Lucila dava os últimos retoques no seu visual. O vestido preto lhe garantia uma silhueta perfeita, a maquiagem bem desenhada a deixava orgulhosa de si mesma. Estava linda. Linda para o seu dia e para o seu amor.
Cadu a esperava ansioso na sala. Andava de um lado para outro. Estava nervoso e aparentemente não tinha nenhum motivo para isso.
Depois de alguns longos minutos, Lucila finalmente apareceu no corredor da sala:
- E aí? Como eu estou?
Ele não precisou fazer tipo, nem pensar em sua resposta. Aliás, depois da cara que fez, nem precisava ter dito nada. Era óbvio que estava encantado com o que via, mas mesmo assim, sua gentileza habitual o fez expressar o que via:
- Uau! Nossa!!!! Você está maravilhosa!
Lucila riu ainda mais orgulhosa. Sabia que estava bonita, mas o elogio da Cadú era muito importante, representava um novo momento na sua vida, com sua auto-estima, com sua nova idade que estava se aproximando.
Ana, André, Flávio, Marcos, Tadeu e Carla já esperavam pela aniversariante na boate reservada. Lucila havia chamado todos seus amigos. A meia-noite Lucila completaria 34 anos e este ano era diferente, ela se sentia especial e queria dividir isso com as pessoas que amava.
Pouco depois, Lucila entrou na boate radiante, foi aplaudida pelos amigos, estava pronta para curtir sua festa.
Aos poucos outros convidados foram chegando. Bardot, que surpreendeu aparecendo acompanhada de um belo rapaz. Sim, um rapaz! Ele não tinha trinta anos, mas parecia encantado com o jeito brincalhão e despojado de Bardot.
Outra surpresa da festa foi Juca que também surgiu de mãos dadas com uma exuberante mulher. Não era qualquer mulher. Com uma mini-saia e um enorme decote chamou atenção de todos no lugar. Lucila se aproximou para cumprimentá-los:
- Juca! Que surpresa! Que bom que você veio. Aliás, que bom que vocês vieram. Como você está Manú?
Manú sorriu docemente, contradizendo a sua aparência de mulher fatal.
Ainda curiosa sobre o novo casal, Lucila, que nunca teve papas-na-língua, perguntou:
- Mas, me diz uma coisa? Que novidade é essa? Vocês estão juntos?
Manú não respondeu, apenas olhou para Juca esperando uma resposta de seu amado, que prontamente respondeu:
- Existem coisas que só o tempo pode nos mostrar. Manú deixou de ser meu braço direito, passou a ser uma grande amiga e foi por esta amiga e hoje é a mulher por quem dia a dia eu me encanto mais e mais. O mundo gira, minha vida mudou e só quero acreditar que se tudo continua com seu curso, eu....aliás, nós vamos seguir o nosso curso.
Manú ria frouxo de felicidade. Finalmente tinha conseguido o que queria, estava ao lado de Juca. Agora como sua namorada. Neste momento Manú se afastou de Lucila e
Juca para cumprimentar alguém que passava. Lucila em tom de cúmplice aproveitou o momento e falou para Juca:
- Espero que esteja feliz, você merece. Sei que não devia tocar neste assunto, mas entenda como um pedido de uma aniversariante, ok? O que houve com Bruna, onde ela está?
Juca riu. E com bom humor respondeu:
- Ela está bem. Está com Jesus. Mas isso é uma história para outro dia. Vamos beber alguma coisa?
A noite corria muito bem, todos se divertiam. Ana e André dançavam, riam. Lucila reparou nos dois. Ficava em ver aquele casal tão feliz. Se juntou a eles. Ficaram muito tempo conversando, rindo, dançando. Até que Lucila olhou para o copo de Ana e exclamou:
- Coca-cola? Coca-cola normal? Não é light?
Ana riu. André ficou nervoso. E Lucila disparou com a intimidade de uma melhor amiga:
- Você está grávida!
Ana corou. Sabia que daria bandeira em rejeitar sua cervejinha habitual. Não tinha como negar. Estava grávida! Os três se abraçaram e Ana disse:
- Já que é um dia especial, saiba que você acaba de ganhar um afilhado!
Lucila se emocionou.
O que mais de bom poderia acontecer? A noite estava divina. Lucila e Cadú se completavam, apesar do evidente nervosismo que ele demonstrava. Ele estava inquieto, acanhado, nervoso. Mas podia ser pelo pouco tempo de namoro e a conseqüente falta de intimidade com a maioria dos convidados.
A meia-noite o DJ anunciou uma pausa para os parabéns. Cadu se juntou a ela perto do bolo. A luzes se acenderam e todos começaram a cantar. Pose para fotos. E entre um flash e outro Lucila achou ter visto Rafa. Mas não fazia nenhum sentido e a alegria do momento a fez dispersar.
Lucila entregou orgulhosa o primeiro pedaço de bolo ao seu namorado. A festa prosseguiu até altas horas.
Como era a anfitriã, Lucila foi a última a ir embora. Ela e Cadú já estavam mortos jogados nos sofás da boate, acompanhando os garçons em sua arrumação frenética. Cadeiras sobre as mesas, vassouras. Era hora de ir.
Lucila foi ao banheiro, antes do casal partir. Cadú ficou sentando a esperando. Foi quando alguém bateu em seu ombro:
- E aí bonitão? Aproveitou a festa?
- Você de novo? Não basta encher o eu saco me ligando o dia inteiro, querendo me intimidar. Você é muito cara-de-pau de vir a uma festa que não foi convidado.
- Tem certeza de que não fui? Não tem, não é?
Lucila voltou do banheiro e não acreditou na cena que via. Cadu discutia com... Rafa! Não tinha sido uma alucinação. Ele estava mesmo lá. Ela correu em direção aos dois que estavam a um passo de trocar socos.
- O que está acontecendo? O que vocês estão fazendo?
Rafa sorriu, como se nada tivesse acontecido. Se aproximou de Lucila, pegou sua mão e com a voz melada disse:
- Parabéns meu amor. Você está linda.
Lucila puxou a mão atordoada. Olhou para Cadu que estava vermelho de raiva e agora furioso perguntava:
- Lucila! Você convidou este canalha?
Antes que Lucila pudesse responder, irônico, Rafa disse para Cadú:
- Ah... você achava mesmo que eu não viria? Meu amigo, você acabou de chegar. E eu? Eu faço parte da vida de Lucila há muito tempo. Não existe a possibilidade de eu não estar na sua festa de aniversário. Entendeu?
Lucila estava tonta. Não entendia o que Rafa estava fazendo ali. Estava magoada com o jeito que Cadu se dirigiu a ela. Decidiu sair e deixar os dois pra trás. Saiu correndo em direção a porta.
Cadu foi atrás gritando seu nome. Lucila se irritou:
- Me deixa em paz. Eu cansada. Chega dessa confusão!
Batendo a porta do táxi, foi embora.
Foi chorando até sua casa. Não sabia direito por que. Não era por Rafa, nem por Cadú. Era por ela. Vivia tão em função dos homens ou a procura deles, que às vezes se esquecia dela mesma. Dos seus gostos, dos seus desejos.
- O que eu realmente quero para mim? – pensou em voz alta, despertando a curiosidade do motorista.
Ela queria um trabalho legal, ela tinha. Um apartamento confortável, ela tinha. Talvez não tivesse todas as roupas de que gostaria, mas certamente tinha os melhores amigos. E tinha Cadú, com quem não precisava fingir ser outra pessoa. Não existiam expectativas, nem cobranças, era bom. Mas até onde iria? Até onde Lucila queria ir?
Entrando em casa, foi direto para a cama. Se atirou sem mesmo tirar a roupa. Sentiu que tinha deitado em cima de alguma coisa. Era uma caixa. Uma caixa de jóia em feltro preto. Lucila abriu e eram duas alianças douradas. Sentiu um calafrio.
A campainha tocou, ela saiu em disparada. Só podia ser Cadú que correu para a ver abrir seu presente e para a pedir em casamento. Lucila abriu a porta afoita, com a caixa na mão.
- Oi Lú. Humm estou vendo que achou meu presentinho. Pelo seu sorriso, entendo que isso é um sim.
Ele se aproximou dela. Lucila sem pensar reagiu aos seus instintos e lhe deu um tapa na cara.
- O que você acha que eu sou, hein, Rafa? Acha que eu vou amolecer por causa dessa porcaria? Quem te deu permissão pra entrar na minha casa! Toma isso e vai embora. Você já arruinou demais minha vida, não vai estragar meu aniversário.
Batendo a porta na cara do ex-namorado, Lucila correu para ligar para Cadú.
- Onde você está?
- Estou aqui embaixo. Acabei de ver um pilantra saindo do prédio com cinco dedos estampados na cara. Você tem idéia do que seja isso?
Os dois riram. Cadú subiu.
Não foi naquela noite que Cadú a pediu em casamento, e na verdade, nem ela sabia quando seria. Mas estavam felizes, se completavam, se entendiam.
Lucila teve certeza de que era aquilo que ela queria para sua vida. A forma como o relacionamento aconteceria, se seria um namoro, um casamento, morar juntos ... isso agora não era a questão. Ela tinha o mais importante: o amor da sua vida.
FIM
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segunda-feira, 29 de junho de 2009
CAPÍTULO 50 - THE END
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terça-feira, 23 de junho de 2009
CAPÍTULO 48
Bruna entrou no apartamento e sentiu algo que há muito tempo não sentia: se sentia em casa. Nem no apartamento de Marcelo ou na mansão em Miami conseguia ficar tão a vontade como estava agora. Aquela era sua casa. Ou tinha sido. Lá havia passado ótimos momentos. Momentos com Juca, com ela mesma, com os amigos.
Amigos. Não tinha mais amigos, não tinha coragem nem de tentar reconquistá-los. Traíra a confiança de suas melhores amigas. Usou Lucila, sabia disso.
No momento em que tudo aconteceu, não percebia o tamanho da sua própria traição. Não percebeu como foi baixa, dissimulada, cruel. Agora tinha vergonha de si mesma e aceitava estar sozinha sob pena de seus próprios erros.
Sentou-se na beirada da cama. Apesar de sentir em casa, não se sentia livre para se esparramar naquela cama. Voltou pra sala, onde as lembranças eram mais amenas. Pegou um porta-retrato com uma foto de seu casamento. Ela e Juca lindos, felizes, olhos brilhantes, caras rosadas, cheios de amor. “- Acabou” – pensou em sua certeza.
Estava cansada e com fome. Resolveu tomar um banho e preparar algo para comer. Ainda enrolada na toalha, foi até a cozinha ver o que encontrava. Encontrou Juca. Sentando na mesa, cabeça baixa, parecia não saber direito que estava fazendo. E não sabia.
Bruna se assustou, mas logo ficou calma. A presença de Juca lhe dava muita paz. Como se eles tivessem voltado ao passado, Bruna caminhou tranqüilamente até a dispensa e perguntou:
- Está com fome?
Juca entrou no mesmo clima. Sacudiu a cabeça dizendo que sim. E os dois juntos, sem explicarem nada, começaram a preparar o almoço. Conversaram amenidades, riram, arrumaram a mesa. Comeram juntos com uma conversa gostosa, sem pretensões. Nenhum dos dois sabia como e porque isso acontecia, mas deixaram fluir. Juca que não tinha certeza de como tinha ido parar ali, agora tirava os sapatos. Estava em sua casa, com alguém que se parecia com sua esposa. Não houve carícias de casal. Na verdade nem se tocaram. Apenas conversaram e também dividiram o mesmo silêncio. Ficaram a tarde juntos e a noite também. Dormiram no sofá da sala com a TV ligada. Era tudo muito tranqüilo, muito normal. Parecia que nada havia mudado.
No dia seguinte, os dois seguiram sua rotina, ignorando os últimos meses. Bruna tentou por algumas vezes falar com Juca sobre o que estava acontecendo. Ele sempre mudava de assunto. Quando estava pronto para ir para a JAEH, Bruna insistiu mais uma vez:
- Juca, não podemos fingir que nada aconteceu. Precisamos conversar.
