que isso acontecer, levo os três delinqüentes pro Brasil, onde poderemos cuidar deles direitinho.

Juca não gostava que Bruna fosse vista como mais uma delinqüente. Mas tinha que se controlar, afinal a ultima coisa que queria agora era perder a razão. Com calma falou:
- O advogado de Bruna me informou que vai conseguir uma condição especial para ela, devido o trauma que passou e pela ajuda que deu para localizar o Marcelo.

- É verdade. A bonitinha deve ir antes pro Brasil.

Juca definitivamente não ia com a cara daquele policial. O jeito malandro com que tratava tudo e todos incomodava Juca. Especialmente quando se referia a Bruna. Irritado, Juca perguntou:
- Antes? Antes quando? Você está sabendo de alguma coisa e não quer me dizer?

O policial riu e respondeu ríspido:
- Dr. Juca, não esqueçamos que aqui eu sou a autoridade e o senhor é nada mais que um cidadão comum. Não vamos confundir o fato da PF permitir que o senhor viesse acompanhar o processo com participar do processo. Está entendido?

Juca respondeu que sim. Sabia que o agente estava certo, então tentou mais informações junto ao advogado que havia contratado para Bruna. Segundo ele, até o final da semana Bruna voltaria para o Brasil.
Depois de algumas horas, Juca não conseguia dormir, então zapeava os canais da TV. De repente o telefone do quarto tocou. Juca se assustou e atendeu correndo:
- Yes?

- Seu Juca? – disse uma voz feminina em um portunhol enrolado.

- Sim, sou eu. Quem é?

- Boa noite Seu Juca e desculpa incomodar a essa hora. Mas só agora consegui achar o senhor. Eu sou Consuelo, trabalhava para a Dona Bruna e do Seu Marcelo e gostaria de falar com o senhor. Estou aqui embaixo na frente do hotel.

Juca se vestiu e desceu. Ele e Consuelo foram para um café próximo e depois de devidamente apresentados, Consuelo começou a falar:
- Seu Juca, o que eu vou lhe contar é importante. Mas eu preciso pedir uma coisa.

- Hummm. Sabia que estava bom demais pra ser verdade. Quanto você quer?

- Assim, o senhor me ofende! Eu não quero nada! Eu só quero seu silêncio sobre uma coisa.

- Me desculpe, Consuelo. Estou de cabeça quente e tudo que tem acontecido na minha vida me faz crer que o mundo gira mesmo em torno de dinheiro. Sobre que coisa você está falando?

- Eu sou ilegal aqui em Miami. Se não fosse por isso, já tinha ido contar o que eu sei. Mas se eu for até a delegacia, eles me mandam de volta para Cuba. Eu não posso voltar. Preciso juntar dinheiro pros meus filhos.

Juca concordou em não denunciar Consuelo. Os dois combinaram que Juca consultaria o advogado para saber qual a melhor maneira de agir.

Juca pôs-se a ouvir o que a cubana falava. Enquanto ouvia, imaginava quem mais iria procurá-lo com uma prova contra Marcelo. Primeiro foi Antônio Carlos, agora Consuelo. Imaginava que com tudo isso, seria fácil manter Marcelo preso pelo resto dos seus dias.

Consuelo era educada, mas tinha um “trejeito” latino que era inegável. Falava gesticulando, às vezes aumentava a voz. Poderia se passar por uma brasileira, principalmente quando falava com emoção na voz:
- Seu Juca. Como está Dona Bruna? Ela está bem? Eu fiquei tão preocupada quando a levaram do hospital. Meu primo Ramirez, que encontrei aqui em Miami, descobriu pra mim sobre o senhor. Ele tem um amigo na policia que contou que o senhor era ex-marido da Dona Bruna e que estava aqui para ajudá-la.

Juca se assustou com o que ouviu. Como tinha passado essa percepção de que viera para Miami para ajudar Bruna? Não era verdade! Ele queria justiça! Mesmo que isso significasse prender também Bruna. Pensando rápido, Juca concluiu que o fato de ter contratado um advogado de defesa para Bruna, pudesse passar a impressão de que ele estava ajudando a ex-mulher. Mas ele sabia que não era verdade. Ele apenas contratou um advogado, nada mais.