Juca se irritou, respondeu ríspido:
- Quem foi o lesado da situação fui eu não foi? Então eu decido quando quero conversar, Bruna.
Bruna também gritou:
- Eu te fiz mal. Muito mal. O maior mal que eu poderia de fazer, eu sei disso! Mas eu também sofri, também levei meu troco. Me apaixonei por um canalha, perdi um filho, perdi meus amigos, minhas referências, minha ética. Agora estou aqui recebendo seu carinho. Um carinho de que preciso, mas sei que não mereço. Sinto o mesmo amor por você que sentia há meses, mas ele tem marcas, tem cicatrizes. Você sabe disso e não podemos fingir que nada aconteceu. Como você vai passar por cima de tudo que eu te fiz passar?
Juca se sentou novamente, largou sua pasta. Começou a chorar. Sabia que Bruna estava certa. Podia fingir que nada aconteceu apenas por alguns dias. Certamente em algum momento, alguma palavra, algum gesto, alguma coisa o lembraria de Marcelo, dos dois juntos, da dor. Ele amava Bruna, mas não conseguia perdoá-la.
Bruna interpretava o choro de Juca:
- Você não me perdoou, não é? Eu sei. Eu entendo e acho que também não conseguiria passar por cima de tudo. Eu quero voltar a nossa vida. Quero muito! Mais do que tudo! Mas não posso! A culpa, o sentimento de remorso e a falta do seu perdão, não vão nos permitir sermos felizes de novo.
Juca desabou, mas soluçando falou:
- Eu não entendo. O que aconteceu? Porque você fez isso comigo? Eu sei que não merecia. Éramos felizes, não éramos?
- Éramos muito felizes, Juca. Não me faltava nada, nem material, nem amor, nem nada. Nunca esperei que nosso casamento fosse uma eterna história romântica, sabia que um dia as coisas iam esfriar. Estava pronta pra isso, teria seu companheirismo, sua amizade e nosso amor. Já seria suficiente. Mas me enganei. Quando vi a possibilidade de transbordar novamente romantismo e paixão em minha vida, não resisti. Marcelo apareceu, se mostrou mais presente, mais apaixonado, mais disponível. Eu me encantei por ele. Fui manipulada em meu romantismo.
Juca nunca imaginou compreender Bruna. Mas compreendeu. A conhecia tão bem, que sabia o quanto era romântica, o quanto precisava disso. Foi assim que a conquistou, com o mais puro romantismo. Entendia o que havia acontecido, se culpava por ter deixado acontecer, mas também sabia que o casamento chegaria a ter dias mais amenos e também não achava isso ruim. Se perguntava se perdoaria Bruna algum dia. Se conseguiria confiar nela novamente.
Os dois ficaram um tempo em silêncio. Não havia mais nada pra ser dito. Juca reafirmou que o apartamento seria dela. Ele voltaria a seu flat.
Antes de sair, Juca a olhou pra Bruna com ternura. Bruna retribuiu e disse:
- Quando quiser, se quiser, como quiser. Podemos tentar.
Juca balançou a cabeça e saiu.
Nos dias que seguiram, eles se falavam por telefone. Depois começaram a almoçar juntos em um ou outro restaurante. Foram ao cinema. Eram bons amigos.
Na Bahia outro casal também adormeceu junto. Mas dormiram exaustos, cansados de se sentirem felizes, de se amarem. Lucila recuperou suas forças e também as extinguiu nos braços de Cadu. Os dois não conversaram, não acertaram os pontos. Não houve DR*, apenas seguiram seus instintos, exatamente como na primeira noite que ficaram juntos.
O dia acordou ensolarado, como se espera de um dia na Bahia. Os dois se olharam amassados, riram com a intimidade de quem nunca acordou junto. Se abraçaram, se beijaram e se amaram novamente. Lucila em alguns momentos achava que ia acordar, que tudo não passava de um sonho.
No seu íntimo confundia Cadú com outra pessoa. Não sabia direito quem ele era. Mas o Cadú piadista, às vezes sem graça, descombinado, largado não era o mesmo Cadu que a puxava pelos cabelos, que a beijava com delicadeza. Era difícil entender que eles eram um só. Lucila sabia, em sua experiência, que entre quatro paredes as pessoas se revelam novas pessoas. Mas também conhecia o Cadú que a consolou no calçadão de Copacabana, que foi seu amigo. O Cadú companheiro de trabalho, inteligente, esperto, ativo e que duplava com ela como ninguém. Todos esses “cadus” eram aquele homem que estava ao seu lado agora. Não era um príncipe encantado, não era perfeito, nem lindo, nem o melhor amante do mundo. Era o homem que ela queria agora. Pra agora e pra sempre. Ou para quanto o sempre durasse.
* discutir a relação
Amigos. Não tinha mais amigos, não tinha coragem nem de tentar reconquistá-los. Traíra a confiança de suas melhores amigas. Usou Lucila, sabia disso.
No momento em que tudo aconteceu, não percebia o tamanho da sua própria traição. Não percebeu como foi baixa, dissimulada, cruel. Agora tinha vergonha de si mesma e aceitava estar sozinha sob pena de seus próprios erros.
Sentou-se na beirada da cama. Apesar de sentir em casa, não se sentia livre para se esparramar naquela cama. Voltou pra sala, onde as lembranças eram mais amenas. Pegou um porta-retrato com uma foto de seu casamento. Ela e Juca lindos, felizes, olhos brilhantes, caras rosadas, cheios de amor. “- Acabou” – pensou em sua certeza.
Estava cansada e com fome. Resolveu tomar um banho e preparar algo para comer. Ainda enrolada na toalha, foi até a cozinha ver o que encontrava. Encontrou Juca. Sentando na mesa, cabeça baixa, parecia não saber direito que estava fazendo. E não sabia.
Bruna se assustou, mas logo ficou calma. A presença de Juca lhe dava muita paz. Como se eles tivessem voltado ao passado, Bruna caminhou tranqüilamente até a dispensa e perguntou:
- Está com fome?
Juca entrou no mesmo clima. Sacudiu a cabeça dizendo que sim. E os dois juntos, sem explicarem nada, começaram a preparar o almoço. Conversaram amenidades, riram, arrumaram a mesa. Comeram juntos com uma conversa gostosa, sem pretensões. Nenhum dos dois sabia como e porque isso acontecia, mas deixaram fluir. Juca que não tinha certeza de como tinha ido parar ali, agora tirava os sapatos. Estava em sua casa, com alguém que se parecia com sua esposa. Não houve carícias de casal. Na verdade nem se tocaram. Apenas conversaram e também dividiram o mesmo silêncio. Ficaram a tarde juntos e a noite também. Dormiram no sofá da sala com a TV ligada. Era tudo muito tranqüilo, muito normal. Parecia que nada havia mudado.
No dia seguinte, os dois seguiram sua rotina, ignorando os últimos meses. Bruna tentou por algumas vezes falar com Juca sobre o que estava acontecendo. Ele sempre mudava de assunto. Quando estava pronto para ir para a JAEH, Bruna insistiu mais uma vez:
- Juca, não podemos fingir que nada aconteceu. Precisamos conversar.
Juca se irritou, respondeu ríspido:
- Quem foi o lesado da situação fui eu não foi? Então eu decido quando quero conversar, Bruna.
Bruna também gritou:
- Eu te fiz mal. Muito mal. O maior mal que eu poderia de fazer, eu sei disso! Mas eu também sofri, também levei meu troco. Me apaixonei por um canalha, perdi um filho, perdi meus amigos, minhas referências, minha ética. Agora estou aqui recebendo seu carinho. Um carinho de que preciso, mas sei que não mereço. Sinto o mesmo amor por você que sentia há meses, mas ele tem marcas, tem cicatrizes. Você sabe disso e não podemos fingir que nada aconteceu. Como você vai passar por cima de tudo que eu te fiz passar?
Juca se sentou novamente, largou sua pasta. Começou a chorar. Sabia que Bruna estava certa. Podia fingir que nada aconteceu apenas por alguns dias. Certamente em algum momento, alguma palavra, algum gesto, alguma coisa o lembraria de Marcelo, dos dois juntos, da dor. Ele amava Bruna, mas não conseguia perdoá-la.
Bruna interpretava o choro de Juca:
- Você não me perdoou, não é? Eu sei. Eu entendo e acho que também não conseguiria passar por cima de tudo. Eu quero voltar a nossa vida. Quero muito! Mais do que tudo! Mas não posso! A culpa, o sentimento de remorso e a falta do seu perdão, não vão nos permitir sermos felizes de novo.
Juca desabou, mas soluçando falou:
- Eu não entendo. O que aconteceu? Porque você fez isso comigo? Eu sei que não merecia. Éramos felizes, não éramos?
- Éramos muito felizes, Juca. Não me faltava nada, nem material, nem amor, nem nada. Nunca esperei que nosso casamento fosse uma eterna história romântica, sabia que um dia as coisas iam esfriar. Estava pronta pra isso, teria seu companheirismo, sua amizade e nosso amor. Já seria suficiente. Mas me enganei. Quando vi a possibilidade de transbordar novamente romantismo e paixão em minha vida, não resisti. Marcelo apareceu, se mostrou mais presente, mais apaixonado, mais disponível. Eu me encantei por ele. Fui manipulada em meu romantismo.
Juca nunca imaginou compreender Bruna. Mas compreendeu. A conhecia tão bem, que sabia o quanto era romântica, o quanto precisava disso. Foi assim que a conquistou, com o mais puro romantismo. Entendia o que havia acontecido, se culpava por ter deixado acontecer, mas também sabia que o casamento chegaria a ter dias mais amenos e também não achava isso ruim. Se perguntava se perdoaria Bruna algum dia. Se conseguiria confiar nela novamente.
Os dois ficaram um tempo em silêncio. Não havia mais nada pra ser dito. Juca reafirmou que o apartamento seria dela. Ele voltaria a seu flat.
Antes de sair, Juca a olhou pra Bruna com ternura. Bruna retribuiu e disse:
- Quando quiser, se quiser, como quiser. Podemos tentar.
Juca balançou a cabeça e saiu.
Nos dias que seguiram, eles se falavam por telefone. Depois começaram a almoçar juntos em um ou outro restaurante. Foram ao cinema. Eram bons amigos.
Na Bahia outro casal também adormeceu junto. Mas dormiram exaustos, cansados de se sentirem felizes, de se amarem. Lucila recuperou suas forças e também as extinguiu nos braços de Cadu. Os dois não conversaram, não acertaram os pontos. Não houve DR*, apenas seguiram seus instintos, exatamente como na primeira noite que ficaram juntos.
O dia acordou ensolarado, como se espera de um dia na Bahia. Os dois se olharam amassados, riram com a intimidade de quem nunca acordou junto. Se abraçaram, se beijaram e se amaram novamente. Lucila em alguns momentos achava que ia acordar, que tudo não passava de um sonho.
No seu íntimo confundia Cadú com outra pessoa. Não sabia direito quem ele era. Mas o Cadú piadista, às vezes sem graça, descombinado, largado não era o mesmo Cadu que a puxava pelos cabelos, que a beijava com delicadeza. Era difícil entender que eles eram um só. Lucila sabia, em sua experiência, que entre quatro paredes as pessoas se revelam novas pessoas. Mas também conhecia o Cadú que a consolou no calçadão de Copacabana, que foi seu amigo. O Cadú companheiro de trabalho, inteligente, esperto, ativo e que duplava com ela como ninguém. Todos esses “cadus” eram aquele homem que estava ao seu lado agora. Não era um príncipe encantado, não era perfeito, nem lindo, nem o melhor amante do mundo. Era o homem que ela queria agora. Pra agora e pra sempre. Ou para quanto o sempre durasse.