Juca ia se defender e explicar que não veio para ajudar Bruna, mas achou que isso pudesse reprimir Consuelo e queria ouvir o que ela tinha para contar. Consuelo tomou mais um gole do seu café e disse com cara feia:
- Ôô povo que não sabe fazer um café, não é mesmo? Bom, seu Juca, o que eu tenho pra contar, eu antes contei pra esse meu primo e ele acha que pode ajudar na investigação do Dr. Marcelo. Pra falar a verdade, eu nunca fui com a cara dele. Ao contrário de Dona Bruna. Ela sim é um doce de pessoa. Não merecia passar por isso. Não mesmo!

Em um momento de extrema frieza, Juca pensou o contrário. Bruna estava pagando pelo que fizera a ele. Consuelo notou algo estranho na expressão de Juca, que disfarçou:
- Continue Dona Consuelo, por favor.

- Claro, claro. Bom, primeiro eu queria contar que a mulher do jornal, foi atrás do seu Marcelo.

- Mulher do jornal?

- É a mulher que apareceu morta. – Consuelo tirou um recorte dobrado de jornal da bolsa e mostrou e entregou para Juca. Era um jornal de quinta, especializado em atrocidades, tragédias e todo tipo de fofoca. Nele tinha a foto do corpo de Dra. Joana.

- Dra. Joana. Sim, eu sei que ela e o Dr. Antônio Carlos deixaram um bilhete, não é isso?

Antônio Carlos já havia contato isso para Juca, mas deixou a cubana continuar:
- Ah o senhor já sabe, né? Então tá bem. A segunda coisa é que eu vi o Dr. Marcelo entregando um envelope para um homem mal encarado e depois disse uma coisa muito estranha. Ele falou pro homem que era para parecer um assalto. Achei isso muito esquisito e quando vi a foto da mulher morta, achei que pudesse ter alguma ligação.

Juca se animou. Prender Marcelo também como mandante de um crime seria maravilhoso. E perguntou:
- Você seria capaz reconhecer esse homem?

Consuelo engasgou. Ela seria sim capaz de reconhecê-lo, mas não podia ir até a delegacia. Notando o desespero de Consuelo, Juca se apressou em dizer:
- Calma. Não vou pedir pra que você vá até a delegacia. Estou só pensando.

Consuelo então contou que seria capaz de reconhecer o homem. Juca se apressou em ligar para o advogado, que sugeriu negociar com a polícia o Green Card de Consuelo em troca do seu depoimento.

Consuelo se animou.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

CAPÍTULO 38

Depois de uma exaustiva viagem ouvindo Carlos Eduardo tagarelar pela estrada, eles finalmente chegaram em Araras. Antes passaram na pousada para deixar as malas e depois seguiram para a obra.

A casa era realmente magnífica. Lucila tinha que reconhecer que o que aquele engenheiro tinha de chato, tinha também de talentoso. Era impossível não se empolgar em trabalhar num projeto como aquele.

Carlos Eduardo ou Cadu – como pediu pra ser chamado - mostrou todo o imóvel e fez suas considerações a respeito de cada ambiente. Lucila se surpreendeu com sua competência, ele realmente sabia o que estava falando e tinha idéias incríveis. Valeria a pena agüentar aquele hippie chato, se fosse pra fazer um bom trabalho.

Os dois discutiram idéias, fizeram anotações, tiraram fotos. A hora passou e nenhum dos dois percebeu. Então, foram almoçar em um restaurante bem charmoso próximo a casa.

Se não fosse pelo senso de humor duvidoso, Cadu seria uma boa companhia. Mas sua mania insuportável de fazer piada com absolutamente tudo, irritava Lucila. Eram trocadilhos sem graça, piadas batidas. Só ele mesmo achava graça. No início, Lucila pra ser simpática, ainda sorria. Com o passar do tempo, preferia fingir não ter ouvido. Mas isso não inibia Cadu, que inventava logo uma nova piada.

Enquanto almoçavam, o celular de Lucila tocou. Era Rafa. Ela não atendeu. Não queria falar com ele naquele momento. Logo depois foi o telefone de Cadu que tocou. Ele atendeu:
- Oie minha bijujujuca!!!!!!!!!