* discutir a relação
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segunda-feira, 22 de junho de 2009
CAPÍTULO 47
Sol, sombra e cerveja gelada. O que mais Lucila podia querer? Mais nada certo? Errado! Apesar da incrível beleza do lugar e da companhia divertidíssima de Marcos, alguma coisa faltava pra ela. Era Cadu.
Desde que havia o encontrado no escritório, daquela maneira tão fria, não parava de pensar nele e na noite maravilhosa que tiveram juntos. Não entendia porque ele não retornou quando ela ligou para contar de Rafa. Ao contrário, ele foi bem ríspido e depois não apareceu mais. Lucila achava que eles poderiam ficar juntos, mas se enganou. É... Cadu era mais um cafajeste que depois que conseguiu o que queria, desapareceu.
Mesmo com o empenho de Marcos, Lucila não conseguia se animar. Ia dormir cedo, acordava tarde, andava mal vestida e mal cuidada pelos cantos do resort. Marcos, que sabia de tudo que havia acontecido com ela, tentava a enturmar em seu novo grupo de amigos, mas ela não se interessava.
As férias que seria para colocar sua cabeça no lugar, estavam a colocando em direção de alguém que não a queria. Racionalmente era isso que parecia, mas Lucila não acreditava. Cadu não era aquele tipo de homem. Ou era?
Olhou em volta e viu que Marcos estava bem entretido entre seus novos amigos, então pegou seu celular. Sem pensar, sem pesar, sem se fazer de boazona, difícil ou algo assim. Ela precisava saber. Por isso, ligou para Cadu.
Ele atendeu surpreso:
- Lucila?
- Oi. Eu queria te fazer uma pergunta.
- Uma pergunta?
- Sim. Por favor, responda sinceramente.
- Que pergunta?
- Porque você não me ligou mais?
- Por que? Como porque?
- Isso, quero saber porque? Não que eu esperasse que fossemos namorar, não é isso. Eu Só achava que pelo menos éramos amigos.
- Namorar?
A ligação caiu. Era inacreditável, mas a bateria tinha acabado e Lucila havia esquecido seu carregador em casa. Chegou a correr para um telefone fixo e depois desistiu. Podia ser um aviso do destino. Ficou na sua cabeça a pergunta que ele fez em tom de surpresa: -“Namorar?”. Que raiva que sentia de si mesma. Agora ele achava que ela queria namorar com ele. Não queria! Não queria?
Lucila foi para o quarto esperar a noite chegar.
No rio, Cadu ainda ficou um tempo olhando para o celular. Tentava ligar de volta e não conseguia. Ele já estava trabalhando no escritório de Bardot e foi ela que ouvindo seu telefonema, resolveu que deveria se meter.
- Cadu, você pode vir aqui na minha sala?
Cadu entrou e fechou a porta a pedido de Bardot. Ela perguntou:
- Cadu, meu querido. Por que você ainda não foi atrás de Lucila? Se precisar de uns dias, são seus!
- Não estou entendendo Bardot.
- Eu sou bem velha pra me enganar. Sei muito bem quando duas pessoas estão apaixonadas.- Mas...Lucila tem namorado.
Bardot soltou uma enorme gargalhada. Ainda rindo disse:
- Tinha, né? Terminou logo depois de uma certa festa em Itatiaia. Vai me dizer que você não sabia?
- Não!
- Então agora sabe. E não quero vê-lo nesse escritório nos próximos dias. Estamos entendidos?
Cadu estava atordoado. As coisas começavam a fazer sentido. Quando Lucila o procurou querendo falar de Rafa, ele ficou furioso. Achou que ela quisesse conselhos de como lidar com o namorado mesmo depois do que tiveram juntos. Mas agora percebia que ela podia estar apenas querendo lhe contar sobre o término. Como tinha sido idiota.
Tentou ligar mais algumas vezes e nada. Pegou suas coisas e saiu do escritório atônito.
Depois de dormir durante quase todo o dia, Lucila foi acordada por Marcos que a obrigou a tomar um banho e vestir pois eles iriam sair. Lucila obedeceu, mesmo sem nenhuma vontade. Colocou o vestido que Marcos separou e até deixou que ele o maquiasse. Estava linda, mas triste como nunca esteve antes.
Os dois foram para a boate do hotel e Marcos logo apareceu com uma taça de prosseco. Lucila bebeu essa e muitas outras que surgiram. Ao contrário do que queria, a bebida não a deixou feliz e sim cada vez mais deprimida. Em um momento que Marcos conversava com um grupo, ela saiu de fininho. Parou em frente a uma das piscinas, agora iluminada pela lua cheia. Zonza de bebida chegou a ver Cadu caminhando pela borda da piscina. Esfregou os olhos, e continuava a ter aquela visão. Então fechou os olhos por alguns segundos esperando que a visão fosse embora. Sentiu um braço em seu ombro, seguida de uma voz bastante familiar:
- Talvez não seja uma boa hora para um mergulho. Não quer entrar?
Lucila não acreditou no que via. Era Cadu bem ali na sua frente. Antes mesmo que ela pudesse dizer alguma coisa, ele a beijou.
Desde que havia o encontrado no escritório, daquela maneira tão fria, não parava de pensar nele e na noite maravilhosa que tiveram juntos. Não entendia porque ele não retornou quando ela ligou para contar de Rafa. Ao contrário, ele foi bem ríspido e depois não apareceu mais. Lucila achava que eles poderiam ficar juntos, mas se enganou. É... Cadu era mais um cafajeste que depois que conseguiu o que queria, desapareceu.
Mesmo com o empenho de Marcos, Lucila não conseguia se animar. Ia dormir cedo, acordava tarde, andava mal vestida e mal cuidada pelos cantos do resort. Marcos, que sabia de tudo que havia acontecido com ela, tentava a enturmar em seu novo grupo de amigos, mas ela não se interessava.
As férias que seria para colocar sua cabeça no lugar, estavam a colocando em direção de alguém que não a queria. Racionalmente era isso que parecia, mas Lucila não acreditava. Cadu não era aquele tipo de homem. Ou era?
Olhou em volta e viu que Marcos estava bem entretido entre seus novos amigos, então pegou seu celular. Sem pensar, sem pesar, sem se fazer de boazona, difícil ou algo assim. Ela precisava saber. Por isso, ligou para Cadu.
Ele atendeu surpreso:
- Lucila?
- Oi. Eu queria te fazer uma pergunta.
- Uma pergunta?
- Sim. Por favor, responda sinceramente.
- Que pergunta?
- Porque você não me ligou mais?
- Por que? Como porque?
- Isso, quero saber porque? Não que eu esperasse que fossemos namorar, não é isso. Eu Só achava que pelo menos éramos amigos.
- Namorar?
A ligação caiu. Era inacreditável, mas a bateria tinha acabado e Lucila havia esquecido seu carregador em casa. Chegou a correr para um telefone fixo e depois desistiu. Podia ser um aviso do destino. Ficou na sua cabeça a pergunta que ele fez em tom de surpresa: -“Namorar?”. Que raiva que sentia de si mesma. Agora ele achava que ela queria namorar com ele. Não queria! Não queria?
Lucila foi para o quarto esperar a noite chegar.
No rio, Cadu ainda ficou um tempo olhando para o celular. Tentava ligar de volta e não conseguia. Ele já estava trabalhando no escritório de Bardot e foi ela que ouvindo seu telefonema, resolveu que deveria se meter.
- Cadu, você pode vir aqui na minha sala?
Cadu entrou e fechou a porta a pedido de Bardot. Ela perguntou:
- Cadu, meu querido. Por que você ainda não foi atrás de Lucila? Se precisar de uns dias, são seus!
- Não estou entendendo Bardot.
- Eu sou bem velha pra me enganar. Sei muito bem quando duas pessoas estão apaixonadas.- Mas...Lucila tem namorado.
Bardot soltou uma enorme gargalhada. Ainda rindo disse:
- Tinha, né? Terminou logo depois de uma certa festa em Itatiaia. Vai me dizer que você não sabia?
- Não!
- Então agora sabe. E não quero vê-lo nesse escritório nos próximos dias. Estamos entendidos?
Cadu estava atordoado. As coisas começavam a fazer sentido. Quando Lucila o procurou querendo falar de Rafa, ele ficou furioso. Achou que ela quisesse conselhos de como lidar com o namorado mesmo depois do que tiveram juntos. Mas agora percebia que ela podia estar apenas querendo lhe contar sobre o término. Como tinha sido idiota.
Tentou ligar mais algumas vezes e nada. Pegou suas coisas e saiu do escritório atônito.
Depois de dormir durante quase todo o dia, Lucila foi acordada por Marcos que a obrigou a tomar um banho e vestir pois eles iriam sair. Lucila obedeceu, mesmo sem nenhuma vontade. Colocou o vestido que Marcos separou e até deixou que ele o maquiasse. Estava linda, mas triste como nunca esteve antes.
Os dois foram para a boate do hotel e Marcos logo apareceu com uma taça de prosseco. Lucila bebeu essa e muitas outras que surgiram. Ao contrário do que queria, a bebida não a deixou feliz e sim cada vez mais deprimida. Em um momento que Marcos conversava com um grupo, ela saiu de fininho. Parou em frente a uma das piscinas, agora iluminada pela lua cheia. Zonza de bebida chegou a ver Cadu caminhando pela borda da piscina. Esfregou os olhos, e continuava a ter aquela visão. Então fechou os olhos por alguns segundos esperando que a visão fosse embora. Sentiu um braço em seu ombro, seguida de uma voz bastante familiar:
- Talvez não seja uma boa hora para um mergulho. Não quer entrar?
Lucila não acreditou no que via. Era Cadu bem ali na sua frente. Antes mesmo que ela pudesse dizer alguma coisa, ele a beijou.
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domingo, 7 de junho de 2009
CAPÍTULO 42
Até Rafa, que não tinha nenhum tipo de pudor quando o assunto era sexo, se impressionou com a postura de Lucila na cama. Depois de arrancar as roupas de Rafa, Lucila se mostrou bem mais atrevida do que o normal. Era dona da situação, estava no comando e isso aumentava ainda mais seu tesão. Rafa, apesar de um pouco assustado, não podia negar que era uma maravilhosa surpresa ver sua namorada tão sexy e segura de si. Mas de alguma foram isso mexia com seu brios de homem acostumado ao comando.
Foi uma noite intensa, que acabou com os dois extasiados na cama. Rafa ainda não entendia muito bem tudo que acontecia, mas sabia que o melhor era deixar levar.
Lucila se levantou, colou um hobby e antes de entrar no banheiro falou para o namorado:
- Meu amor, melhor você ir. Já é tarde e amanhã tenho que acordar cedo. Preciso dormir bem, tenho uma importante reunião logo cedo.
- Melhor eu ir? Ir pra casa?
- Isso.
Lucila entrou no banheiro e Rafa confuso começou a catar suas roupas pela casa. Não entendia porque tinha que ir embora. Eles sempre dormiam juntos. Mas estava em desvantagem, então obedeceu.
Ela o levou até a porta, se despediram com um beijo quente. Lucila disse:
- Obrigada! Precisava relaxar.
E fechou a porta. Rafa ficou parado esperando o elevador. Definitivamente aquela não era a Lucila que ele conhecia.
Lucila teve uma maravilhosa noite de sono. Acordou absurdamente bem disposta e cheia de idéias para seu novo projeto da casa de Itaipava. Mesmo do caminho para o escritório ligou para Cadu. Tinha que dividir com ele as idéias que tinha. Os dois marcaram um almoço para discutirem as idéias.
No almoço Lucila falava sem parar. Sua criatividade estava a mil por hora. Contava seus planos, fazia anotações. Cadu apenas ouvia e concordava com um sacudir de cabeça. Depois que comeram, Cadu finalmente abriu a boca:
- Lucila, suas idéias são ótimas. Desculpe se não demonstrei entusiasmo, mas não tem nada a ver com suas propostas. Eu que não estou muito bem.
Lucila que até então não tinha parado para olhar Cadú, reparou que ele estava ainda mais esculhambado do que o normal. Fora suas roupas amassadas e descombinadas, tinha olheiras profundas e um ar de total desamparo. Lucila perguntou:
- Aconteceu alguma coisa Cadu? Você está tão abatido.
- Aconteceu sim. Eu nem sei como estou de pé. Estou arrasado. Minha namorada terminou comigo. Não entendo. Não sei o que eu fiz.
Cadu começou a chorar, como se fosse uma criança. Lucila em princípio havia se arrependido de perguntar o que havia acontecido. Não queria que nada atrapalhasse seu momento tão criativo. Mas aos poucos foi sentindo pena de Cadu. Era óbvio que aquele namoro não duraria muito. Mas ele por algum motivo, não havia percebido isso.
Lucila tentou confortá-lo. Mentiu ao dizer que o achava um cara muito interessante e que tinha certeza de que não faltariam boas opções para ele.
Ele agradeceu o carinho de Lucila e se desculpou pelo papelão. Disse que tiraria a tarde de folga para se recuperar e que no dia seguinte procuraria Lucila para detalharem o projeto. Lucila compreendeu e como sua mais nova amiga o fez prometer que não ligaria para a ex.
Alguns dias se passaram e Lucila e Rafa mantinham sua nova relação. Lucila dizia onde e quando queria vê-lo e ele prontamente atendia. Cadu também parecia bem melhor, mais disposto e falava ter conseguido se reerguer por causa da ajuda da nova amiga.
Lucila então teve uma idéia brilhante: iria apresentar Carla, sua amiga de trabalho ao Cadu. Como ela ainda não tinha pensado nisso? Carla vivia cada dia da sua vida pela esperança de arrumar um namorado. Estava tão desesperada que nem se importaria com a aparência de Cadu.
Cadu por sua vez era tão carente, que cairia como uma luva à obsessão louca de Carla. Estava resolvido! Eles seriam um casal perfeito!
Lucila resolveu fazer um queijos e vinhos em seu apartamento. Convidaria Ana e André que tinham acabado de chegar de viagem, Carla, Cadu e claro ela e Rafa. Ligou pra Rafa pedindo para que ele providenciasse os vinhos, enquanto ela cuidaria dos petiscos. Lucila não contou seu plano para Carla ou Cadu, queria que fosse uma surpresa. Os dois certamente se apaixonariam assim que se olhassem.
Os dois confirmaram a presença. Estava tudo certo. Lucila arrumou a casa, decorou com velas acesas e contou seu plano para Rafa e Ana, que seriam seus cúmplices na missão de unir mais um casal feliz.
Os primeiros a chegar foram Ana e André, que trouxeram lembrancinhas da viagem e tinham muita história pra contar. Lucila dava as coordenadas dos últimos detalhes e Rafa obedecia. Ana percebeu a mudança da amiga e principalmente a total obediência de Rafa.
O segundo a chegar foi Cadu. Seguindo os conselhos de Lucila, ele vestia uma calça jeans e uma camiseta branca lisa, sem nenhum estampa de Che Guevara ou algo parecido que ele costumava usar. Lucila o olhou e viu que tinha feito um bom trabalho. Ele estava até bonito. Tinha aparado o cabelo e feito a barba. Sorriu aberto quando Lucila abriu a porta e pareceu surpreso quando viu que haviam outras pessoas no apartamento.
Logo depois, o porteiro avisou que Carla estava subindo. Rafa que a recebeu. Quando abriu a porta não entendeu. Carla estava acompanhada de um rapaz. Rafa olhou para Lucila que sem perceber foi totalmente indiscreta:
- Carla? Você não disse que vinha acompanhada!
Carla ficou sem graça e mais ainda seu par. Ana vendo a situação constrangedora disfarçou:
- AHHAHAHA. Essa nossa amiga, né Carla! Tão ciumenta. Aposto que vai brigar com você por não ter contado sobre seu amigo. Ela é assim com todo mundo. Não liga não.
Lucila sorriu amarelo.
A noite transcorreu de uma forma curiosa. Ana e André abismados com o novo comportamento de Lucila, que falava alto, cortava os assunto dos outros, parecia se achar melhor do que os outros e dava comandos à Rafa que surpreendentemente cumpria sem reclamar.
Cadu estava completamente calado, louco para ir embora. Se achava mais uma vez um completo idiota. Como podia ter imaginado que Lucila tinha o chamado para um encontro a dois. Claro que não.
Carla dando atenção, como sempre excessiva, ao seu novo casinho, que parecia procurar o botão de eject.
No final da noite, só Lucila parecia feliz com seu queijos e vinhos, apesar de seus planos iniciais não terem dado certo.
Todos começaram a ir embora e Rafa também se despediu, já sabendo que não era do desejo de sua namorada que ele dormisse por ali. Ficaram Ana e Lucila arrumando as coisas. Ana não resistiu e falou:
- O que está acontecendo Lucila? Você está tão.. tão...tão...insuportável. Foi extremamente desagradável como todo mundo esta noite. E o Rafa? O que aconteceu pra você tratar ele assim?
Sem papas na língua, Lucila respondeu em seu tom mais arrogante:
- O que aconteceu? Ele me traiu. E se quiser ficar comigo, vai ter que agüentar.
- Ele te traiu e você se tornou uma vaca! Ah que ótimo! Uma bela maneira de se vingar dele é sendo insuportável com seus amigos. E eu duvido que você esteja feliz sendo assim. Pensa bem se é isso que você quer ser.
Ana e André foram embora e Lucila pela primeira vez desde o maldito jantar com Rafa, se deu conta do que estava acontecendo. Ana mais uma vez estava certa: ela não estava feliz.
Foi uma noite intensa, que acabou com os dois extasiados na cama. Rafa ainda não entendia muito bem tudo que acontecia, mas sabia que o melhor era deixar levar.
Lucila se levantou, colou um hobby e antes de entrar no banheiro falou para o namorado:
- Meu amor, melhor você ir. Já é tarde e amanhã tenho que acordar cedo. Preciso dormir bem, tenho uma importante reunião logo cedo.
- Melhor eu ir? Ir pra casa?
- Isso.
Lucila entrou no banheiro e Rafa confuso começou a catar suas roupas pela casa. Não entendia porque tinha que ir embora. Eles sempre dormiam juntos. Mas estava em desvantagem, então obedeceu.
Ela o levou até a porta, se despediram com um beijo quente. Lucila disse:
- Obrigada! Precisava relaxar.
E fechou a porta. Rafa ficou parado esperando o elevador. Definitivamente aquela não era a Lucila que ele conhecia.
Lucila teve uma maravilhosa noite de sono. Acordou absurdamente bem disposta e cheia de idéias para seu novo projeto da casa de Itaipava. Mesmo do caminho para o escritório ligou para Cadu. Tinha que dividir com ele as idéias que tinha. Os dois marcaram um almoço para discutirem as idéias.
No almoço Lucila falava sem parar. Sua criatividade estava a mil por hora. Contava seus planos, fazia anotações. Cadu apenas ouvia e concordava com um sacudir de cabeça. Depois que comeram, Cadu finalmente abriu a boca:
- Lucila, suas idéias são ótimas. Desculpe se não demonstrei entusiasmo, mas não tem nada a ver com suas propostas. Eu que não estou muito bem.
Lucila que até então não tinha parado para olhar Cadú, reparou que ele estava ainda mais esculhambado do que o normal. Fora suas roupas amassadas e descombinadas, tinha olheiras profundas e um ar de total desamparo. Lucila perguntou:
- Aconteceu alguma coisa Cadu? Você está tão abatido.
- Aconteceu sim. Eu nem sei como estou de pé. Estou arrasado. Minha namorada terminou comigo. Não entendo. Não sei o que eu fiz.
Cadu começou a chorar, como se fosse uma criança. Lucila em princípio havia se arrependido de perguntar o que havia acontecido. Não queria que nada atrapalhasse seu momento tão criativo. Mas aos poucos foi sentindo pena de Cadu. Era óbvio que aquele namoro não duraria muito. Mas ele por algum motivo, não havia percebido isso.
Lucila tentou confortá-lo. Mentiu ao dizer que o achava um cara muito interessante e que tinha certeza de que não faltariam boas opções para ele.
Ele agradeceu o carinho de Lucila e se desculpou pelo papelão. Disse que tiraria a tarde de folga para se recuperar e que no dia seguinte procuraria Lucila para detalharem o projeto. Lucila compreendeu e como sua mais nova amiga o fez prometer que não ligaria para a ex.
Alguns dias se passaram e Lucila e Rafa mantinham sua nova relação. Lucila dizia onde e quando queria vê-lo e ele prontamente atendia. Cadu também parecia bem melhor, mais disposto e falava ter conseguido se reerguer por causa da ajuda da nova amiga.
Lucila então teve uma idéia brilhante: iria apresentar Carla, sua amiga de trabalho ao Cadu. Como ela ainda não tinha pensado nisso? Carla vivia cada dia da sua vida pela esperança de arrumar um namorado. Estava tão desesperada que nem se importaria com a aparência de Cadu.
Cadu por sua vez era tão carente, que cairia como uma luva à obsessão louca de Carla. Estava resolvido! Eles seriam um casal perfeito!
Lucila resolveu fazer um queijos e vinhos em seu apartamento. Convidaria Ana e André que tinham acabado de chegar de viagem, Carla, Cadu e claro ela e Rafa. Ligou pra Rafa pedindo para que ele providenciasse os vinhos, enquanto ela cuidaria dos petiscos. Lucila não contou seu plano para Carla ou Cadu, queria que fosse uma surpresa. Os dois certamente se apaixonariam assim que se olhassem.
Os dois confirmaram a presença. Estava tudo certo. Lucila arrumou a casa, decorou com velas acesas e contou seu plano para Rafa e Ana, que seriam seus cúmplices na missão de unir mais um casal feliz.
Os primeiros a chegar foram Ana e André, que trouxeram lembrancinhas da viagem e tinham muita história pra contar. Lucila dava as coordenadas dos últimos detalhes e Rafa obedecia. Ana percebeu a mudança da amiga e principalmente a total obediência de Rafa.
O segundo a chegar foi Cadu. Seguindo os conselhos de Lucila, ele vestia uma calça jeans e uma camiseta branca lisa, sem nenhum estampa de Che Guevara ou algo parecido que ele costumava usar. Lucila o olhou e viu que tinha feito um bom trabalho. Ele estava até bonito. Tinha aparado o cabelo e feito a barba. Sorriu aberto quando Lucila abriu a porta e pareceu surpreso quando viu que haviam outras pessoas no apartamento.
Logo depois, o porteiro avisou que Carla estava subindo. Rafa que a recebeu. Quando abriu a porta não entendeu. Carla estava acompanhada de um rapaz. Rafa olhou para Lucila que sem perceber foi totalmente indiscreta:
- Carla? Você não disse que vinha acompanhada!
Carla ficou sem graça e mais ainda seu par. Ana vendo a situação constrangedora disfarçou:
- AHHAHAHA. Essa nossa amiga, né Carla! Tão ciumenta. Aposto que vai brigar com você por não ter contado sobre seu amigo. Ela é assim com todo mundo. Não liga não.
Lucila sorriu amarelo.
A noite transcorreu de uma forma curiosa. Ana e André abismados com o novo comportamento de Lucila, que falava alto, cortava os assunto dos outros, parecia se achar melhor do que os outros e dava comandos à Rafa que surpreendentemente cumpria sem reclamar.
Cadu estava completamente calado, louco para ir embora. Se achava mais uma vez um completo idiota. Como podia ter imaginado que Lucila tinha o chamado para um encontro a dois. Claro que não.
Carla dando atenção, como sempre excessiva, ao seu novo casinho, que parecia procurar o botão de eject.
No final da noite, só Lucila parecia feliz com seu queijos e vinhos, apesar de seus planos iniciais não terem dado certo.