"Bijujujuca”???? - Lucila prendeu o riso e fingiu não prestar atenção na conversa em tom infantil que seu colega tinha ao telefone. Lucila pensava quem poderia ser essa “bijujujuca” que agüentava essa voz irritante e ainda encarava esse modelito descombinado de Cadú? Ele desligou e falou:
- Desculpa, não podia deixar de atender.

Lucila falou que tudo bem e voltou ao assunto do projeto. Como se a ignorasse, Cadu, voltou no assunto anterior. Ele queria falar sobre sua bijujujuca. Era importante pra ele. Interrompendo Lucila, disse:
- Desculpa te interromper, mas custo a voltar ao meu normal quando falo com essa mulher. A mulher da minha vida. Você entende?

Lucila arregalou os olhos e balançou a cabeça concordando, apesar de que não tinha a menor idéia do que Cadú estivesse falando. Ele continuou:
- Eu falo com ela e perco o foco. Me desculpe. Ahh... quem manda ter uma namorada tão especial, não é? Você tem namorado?

Lucila sem graça, não esperava ter que dividir detalhes da sua vida particular com aquele chato. Respondeu secamente:
- Tenho. Mas voltando ao projeto, Cadu. Eu pensei em esquadrias de alumínio. O que você acha?

Cadu demorou um tempo para voltar ao normal. Como ele mesmo havia dito, falar com sua namorada parecia mesmo o tirar do sério.

O almoço acabou e os dois pediram a conta. Voltariam para a casa para fechar mais alguns detalhes. Tinham pouco tempo pra decidir tudo.


Enquanto isso, Rafa estacionava seu carro em frente a um prédio na Barra da Tijuca. Não precisou se anunciar, o porteiro parecia o conhecer. Ele subiu e abriu a porta com sua própria chave. Não havia ninguém em casa, então apenas colocou o anel sobre a mesa. Pensou em aproveitar para deixar também as chaves, mas desistiu.

No caminho de volta para o escritório, tentou mais uma vez ligar para Lucila, que de novo não atendeu. Deixou um recado simpático, apesar de já estar de saco cheio daquela situação. Sabia que tinha que agüentar. Por sorte Lucila nem se lembraria do anel. Estava bêbada, talvez as lembranças estivessem confusas. Rafa torcia para isso. Não saberia explicar como o anel de Silvia estava na sua casa.

Silvia era mais velha que Rafa. A relação dos dois sempre foi tranqüila, nenhum dos dois esperava mais do que o outro poderia dar. Porém, um pouco depois de Rafa reencontrar Lucila, Silvia contou que havia se separado. A partir daí a relação dos dois mudou. Silvia não queria apenas exclusividade, queria começar uma nova vida com Rafa. Ela o culpava pelo fim do seu casamento, se dizia apaixonada e que não podia mais manter a relação com seu marido. Rafa pulou fora. Não era mais do jeito que ele queria. Ainda mais quando começou a namorar Lucila, queria fazer tudo direito. Lucila merecia isso.

Porém, Silvia parecia uma pedra no sapato de Rafa. Quase arruinou tudo quando o fez perder a hora justo no dia do casamento de Ana. Rafa acreditava que não tinha culpa, foi vítima da situação.

Ele já havia rompido com Silvia. Pelo menos na cabeça dele, o fato de não atender mais as ligações de Silvia, deixava claro que ele não queria mais nada com ela. No dia do casamento de Ana e André, era quase hora do almoço e Rafa desceu pra comprar alguma coisa pra comer. Quando voltou encontrou Silvia no corredor do prédio. Ela chorava, gritava. Estava totalmente descontrolada. Rafa, desesperado a colocou para dentro. Foi buscar um pouco d’água e quando voltou Silvia estava só de calcinha deitada no seu sofá.
Como Silvia estava com objetivo claro de ter Rafa de volta, a "brincadeira" foi até tarde. Rafa só se deu conta da hora quando Lucila telefonou várias vezes. Nas primeiras vezes, ele não pôde atender, mas depois percebeu a fria que havia se metido. Correu para se arrumar, pedindo que Silvia fosse embora. Ela se negava. Depois de muito tempo e de uma certa agressividade, Rafa conseguiu sair vestindo seu fraque e levando Silvia pra fora do apartamento.

No caminho para a igreja Rafa até se arrependeu. Mas sabia que não podia se cobrar tanto. Pois ele não teve culpa. Foi obrigado a ceder aos seus desejos animais de macho reprodutor, nada além disso.

Já de volta ao escritório, Rafa tentou mais uma vez falar com Lucila. Desta vez, ela atendeu:
- Oi Rafa.

- Oie meu amor. Estou louco de saudades. Quando você volta?

- Acho que até amanhã conseguiremos terminar tudo.

- Conseguiremos?

- Sim. Estou eu e o Cadú.

- Cadú?

-É! O engenheiro do cliente. Gente boa ele.

- Ah.. gente boa? Que bom, que bom.

- Bom, estamos indo tomar um banho pra jantar. Amanhã te ligo.

- Tá bem, meu amor. Te adoro, viu?


Lucila desligou. Ainda não conseguia fazer declarações de amor. Entrou no chuveiro e resolveu arrumar mentalmente tudo que precisava pensar. Lembrava do anel. Lembrava do atraso de Rafa e a sua justificativa de ter trabalhado no sábado. Então decidiu que desta vez iria pôr tudo em pratos limpos. Precisava saber se Rafa estava ou não falando a verdade.
Logo que saiu do banho, pegou o celular e ligou para o escritório de Rafa. Falseando a voz pediu para falar com Gabriel, o sócio de Rafa que ela odiava especialmente por ele só a chamar de Lucilda. Gabriel atendeu:
- Eu!

- Oi Gabriel, é Lucila. Tudo bem?

- Lucilda!!!!!!!!!! Olá gatona! Tudo bem? Quer falar com o varão do seu namorado?

- Não! Não precisa. Na verdade quero uma ajuda. Eu emprestei meu carro pro Rafa ir pro escritório no sábado. Ele tá todo arranhado. Não queria preocupar Rafa com isso, então pensei em ligar pro estacionamento e resolver. Eles devem ter registro dos carros, não é?

- Sábado? Ahh... bom, Lucilda eu não tenho não. Mas vou te passar pra minha “secretina” e ela te arruma isso aí, tá bem?

Lucila esperou até que a secretária arrumasse o telefone. Ficou olhando pro papel. Sabia que se Rafa tivesse mentido, ela teria que tomar uma atitude. Ligou pro estacionamento e deu os dados do carro de Rafa. Não havia registro do carro no sábado. Lucila se apegou na idéia de que Rafa poderia ter ido sem o carro. Sabia que isso era praticamente impossível, mas precisava ter essa esperança. Perguntaria pra ele assim que voltasse.

terça-feira, 26 de maio de 2009

CAPÍTULO 37

Apesar da ansiedade em encontrar Marcelo Zacaro, Juca estava preocupado. Não entendia o que estava acontecendo consigo, mas sentia algo parecido com ciúmes e talvez por isso não quisesse que Marcelo aparecesse.

Juca e o agente da PF estavam sentados no escritório da Polícia Especial de Miami. O agente fazia ligações, acessava o computador, falava num inglês precário pelo rádio. Juca apenas observava. Não tinha muito o que fazer, a não ser esperar. Sempre que tinha autorização ia até a cela de Bruna. Eles conversavam, normalmente sobre o processo. Mas nunca tinham muito tempo. O permitido era no máximo vinte minutos.

Enquanto observava toda a agitação do lugar, notou um entusiasmo exacerbado do agente brasileiro, que imediatamente correu até Juca e disse:
- Pegamos o filho da puta!

Juca não comemorou. Estava com todos aqueles sentimentos confusos. Apenas sorriu e bateu nas costas do policial, o cumprimentado pela vitória. Logo depois perguntou:
- Posso contar à Bruna?

O agente quase se ofendeu:
- Não! Aliás, ninguém fala com a garota até segunda ordem!

O agente saiu e passou a orientação para os demais. Bruna ficaria um tempo sem receber visitas. A sua idéia era confrontá-los em testemunho, pois ao contrário de Juca, o agente desconfiava da inocência de Bruna.