Todos começaram a ir embora e Rafa também se despediu, já sabendo que não era do desejo de sua namorada que ele dormisse por ali. Ficaram Ana e Lucila arrumando as coisas. Ana não resistiu e falou:
- O que está acontecendo Lucila? Você está tão.. tão...tão...insuportável. Foi extremamente desagradável como todo mundo esta noite. E o Rafa? O que aconteceu pra você tratar ele assim?
Sem papas na língua, Lucila respondeu em seu tom mais arrogante:
- O que aconteceu? Ele me traiu. E se quiser ficar comigo, vai ter que agüentar.
- Ele te traiu e você se tornou uma vaca! Ah que ótimo! Uma bela maneira de se vingar dele é sendo insuportável com seus amigos. E eu duvido que você esteja feliz sendo assim. Pensa bem se é isso que você quer ser.
Ana e André foram embora e Lucila pela primeira vez desde o maldito jantar com Rafa, se deu conta do que estava acontecendo. Ana mais uma vez estava certa: ela não estava feliz.
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sexta-feira, 5 de junho de 2009
CAPÍTULO 41
Conforme havia combinado com Consuelo, logo na manhã seguinte, eles se encontraram com o advogado para discutir sobre as possibilidades de negociarem o depoimento de Consuelo em troca de seu visto permanente.
O advogado afirmava que se Consuelo pudesse identificar o provável assassino da Dra. Joana, isso seria um grande salto no caso e que era comum conseguirem esse tipo de negociação, visto que Consuelo vivia sozinha, sem família. Neste ponto da conversa, Consuelo interrompeu o advogado:
- O senhor me desculpe. Mas não vivo sozinha. Encontrei meu primo Ramirez que já tem o grenn card e vive com sua mulher aqui em Miami.
- Claro, claro. O que eu quero dizer, Dona Consuelo, é que a senhora só pede o visto para a senhora, não para sua família. Isso torna mais fácil, inclusive para senhora trazer seus filhos depois.
Consuelo se iluminou. Nunca havia pensado nessa possibilidade. Viver em Miami, a cidade dos sonhos, junto com seus filhos. Eles poderiam estudar, aprender inglês e se tornarem alguém na vida.
Juca sorriu, interpretando o olhar de Consuelo. Imaginava como deveria ser dura sua vida, longe de seus filhos, de suas raízes. Ele tinha sido bruscamente separado de sua família: Bruna. Sabia o quanto era triste, sofrido. Num ímpeto de solidariedade, Juca sugeriu:
- Vamos pedir a vinda dos filhos de Consuelo também. Ambos com o Green Card. Se não conseguirmos, baixamos a proposta para o visto apenas de Consuelo. Precisamos pedir alto primeiro. É base de qualquer negociação.
O advogado se assustou. Ainda argumentou que poderia ser uma jogada arriscada. Juca não deu bola. Repetiu que queria que a proposta para a Polícia de Miami incluísse a vinda dos filhos de Consuelo e afirmava que isso seria simples, se comprovassem o assassinato.
Consuelo sorria para Juca. Pensava em seus filhos. Pensava em como Dona Bruna tinha deixado aquele santo homem pra trás.
Na delegacia, o agente brasileiro organizava os depoimentos de Marcelo, que só falaria na presença de seu advogado, e de Bruna. Enquanto aguardava ser chamado, Marcelo ocuparia uma cela próxima a de Bruna.
Bruna lia quando ouviu uma grande movimentação no corredor. Andou até as grades e viu Marcelo sendo colocado em uma das celas. Seu ódio foi tanto que começou a gritar:
- Desgraçado! Filho da puta! Você ia me deixar aqui? Ia? Seu filho da mãe!
Ouvindo os gritos de Bruna, Marcelo parou antes de entrar no único ponto em que os dois podiam se ver. Ele se virou pra ela e disse com um ar totalmente debochado:
- Deus sabe o que faz! Eu não poderia ter um filho com uma mulher tão sem classe como você.
Dito isso, entrou em sua cela. Bruna não podia mais vê-lo, o que não a impediu de continuar o xingando. Se ela ainda tinha dúvidas sobre o caráter de Marcelo, ele tinha as tirado agora. Sabia que agora estava sozinha nessa.
Passado um tempo após seu acesso de raiva, Bruna não se sentia tão viva há tempos. Tinha sede de vingança. Queria acabar com Marcelo. Tudo na sua mente se tornou muito claro. Voltou ao passado e viu um filme de sua história com Marcelo.
Bruna vivia muito bem com Juca. Eram felizes. Ela havia deixado a JAHE, empresa de Juca, logo depois que se casaram e se dedicou a fazer o que realmente gostava. Fazia cursos, yoga, dança e ainda se preparava para começar um projeto social com patrocínio da empresa do marido.
Ela e Juca tinham uma vida social bem intensa. Muitos jantares ligados as relações de trabalho de Juca, viagens, congressos. No início Bruna adorava acompanhá-lo, mas com o passar do tempo o fazia apenas para agradar ao marido, que na sua opinião, merecia este sacrifício.
Algumas vezes se sentia entediada com sua vida e sempre que isso acontecia, pensava em voltar a trabalhar. Juca sempre desrecomendava e sugeria que ela começasse algum novo curso ou focasse no projeto social que ainda estava no papel. Assim, Bruna se matriculava em um novo curso e a mudança de rotina logo surtia efeito e ela se sentia melhor.
Numa vez em que acompanhava o marido em um congresso em Porto Alegre, Bruna teve mais contato com Marcelo Zacaro. Claro, eles já se conheciam desde de a época que Bruna trabalhava na JAEH, mas nunca tinham conversado. Bruna se surpreendeu com a simpatia de Marcelo, sua cultura e a educação que ele exibia. Era extremamente charmoso e isso era bem observado pelas esposas dos demais executivos.
Bruna achava ridículo ver todas aquelas mulheres se derretendo para ele. – Elas não tem vergonha na cara? – Marcelo se mostrava sem graça com essa situação e sempre que podia se refugiava em sua nova amiga: Bruna.
Com os constantes compromissos de Juca, nos quatro dias de congresso, Marcelo foi sua maior companhia. Sempre a procurava sugerindo irem conhecer algum lugar da cidade ou somente para jogarem conversa fora no lobby do hotel.
Juca parecia não se incomodar com a amizade dos dois, talvez por saber que Marcelo fosse namorado secreto de sua assistente Manú.
Manú sim, que ao saber da amizade dos dois ficou claramente incomodada. Bruna não sabia da relação dos dois, então atribuía isso à óbvia antipatia que Manú sempre teve com ela.
Depois de Porto Alegre, como por mágica, Marcelo e Bruna sempre se cruzavam sem querer. Era uma coincidência atrás da outra. Uma vez na saída da academia de Bruna, outra nas proximidades de seu curso de feng shui e até uma vez que Marcelo sem querer fechou o carro de Bruna, provocando a maior confusão na rua. Os dois riam sempre deste dia, relembrando como tinha sido divertida a tarde pós batida.
Bruna lembrava de tudo em detalhes. E agora desconfiava da veracidade de tantas coincidências. Tentava descobrir em que momento exato Juca deixou de ser tão importante dando lugar à Marcelo. Não sabia ao certo. Marcelo ia cada vez mais participando da sua vida e Juca cada vez menos, nem sempre por culpa dele, a própria Bruna já não dava tanta importância para a companhia de Juca.
Um dia quando já tinha certeza de seu casamento não era mais o mesmo, Bruna discutiu com Juca, como sempre por uma besteira. Saiu de casa à noite, sem destino. Quando parou em um bar, deu de cara com Marcelo que por mais uma incrível coincidência estava sentado no balcão. Os dois beberam a noite toda. Marcelo contava histórias divertidas e Bruna ria. Ela se sentia bem, livre. Em um momento da noite, Marcelo pegou na sua mão. Bruna sentiu um frio na barriga. Algo que não sentia há muitos anos. Ele a beijou. Naquele momento, Bruna como romântica irrecuperável que era, sabia que estava loucamente apaixonada por aquele homem.
Os dois começaram a ter um caso. Se encontravam as escondidas todos os dias. Primeiro em motéis na Barra, depois Bruna começou a ir ao apartamento de Marcelo. Foi numa destas idas que Bruna achou uma pasta com documentos que comprovavam o esquema da JAEH com o governo. Bruna questionou Marcelo sobre aquilo e ele, de uma forma que hoje Bruna não sabia como, conseguiu convencer Bruna de que ele tinha sido envolvido naquilo pelo seu pai. Waldemar Zacaro sempre fora ligado à política. Era um velho lobo, que por toda sua vida aparecia envolvido em alguns escândalos, mas logo depois sempre estava em um bom cargo novamente. Bruna acreditou que a influência do pai havia prejudicado o discernimento de Marcelo, que agora se dizia arrependido.
Bruna acreditou. E concordou em simular toda aquela história contra Juca para inocentar seu novo amor. Marcelo garantia que Juca não seria prejudicado e que ao acusá-lo, Bruna apenas arrumaria um motivo para o divórcio sem ter que revelar nada sobre Marcelo.
Lembrando de tudo, Bruna se sentiu uma completa idiota. Chorou. Chorou de raiva de si mesma, da sua burrice, da sua cegueira e do que deixou pra trás. Tinha vergonha do que tinha feito Juca passar. Pensava em Lucila e Ana. Como ela pode ter envolvido suas melhores amigas nisso? Olhou a data em seu relógio e concluiu que a essa altura Ana já estaria casada e em lua de mel. Como gostaria de ter ido ao casamento de Ana. Como gostaria de voltar no tempo.
O advogado afirmava que se Consuelo pudesse identificar o provável assassino da Dra. Joana, isso seria um grande salto no caso e que era comum conseguirem esse tipo de negociação, visto que Consuelo vivia sozinha, sem família. Neste ponto da conversa, Consuelo interrompeu o advogado:
- O senhor me desculpe. Mas não vivo sozinha. Encontrei meu primo Ramirez que já tem o grenn card e vive com sua mulher aqui em Miami.
- Claro, claro. O que eu quero dizer, Dona Consuelo, é que a senhora só pede o visto para a senhora, não para sua família. Isso torna mais fácil, inclusive para senhora trazer seus filhos depois.
Consuelo se iluminou. Nunca havia pensado nessa possibilidade. Viver em Miami, a cidade dos sonhos, junto com seus filhos. Eles poderiam estudar, aprender inglês e se tornarem alguém na vida.
Juca sorriu, interpretando o olhar de Consuelo. Imaginava como deveria ser dura sua vida, longe de seus filhos, de suas raízes. Ele tinha sido bruscamente separado de sua família: Bruna. Sabia o quanto era triste, sofrido. Num ímpeto de solidariedade, Juca sugeriu:
- Vamos pedir a vinda dos filhos de Consuelo também. Ambos com o Green Card. Se não conseguirmos, baixamos a proposta para o visto apenas de Consuelo. Precisamos pedir alto primeiro. É base de qualquer negociação.
O advogado se assustou. Ainda argumentou que poderia ser uma jogada arriscada. Juca não deu bola. Repetiu que queria que a proposta para a Polícia de Miami incluísse a vinda dos filhos de Consuelo e afirmava que isso seria simples, se comprovassem o assassinato.
Consuelo sorria para Juca. Pensava em seus filhos. Pensava em como Dona Bruna tinha deixado aquele santo homem pra trás.
Na delegacia, o agente brasileiro organizava os depoimentos de Marcelo, que só falaria na presença de seu advogado, e de Bruna. Enquanto aguardava ser chamado, Marcelo ocuparia uma cela próxima a de Bruna.
Bruna lia quando ouviu uma grande movimentação no corredor. Andou até as grades e viu Marcelo sendo colocado em uma das celas. Seu ódio foi tanto que começou a gritar:
- Desgraçado! Filho da puta! Você ia me deixar aqui? Ia? Seu filho da mãe!
Ouvindo os gritos de Bruna, Marcelo parou antes de entrar no único ponto em que os dois podiam se ver. Ele se virou pra ela e disse com um ar totalmente debochado:
- Deus sabe o que faz! Eu não poderia ter um filho com uma mulher tão sem classe como você.
Dito isso, entrou em sua cela. Bruna não podia mais vê-lo, o que não a impediu de continuar o xingando. Se ela ainda tinha dúvidas sobre o caráter de Marcelo, ele tinha as tirado agora. Sabia que agora estava sozinha nessa.
Passado um tempo após seu acesso de raiva, Bruna não se sentia tão viva há tempos. Tinha sede de vingança. Queria acabar com Marcelo. Tudo na sua mente se tornou muito claro. Voltou ao passado e viu um filme de sua história com Marcelo.
Bruna vivia muito bem com Juca. Eram felizes. Ela havia deixado a JAHE, empresa de Juca, logo depois que se casaram e se dedicou a fazer o que realmente gostava. Fazia cursos, yoga, dança e ainda se preparava para começar um projeto social com patrocínio da empresa do marido.
Ela e Juca tinham uma vida social bem intensa. Muitos jantares ligados as relações de trabalho de Juca, viagens, congressos. No início Bruna adorava acompanhá-lo, mas com o passar do tempo o fazia apenas para agradar ao marido, que na sua opinião, merecia este sacrifício.
Algumas vezes se sentia entediada com sua vida e sempre que isso acontecia, pensava em voltar a trabalhar. Juca sempre desrecomendava e sugeria que ela começasse algum novo curso ou focasse no projeto social que ainda estava no papel. Assim, Bruna se matriculava em um novo curso e a mudança de rotina logo surtia efeito e ela se sentia melhor.
Numa vez em que acompanhava o marido em um congresso em Porto Alegre, Bruna teve mais contato com Marcelo Zacaro. Claro, eles já se conheciam desde de a época que Bruna trabalhava na JAEH, mas nunca tinham conversado. Bruna se surpreendeu com a simpatia de Marcelo, sua cultura e a educação que ele exibia. Era extremamente charmoso e isso era bem observado pelas esposas dos demais executivos.
Bruna achava ridículo ver todas aquelas mulheres se derretendo para ele. – Elas não tem vergonha na cara? – Marcelo se mostrava sem graça com essa situação e sempre que podia se refugiava em sua nova amiga: Bruna.
Com os constantes compromissos de Juca, nos quatro dias de congresso, Marcelo foi sua maior companhia. Sempre a procurava sugerindo irem conhecer algum lugar da cidade ou somente para jogarem conversa fora no lobby do hotel.
Juca parecia não se incomodar com a amizade dos dois, talvez por saber que Marcelo fosse namorado secreto de sua assistente Manú.
Manú sim, que ao saber da amizade dos dois ficou claramente incomodada. Bruna não sabia da relação dos dois, então atribuía isso à óbvia antipatia que Manú sempre teve com ela.
Depois de Porto Alegre, como por mágica, Marcelo e Bruna sempre se cruzavam sem querer. Era uma coincidência atrás da outra. Uma vez na saída da academia de Bruna, outra nas proximidades de seu curso de feng shui e até uma vez que Marcelo sem querer fechou o carro de Bruna, provocando a maior confusão na rua. Os dois riam sempre deste dia, relembrando como tinha sido divertida a tarde pós batida.
Bruna lembrava de tudo em detalhes. E agora desconfiava da veracidade de tantas coincidências. Tentava descobrir em que momento exato Juca deixou de ser tão importante dando lugar à Marcelo. Não sabia ao certo. Marcelo ia cada vez mais participando da sua vida e Juca cada vez menos, nem sempre por culpa dele, a própria Bruna já não dava tanta importância para a companhia de Juca.
Um dia quando já tinha certeza de seu casamento não era mais o mesmo, Bruna discutiu com Juca, como sempre por uma besteira. Saiu de casa à noite, sem destino. Quando parou em um bar, deu de cara com Marcelo que por mais uma incrível coincidência estava sentado no balcão. Os dois beberam a noite toda. Marcelo contava histórias divertidas e Bruna ria. Ela se sentia bem, livre. Em um momento da noite, Marcelo pegou na sua mão. Bruna sentiu um frio na barriga. Algo que não sentia há muitos anos. Ele a beijou. Naquele momento, Bruna como romântica irrecuperável que era, sabia que estava loucamente apaixonada por aquele homem.
Os dois começaram a ter um caso. Se encontravam as escondidas todos os dias. Primeiro em motéis na Barra, depois Bruna começou a ir ao apartamento de Marcelo. Foi numa destas idas que Bruna achou uma pasta com documentos que comprovavam o esquema da JAEH com o governo. Bruna questionou Marcelo sobre aquilo e ele, de uma forma que hoje Bruna não sabia como, conseguiu convencer Bruna de que ele tinha sido envolvido naquilo pelo seu pai. Waldemar Zacaro sempre fora ligado à política. Era um velho lobo, que por toda sua vida aparecia envolvido em alguns escândalos, mas logo depois sempre estava em um bom cargo novamente. Bruna acreditou que a influência do pai havia prejudicado o discernimento de Marcelo, que agora se dizia arrependido.
Bruna acreditou. E concordou em simular toda aquela história contra Juca para inocentar seu novo amor. Marcelo garantia que Juca não seria prejudicado e que ao acusá-lo, Bruna apenas arrumaria um motivo para o divórcio sem ter que revelar nada sobre Marcelo.
Lembrando de tudo, Bruna se sentiu uma completa idiota. Chorou. Chorou de raiva de si mesma, da sua burrice, da sua cegueira e do que deixou pra trás. Tinha vergonha do que tinha feito Juca passar. Pensava em Lucila e Ana. Como ela pode ter envolvido suas melhores amigas nisso? Olhou a data em seu relógio e concluiu que a essa altura Ana já estaria casada e em lua de mel. Como gostaria de ter ido ao casamento de Ana. Como gostaria de voltar no tempo.
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quinta-feira, 28 de maio de 2009
CAPÍTULO 38
Depois de uma exaustiva viagem ouvindo Carlos Eduardo tagarelar pela estrada, eles finalmente chegaram em Araras. Antes passaram na pousada para deixar as malas e depois seguiram para a obra.
A casa era realmente magnífica. Lucila tinha que reconhecer que o que aquele engenheiro tinha de chato, tinha também de talentoso. Era impossível não se empolgar em trabalhar num projeto como aquele.
Carlos Eduardo ou Cadu – como pediu pra ser chamado - mostrou todo o imóvel e fez suas considerações a respeito de cada ambiente. Lucila se surpreendeu com sua competência, ele realmente sabia o que estava falando e tinha idéias incríveis. Valeria a pena agüentar aquele hippie chato, se fosse pra fazer um bom trabalho.
Os dois discutiram idéias, fizeram anotações, tiraram fotos. A hora passou e nenhum dos dois percebeu. Então, foram almoçar em um restaurante bem charmoso próximo a casa.
Se não fosse pelo senso de humor duvidoso, Cadu seria uma boa companhia. Mas sua mania insuportável de fazer piada com absolutamente tudo, irritava Lucila. Eram trocadilhos sem graça, piadas batidas. Só ele mesmo achava graça. No início, Lucila pra ser simpática, ainda sorria. Com o passar do tempo, preferia fingir não ter ouvido. Mas isso não inibia Cadu, que inventava logo uma nova piada.
Enquanto almoçavam, o celular de Lucila tocou. Era Rafa. Ela não atendeu. Não queria falar com ele naquele momento. Logo depois foi o telefone de Cadu que tocou. Ele atendeu:
- Oie minha bijujujuca!!!!!!!!!
"Bijujujuca”???? - Lucila prendeu o riso e fingiu não prestar atenção na conversa em tom infantil que seu colega tinha ao telefone. Lucila pensava quem poderia ser essa “bijujujuca” que agüentava essa voz irritante e ainda encarava esse modelito descombinado de Cadú? Ele desligou e falou:
- Desculpa, não podia deixar de atender.
Lucila falou que tudo bem e voltou ao assunto do projeto. Como se a ignorasse, Cadu, voltou no assunto anterior. Ele queria falar sobre sua bijujujuca. Era importante pra ele. Interrompendo Lucila, disse:
- Desculpa te interromper, mas custo a voltar ao meu normal quando falo com essa mulher. A mulher da minha vida. Você entende?
Lucila arregalou os olhos e balançou a cabeça concordando, apesar de que não tinha a menor idéia do que Cadú estivesse falando. Ele continuou:
- Eu falo com ela e perco o foco. Me desculpe. Ahh... quem manda ter uma namorada tão especial, não é? Você tem namorado?
Lucila sem graça, não esperava ter que dividir detalhes da sua vida particular com aquele chato. Respondeu secamente:
- Tenho. Mas voltando ao projeto, Cadu. Eu pensei em esquadrias de alumínio. O que você acha?
Cadu demorou um tempo para voltar ao normal. Como ele mesmo havia dito, falar com sua namorada parecia mesmo o tirar do sério.
O almoço acabou e os dois pediram a conta. Voltariam para a casa para fechar mais alguns detalhes. Tinham pouco tempo pra decidir tudo.
Enquanto isso, Rafa estacionava seu carro em frente a um prédio na Barra da Tijuca. Não precisou se anunciar, o porteiro parecia o conhecer. Ele subiu e abriu a porta com sua própria chave. Não havia ninguém em casa, então apenas colocou o anel sobre a mesa. Pensou em aproveitar para deixar também as chaves, mas desistiu.
No caminho de volta para o escritório, tentou mais uma vez ligar para Lucila, que de novo não atendeu. Deixou um recado simpático, apesar de já estar de saco cheio daquela situação. Sabia que tinha que agüentar. Por sorte Lucila nem se lembraria do anel. Estava bêbada, talvez as lembranças estivessem confusas. Rafa torcia para isso. Não saberia explicar como o anel de Silvia estava na sua casa.
Silvia era mais velha que Rafa. A relação dos dois sempre foi tranqüila, nenhum dos dois esperava mais do que o outro poderia dar. Porém, um pouco depois de Rafa reencontrar Lucila, Silvia contou que havia se separado. A partir daí a relação dos dois mudou. Silvia não queria apenas exclusividade, queria começar uma nova vida com Rafa. Ela o culpava pelo fim do seu casamento, se dizia apaixonada e que não podia mais manter a relação com seu marido. Rafa pulou fora. Não era mais do jeito que ele queria. Ainda mais quando começou a namorar Lucila, queria fazer tudo direito. Lucila merecia isso.
Porém, Silvia parecia uma pedra no sapato de Rafa. Quase arruinou tudo quando o fez perder a hora justo no dia do casamento de Ana. Rafa acreditava que não tinha culpa, foi vítima da situação.
Ele já havia rompido com Silvia. Pelo menos na cabeça dele, o fato de não atender mais as ligações de Silvia, deixava claro que ele não queria mais nada com ela. No dia do casamento de Ana e André, era quase hora do almoço e Rafa desceu pra comprar alguma coisa pra comer. Quando voltou encontrou Silvia no corredor do prédio. Ela chorava, gritava. Estava totalmente descontrolada. Rafa, desesperado a colocou para dentro. Foi buscar um pouco d’água e quando voltou Silvia estava só de calcinha deitada no seu sofá.
Como Silvia estava com objetivo claro de ter Rafa de volta, a "brincadeira" foi até tarde. Rafa só se deu conta da hora quando Lucila telefonou várias vezes. Nas primeiras vezes, ele não pôde atender, mas depois percebeu a fria que havia se metido. Correu para se arrumar, pedindo que Silvia fosse embora. Ela se negava. Depois de muito tempo e de uma certa agressividade, Rafa conseguiu sair vestindo seu fraque e levando Silvia pra fora do apartamento.
No caminho para a igreja Rafa até se arrependeu. Mas sabia que não podia se cobrar tanto. Pois ele não teve culpa. Foi obrigado a ceder aos seus desejos animais de macho reprodutor, nada além disso.
Já de volta ao escritório, Rafa tentou mais uma vez falar com Lucila. Desta vez, ela atendeu:
- Oi Rafa.