Horas depois, Juca ainda esperava o retorno da equipe. Mas já tinha sido avisado que também não teria acesso à Marcelo. Então, resolveu sair da delegacia. Foi caminhando até o hotel, pediu indicação de um barbeiro e cortou os cabelos que estavam em total descuido. Fez a barba, comprou um casaco novo e de banho tomado, o vestiu. De novo parecia o antigo Juca: alinhado, charmoso, um gentleman.

Ao invés de voltar para delegacia, apenas ligou para saber se poderia ser útil. Não seria. Apenas o advogado de Bruna poderia participar das averiguações. Diante disso, saiu novamente do hotel afim de procurar um bom restaurante para comer. Assim que saiu do hotel foi interceptado por Antônio Carlos, seu antigo funcionário que junto com Dra. Joana se tornaram cúmplices de Marcelo e Waldemar Zacaro no esquema dos hospitais. Juca se assustou quando viu Antônio Carlos:
- Juca? Me desculpe, não queria te assustar.

- Mas assustou. O que você está fazendo aqui seu filho da mãe! ? – alterado, ficou vermelho e parecia querer agredir Antônio Carlos. Este, deu passou para trás e disse nitidamente apavorado:
- Desculpa! Me desculpe! Eu vim aqui para falar com você. Preciso da sua ajuda!

Juca riu debochado.
- Da minha ajuda? E porque você acha que eu iria ajudá-lo? Você é um desgraçado e por causa da sua ambição, acabou com a minha vida!

- Eu sei! Mas por favor, me escute! Eu vou me entregar! Eu conto tudo o que precisarem! Mas preciso de proteção.
- Proteção?

Antônio Carlos claramente tinha entrado no esquema de gaiato. Era óbvia a sua não vocação para este tipo de golpe. Era medroso, covarde e agora se parecia com uma criança assuntada. Gaguejando e olhando para os lados como se precisasse se certificar de que não era seguido, falou:
- Marcelo contratou um homem para nos matar. Ele matou Joana! Ela está morta. Morta!

Juca entendendo a gravidade da situação, o fez entrar no hotel. Subiram para o quarto. Juca lhe deu copo d’água e pediu para que ele se acalmasse. Depois falou:
- Agora me conta tudo desde o começo.

Antônio Carlos contou que quando o esquema fora descoberto e Waldemar preso, ele e Joana não conseguiam mais contato com Marcelo. Depois de um tempo foragidos, conseguiram localizar Marcelo em Miami. Ele também contou do acordo que os três fizeram e sobre o pedido de Marcelo para que eles saíssem de Miami e enviassem seus novos endereços para uma caixa postal. Dias depois do envio do endereço, Joana e Antônio Carlos tiveram a impressão de estarem sendo seguidos. Estavam certos. Um dia pela manhã, diferente de sua rotina habitual, Antonio Carlos acordou antes de Joana e resolveu ir até a padaria. Foi a sua sorte, pois quando voltou Joana já estava morta e seu assassino o esperava. Mas Antonio conseguiu fugir.

Juca ouvia tudo apavorado. Pensava em Bruna e que talvez ele tivesse sido agressivo com ela. Mas conseguiu retomar seu foco para o problema principal: o que fazer com Antônio Carlos? Tentou ligar para o agente da PF, mas não conseguiu falar. Ele deveria estar na apreensão de Marcelo. Juca então, decidiu que Antônio passaria a noite no hotel com ele. No dia seguinte ele mesmo o levaria para a delegacia.

Antônio estava tão cansado que depois do banho e de vestir as roupas emprestadas por Juca, desmaiou na cama. Arrependimento era mais do que uma palavra para descrever aquele homem que agora tinha medo da morte.

No dia seguinte, logo cedo, Juca contou ao agente o que havia acontecido. Foram para a delegacia. Antônio iria depor também. Mas desta vez, Juca não providenciaria nenhum advogado. Enquanto explicava isso ao agente, Marcelo entrou algemado e escoltado por dois policiais. Ele passou pelo corredor lateral da sala onde Juca estava. Cabeça erguida, andar imponente, nem parecia estar sendo preso.

Ele e Juca trocaram olhares e Marcelo ainda teve a empáfia de cumprimentá-lo com um balançar de cabeça. Juca se controlou para não voar em cima dele.

Logo depois, Juca voltou ao hotel a pedido do agente , que prometia ter respostas sobre a deportação dos três em poucos dias.