- Oie meu amor. Estou louco de saudades. Quando você volta?
- Acho que até amanhã conseguiremos terminar tudo.
- Conseguiremos?
- Sim. Estou eu e o Cadú.
- Cadú?
-É! O engenheiro do cliente. Gente boa ele.
- Ah.. gente boa? Que bom, que bom.
- Bom, estamos indo tomar um banho pra jantar. Amanhã te ligo.
- Tá bem, meu amor. Te adoro, viu?
Lucila desligou. Ainda não conseguia fazer declarações de amor. Entrou no chuveiro e resolveu arrumar mentalmente tudo que precisava pensar. Lembrava do anel. Lembrava do atraso de Rafa e a sua justificativa de ter trabalhado no sábado. Então decidiu que desta vez iria pôr tudo em pratos limpos. Precisava saber se Rafa estava ou não falando a verdade.
Logo que saiu do banho, pegou o celular e ligou para o escritório de Rafa. Falseando a voz pediu para falar com Gabriel, o sócio de Rafa que ela odiava especialmente por ele só a chamar de Lucilda. Gabriel atendeu:
- Eu!
- Oi Gabriel, é Lucila. Tudo bem?
- Lucilda!!!!!!!!!! Olá gatona! Tudo bem? Quer falar com o varão do seu namorado?
- Não! Não precisa. Na verdade quero uma ajuda. Eu emprestei meu carro pro Rafa ir pro escritório no sábado. Ele tá todo arranhado. Não queria preocupar Rafa com isso, então pensei em ligar pro estacionamento e resolver. Eles devem ter registro dos carros, não é?
- Sábado? Ahh... bom, Lucilda eu não tenho não. Mas vou te passar pra minha “secretina” e ela te arruma isso aí, tá bem?
Lucila esperou até que a secretária arrumasse o telefone. Ficou olhando pro papel. Sabia que se Rafa tivesse mentido, ela teria que tomar uma atitude. Ligou pro estacionamento e deu os dados do carro de Rafa. Não havia registro do carro no sábado. Lucila se apegou na idéia de que Rafa poderia ter ido sem o carro. Sabia que isso era praticamente impossível, mas precisava ter essa esperança. Perguntaria pra ele assim que voltasse.
A casa era realmente magnífica. Lucila tinha que reconhecer que o que aquele engenheiro tinha de chato, tinha também de talentoso. Era impossível não se empolgar em trabalhar num projeto como aquele.
Carlos Eduardo ou Cadu – como pediu pra ser chamado - mostrou todo o imóvel e fez suas considerações a respeito de cada ambiente. Lucila se surpreendeu com sua competência, ele realmente sabia o que estava falando e tinha idéias incríveis. Valeria a pena agüentar aquele hippie chato, se fosse pra fazer um bom trabalho.
Os dois discutiram idéias, fizeram anotações, tiraram fotos. A hora passou e nenhum dos dois percebeu. Então, foram almoçar em um restaurante bem charmoso próximo a casa.
Se não fosse pelo senso de humor duvidoso, Cadu seria uma boa companhia. Mas sua mania insuportável de fazer piada com absolutamente tudo, irritava Lucila. Eram trocadilhos sem graça, piadas batidas. Só ele mesmo achava graça. No início, Lucila pra ser simpática, ainda sorria. Com o passar do tempo, preferia fingir não ter ouvido. Mas isso não inibia Cadu, que inventava logo uma nova piada.
Enquanto almoçavam, o celular de Lucila tocou. Era Rafa. Ela não atendeu. Não queria falar com ele naquele momento. Logo depois foi o telefone de Cadu que tocou. Ele atendeu:
- Oie minha bijujujuca!!!!!!!!!
"Bijujujuca”???? - Lucila prendeu o riso e fingiu não prestar atenção na conversa em tom infantil que seu colega tinha ao telefone. Lucila pensava quem poderia ser essa “bijujujuca” que agüentava essa voz irritante e ainda encarava esse modelito descombinado de Cadú? Ele desligou e falou:
- Desculpa, não podia deixar de atender.
Lucila falou que tudo bem e voltou ao assunto do projeto. Como se a ignorasse, Cadu, voltou no assunto anterior. Ele queria falar sobre sua bijujujuca. Era importante pra ele. Interrompendo Lucila, disse:
- Desculpa te interromper, mas custo a voltar ao meu normal quando falo com essa mulher. A mulher da minha vida. Você entende?
Lucila arregalou os olhos e balançou a cabeça concordando, apesar de que não tinha a menor idéia do que Cadú estivesse falando. Ele continuou:
- Eu falo com ela e perco o foco. Me desculpe. Ahh... quem manda ter uma namorada tão especial, não é? Você tem namorado?
Lucila sem graça, não esperava ter que dividir detalhes da sua vida particular com aquele chato. Respondeu secamente:
- Tenho. Mas voltando ao projeto, Cadu. Eu pensei em esquadrias de alumínio. O que você acha?
Cadu demorou um tempo para voltar ao normal. Como ele mesmo havia dito, falar com sua namorada parecia mesmo o tirar do sério.
O almoço acabou e os dois pediram a conta. Voltariam para a casa para fechar mais alguns detalhes. Tinham pouco tempo pra decidir tudo.
Enquanto isso, Rafa estacionava seu carro em frente a um prédio na Barra da Tijuca. Não precisou se anunciar, o porteiro parecia o conhecer. Ele subiu e abriu a porta com sua própria chave. Não havia ninguém em casa, então apenas colocou o anel sobre a mesa. Pensou em aproveitar para deixar também as chaves, mas desistiu.
No caminho de volta para o escritório, tentou mais uma vez ligar para Lucila, que de novo não atendeu. Deixou um recado simpático, apesar de já estar de saco cheio daquela situação. Sabia que tinha que agüentar. Por sorte Lucila nem se lembraria do anel. Estava bêbada, talvez as lembranças estivessem confusas. Rafa torcia para isso. Não saberia explicar como o anel de Silvia estava na sua casa.
Silvia era mais velha que Rafa. A relação dos dois sempre foi tranqüila, nenhum dos dois esperava mais do que o outro poderia dar. Porém, um pouco depois de Rafa reencontrar Lucila, Silvia contou que havia se separado. A partir daí a relação dos dois mudou. Silvia não queria apenas exclusividade, queria começar uma nova vida com Rafa. Ela o culpava pelo fim do seu casamento, se dizia apaixonada e que não podia mais manter a relação com seu marido. Rafa pulou fora. Não era mais do jeito que ele queria. Ainda mais quando começou a namorar Lucila, queria fazer tudo direito. Lucila merecia isso.
Porém, Silvia parecia uma pedra no sapato de Rafa. Quase arruinou tudo quando o fez perder a hora justo no dia do casamento de Ana. Rafa acreditava que não tinha culpa, foi vítima da situação.
Ele já havia rompido com Silvia. Pelo menos na cabeça dele, o fato de não atender mais as ligações de Silvia, deixava claro que ele não queria mais nada com ela. No dia do casamento de Ana e André, era quase hora do almoço e Rafa desceu pra comprar alguma coisa pra comer. Quando voltou encontrou Silvia no corredor do prédio. Ela chorava, gritava. Estava totalmente descontrolada. Rafa, desesperado a colocou para dentro. Foi buscar um pouco d’água e quando voltou Silvia estava só de calcinha deitada no seu sofá.
Como Silvia estava com objetivo claro de ter Rafa de volta, a "brincadeira" foi até tarde. Rafa só se deu conta da hora quando Lucila telefonou várias vezes. Nas primeiras vezes, ele não pôde atender, mas depois percebeu a fria que havia se metido. Correu para se arrumar, pedindo que Silvia fosse embora. Ela se negava. Depois de muito tempo e de uma certa agressividade, Rafa conseguiu sair vestindo seu fraque e levando Silvia pra fora do apartamento.
No caminho para a igreja Rafa até se arrependeu. Mas sabia que não podia se cobrar tanto. Pois ele não teve culpa. Foi obrigado a ceder aos seus desejos animais de macho reprodutor, nada além disso.
Já de volta ao escritório, Rafa tentou mais uma vez falar com Lucila. Desta vez, ela atendeu:
- Oi Rafa.
- Oie meu amor. Estou louco de saudades. Quando você volta?
- Acho que até amanhã conseguiremos terminar tudo.
- Conseguiremos?
- Sim. Estou eu e o Cadú.
- Cadú?
-É! O engenheiro do cliente. Gente boa ele.
- Ah.. gente boa? Que bom, que bom.
- Bom, estamos indo tomar um banho pra jantar. Amanhã te ligo.
- Tá bem, meu amor. Te adoro, viu?
Lucila desligou. Ainda não conseguia fazer declarações de amor. Entrou no chuveiro e resolveu arrumar mentalmente tudo que precisava pensar. Lembrava do anel. Lembrava do atraso de Rafa e a sua justificativa de ter trabalhado no sábado. Então decidiu que desta vez iria pôr tudo em pratos limpos. Precisava saber se Rafa estava ou não falando a verdade.
Logo que saiu do banho, pegou o celular e ligou para o escritório de Rafa. Falseando a voz pediu para falar com Gabriel, o sócio de Rafa que ela odiava especialmente por ele só a chamar de Lucilda. Gabriel atendeu:
- Eu!
- Oi Gabriel, é Lucila. Tudo bem?
- Lucilda!!!!!!!!!! Olá gatona! Tudo bem? Quer falar com o varão do seu namorado?
- Não! Não precisa. Na verdade quero uma ajuda. Eu emprestei meu carro pro Rafa ir pro escritório no sábado. Ele tá todo arranhado. Não queria preocupar Rafa com isso, então pensei em ligar pro estacionamento e resolver. Eles devem ter registro dos carros, não é?
- Sábado? Ahh... bom, Lucilda eu não tenho não. Mas vou te passar pra minha “secretina” e ela te arruma isso aí, tá bem?
Lucila esperou até que a secretária arrumasse o telefone. Ficou olhando pro papel. Sabia que se Rafa tivesse mentido, ela teria que tomar uma atitude. Ligou pro estacionamento e deu os dados do carro de Rafa. Não havia registro do carro no sábado. Lucila se apegou na idéia de que Rafa poderia ter ido sem o carro. Sabia que isso era praticamente impossível, mas precisava ter essa esperança. Perguntaria pra ele assim que voltasse.
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sexta-feira, 15 de maio de 2009
CAPÍTULO 34
Consuelo voltou dias depois para visitar Bruna, mas ela já não estava mais no hospital. Segundo o rapaz que alternava o turno com seu primo Ramirez, ela tinha tido alta e tinha sido levada por um carro da polícia. Consuelo assustada perguntou:
- Imigração?
O rapaz respondeu que não. Era um carro da polícia especial de Miami. Nem ele sabia dizer o nome da unidade.
Diante disso Consuelo não sabia o que fazer. Sendo ilegal no país não poderia procurar a patroa nas delegacias de Miami, muito menos nessa tal de polícia especial. Então, fez o que sempre fazia quando precisava de ajuda: rezou.
Bruna não parecia preocupada com seu destino. Ao contrário, sua apatia dava um ar de desdém a tudo que acontecia a sua volta. Chegou na delegacia acompanhada por dois indivíduos bem vestidos, de terno. Não pareceriam policiais se não fosse pelos distintivos pendurados no pescoço e as armas encaixadas numa espécie de coldre sobre o peito. Apesar do silêncio absoluto no carro, eles foram gentis todo o tempo. Assim que chegaram, um deles abriu a porta e ofereceu ajuda para que Bruna saísse do carro. A apoiou até a entrada e por todo percurso nos corredores do prédio. Parecia uma cena de um filme policial americano. Todos aqueles homens com seus copos de café, falando alto, às vezes rindo. Poucos sentados em suas mesas, a maioria de pé discutindo alguma coisa. Bruna chamou atenção do grupo quando entrou. Apesar do seu abatimento, era uma mulher bonita, que se destacava especialmente em um ambiente tão masculino quanto aquele.
O policial abriu a porta de uma sala onde havia uma mesa e duas cadeiras. Era ladeada por uma grande janela de espelho e apenas um bebedor. Bruna se sentou ali e recusou a água ou o café oferecidos. Havia passado alguns dias no hospital e já não ligava em não comer. Comia obrigada pelas enfermeiras, que diante da sua recusa intensificaram o mix de vitaminas. Não sentia nada na verdade. Nenhuma vontade, fome ou sono. Queria somente saber de Marcelo. Mas até isso ela já não queria tanto. Tinha medo de saber a verdade e talvez a ausência de pensamentos que se forçava a ter, a confortassem mais.
Bruna ficou um bom tempo sozinha na sala. Aguardando conforme o pedido do policial. Não sabia direito o que aconteceria com ela. Não se importava. De repente a porta da sala abriu. Era uma pequena fresta por onde entrou o outro policial. Ele era um homem mais velho, com um ar mais impaciente. Ele colocou a cabeça através da fresta da porta e disse em um inglês quase incompreensível:
- A senhora tem visita.
Bruna arregalou os olhos e pela primeira vez olhou para o policial. Ficou quieta observando ansiosamente o movimento da porta. Sabia que só poderia ser Marcelo. Finalmente ele viria levá-la pra casa, tirá-la daquele pesadelo.
A porta então abriu e alguém entrou. Bruna chegou a sorrir, era como se tivesse ensaiado mentalmente um sorriso para quando Marcelo viesse. Então o homem falou:
- Não achei que ficaria feliz em me ver.
Bruna caiu em si. Apesar da familiaridade daquela voz, agora bem mais áspera, não era quem ela esperava, então com um tom quase irônico respondeu:
- Juca? Talvez seja saudade. Quem sabe.
Bruna se virou de lado, olhando para a parede e deixando claro que não queria conversa com Juca. Mesmo assim, ele fechou a porta e se sentou a sua frente. Seu rosto queimava e ele sentia que suas mãos estavam trêmulas. Tinha sonhado muito com aquele momento em que poderia dizer tudo o que pensava para Bruna. Xingar, gritar e mostrar como ela o tinha feito sofrer. Apesar disso, Juca olhou para Bruna com pena. Ver seu olhar perdido no nada, a mão ainda sobre a barriga, as olheiras e o cabelo preso sem cuidado. Era nítido o quanto aquela mulher estava sofrendo. A dor de Bruna doeu em Juca. Ele não esperava sentir isso. Ao contrário pensava que sentiria um gosto de vingança em ver que ela também tinha tido o que merecia.
Bruna continuava olhando para o nada. Juca engoliu algo que poderia ser até um choro. Virou se para ela:
- Eu sinto muito. De verdade. Sinceramente não imaginava que sentiria tanto.
Bruna segurou a cabeça com as mãos. As lágrimas começaram a cair. Não queria chorar. Não queria sentir nada, mas agora sentia. Olhou para Juca e falou:
- Dói muito. Era meu filho. Meu filho! E agora? Agora acabou. O que eu vou fazer?
Juca quis abraçá-la, mas se conteve. Apenas segurou o choro. Bruna continuou:
- Minha vida mudou nos últimos meses mais do que qualquer coisa. Não sei se fiz as escolhas certas. Talvez não. Mas meu filho era uma escolha certa. Disso eu tenho certeza. E o que aconteceu com ele....
Bruna não conseguiu mais falar. Nesse momento entrou o policial mais jovem perguntando a Juca se estava tudo bem. Juca respondeu que sim e pediu lenços de papel.
Juca tinha sido avisado pela Polícia Federal que Marcelo havia sido encontrado em Miami e que Bruna estava em poder da polícia local e provavelmente seria deportada par ser julgada no Brasil. Marcelo tinha conseguido fugir, mas com avisos em todas as fronteiras, acreditavam que ele não iria muito longe. Juca não pensou duas vezes, aceitou acompanhar o agente da PF até Miami para ver de perto todo o processo. Ou melhor, para dizer poucas e boas para Bruna e Marcelo.
Mas não foi isso que aconteceu quando viu a fragilidade daquela que foi por tantos anos a mulher da sua vida. Juca havia desmontado. Sentia raiva por ter amolecido, mas não seria justo despejar em Bruna toda sua raiva num momento tão triste como este.
Os dois ainda ficaram alguns minutos sozinhos na sala, até que o agente brasileiro da PF entrou para explicar a situação em Bruna se encontrava:
- Boa tarde, Dona Bruna Andrade. Antes de mais nada gostaria de dar meus sentimentos pelo acontecido. Apesar deste momento dramático, não posso deixar de fazer meu trabalho.
Bruna suspirou, olhou para o agente e perguntou:
- O que o senhor quer de mim? É só falar. Eu respondo tudo o que o senhor quiser.
O agente olhou para Juca e continuou:
- Primeiro vamos cuidar da sua extradição. Estamos pedindo sua extradição para ser julgada no Brasil. A senhora tem direito a um advogado brasileiro para cuidar do seu caso.
Juca o interrrompeu:
- Eu cuido disso.
O agente não entendeu, mas prosseguiu:
- Dependendo da orientação do seu advogado ele pode dificultar o processo de extradição.
Bruna olhou pra Juca e disse:
- Eu quero voltar pro Brasil. Não interessa o que aconteça comigo. Eu quero voltar.
O agente sabia que talvez esta não fosse a melhor opção para Bruna, mas era de seu interesse e da sua corporação levar Bruna para o Brasil. Ainda ficou um tempo explicando alguns trâmites até que perguntou:
- Agora a senhora sabe da sua situação. Quando for julgada, existe condições que podem aliviar sua pena. Por exemplo, se nos ajudar a encontrar o Sr. Marcelo Zacaro. A senhora sabe onde ele está?
- Não.
- Se a senhora nos ajudar, isso também ajudará no seu processo. A senhora me entendeu?
- Entendi. Mas eu não sei onde ele está. E nem porque não veio saber como eu estava quando perdi nosso filho!
O agente percebeu que havia raiva naquele comentário e se aproveitou:
- A senhora me desculpe a franqueza, mas deve ser pelo mesmo motivo que ele colocou vários imóveis e bens em seu nome. Agora a senhora terá que nos explicar como conseguiu adquiri-los e não ele.
Bruna não acreditou no que ouvia. Tinha realmente assinado alguns papéis, mas nunca pensou que precisaria desconfiar de alguma coisa. O agente tentou mais uma vez:
- A senhora pensa com calma. Não existe nenhum lugar onde o Sr. Marcelo possa estar?
Bruna pensou por um tempo e teve um “estalo”:
- O barco! Vocês procuraram o barco?
- Não encontramos nenhum barco registrado em nome dele ou em seu nome.
- Não está registrado. Me lembro que Marcelo comentou que não iria registrar o iate. Ele colocou em nome de um amigo mexicano que trabalhava com ele no projeto da operadora de turismo.
O agente anotou o nome e todos os dados que Bruna sabia sobre o mexicano e saiu da sala agitado. Bruna e Juca se olharam. Por alguns instantes Bruna sentiu um arrependimento imenso. Mas depois pensou que não tinha feito tudo isso à toa, mesmo agora sendo tão difícil sentir o tamanho do amor que ela tinha por Marcelo.
Juca desviou o olhar, mesmo sem querer parar de olhar para Bruna.
- Imigração?
O rapaz respondeu que não. Era um carro da polícia especial de Miami. Nem ele sabia dizer o nome da unidade.
Diante disso Consuelo não sabia o que fazer. Sendo ilegal no país não poderia procurar a patroa nas delegacias de Miami, muito menos nessa tal de polícia especial. Então, fez o que sempre fazia quando precisava de ajuda: rezou.
Bruna não parecia preocupada com seu destino. Ao contrário, sua apatia dava um ar de desdém a tudo que acontecia a sua volta. Chegou na delegacia acompanhada por dois indivíduos bem vestidos, de terno. Não pareceriam policiais se não fosse pelos distintivos pendurados no pescoço e as armas encaixadas numa espécie de coldre sobre o peito. Apesar do silêncio absoluto no carro, eles foram gentis todo o tempo. Assim que chegaram, um deles abriu a porta e ofereceu ajuda para que Bruna saísse do carro. A apoiou até a entrada e por todo percurso nos corredores do prédio. Parecia uma cena de um filme policial americano. Todos aqueles homens com seus copos de café, falando alto, às vezes rindo. Poucos sentados em suas mesas, a maioria de pé discutindo alguma coisa. Bruna chamou atenção do grupo quando entrou. Apesar do seu abatimento, era uma mulher bonita, que se destacava especialmente em um ambiente tão masculino quanto aquele.
O policial abriu a porta de uma sala onde havia uma mesa e duas cadeiras. Era ladeada por uma grande janela de espelho e apenas um bebedor. Bruna se sentou ali e recusou a água ou o café oferecidos. Havia passado alguns dias no hospital e já não ligava em não comer. Comia obrigada pelas enfermeiras, que diante da sua recusa intensificaram o mix de vitaminas. Não sentia nada na verdade. Nenhuma vontade, fome ou sono. Queria somente saber de Marcelo. Mas até isso ela já não queria tanto. Tinha medo de saber a verdade e talvez a ausência de pensamentos que se forçava a ter, a confortassem mais.
Bruna ficou um bom tempo sozinha na sala. Aguardando conforme o pedido do policial. Não sabia direito o que aconteceria com ela. Não se importava. De repente a porta da sala abriu. Era uma pequena fresta por onde entrou o outro policial. Ele era um homem mais velho, com um ar mais impaciente. Ele colocou a cabeça através da fresta da porta e disse em um inglês quase incompreensível:
- A senhora tem visita.
Bruna arregalou os olhos e pela primeira vez olhou para o policial. Ficou quieta observando ansiosamente o movimento da porta. Sabia que só poderia ser Marcelo. Finalmente ele viria levá-la pra casa, tirá-la daquele pesadelo.
A porta então abriu e alguém entrou. Bruna chegou a sorrir, era como se tivesse ensaiado mentalmente um sorriso para quando Marcelo viesse. Então o homem falou:
- Não achei que ficaria feliz em me ver.
Bruna caiu em si. Apesar da familiaridade daquela voz, agora bem mais áspera, não era quem ela esperava, então com um tom quase irônico respondeu:
- Juca? Talvez seja saudade. Quem sabe.
Bruna se virou de lado, olhando para a parede e deixando claro que não queria conversa com Juca. Mesmo assim, ele fechou a porta e se sentou a sua frente. Seu rosto queimava e ele sentia que suas mãos estavam trêmulas. Tinha sonhado muito com aquele momento em que poderia dizer tudo o que pensava para Bruna. Xingar, gritar e mostrar como ela o tinha feito sofrer. Apesar disso, Juca olhou para Bruna com pena. Ver seu olhar perdido no nada, a mão ainda sobre a barriga, as olheiras e o cabelo preso sem cuidado. Era nítido o quanto aquela mulher estava sofrendo. A dor de Bruna doeu em Juca. Ele não esperava sentir isso. Ao contrário pensava que sentiria um gosto de vingança em ver que ela também tinha tido o que merecia.
Bruna continuava olhando para o nada. Juca engoliu algo que poderia ser até um choro. Virou se para ela:
- Eu sinto muito. De verdade. Sinceramente não imaginava que sentiria tanto.
Bruna segurou a cabeça com as mãos. As lágrimas começaram a cair. Não queria chorar. Não queria sentir nada, mas agora sentia. Olhou para Juca e falou:
- Dói muito. Era meu filho. Meu filho! E agora? Agora acabou. O que eu vou fazer?
Juca quis abraçá-la, mas se conteve. Apenas segurou o choro. Bruna continuou:
- Minha vida mudou nos últimos meses mais do que qualquer coisa. Não sei se fiz as escolhas certas. Talvez não. Mas meu filho era uma escolha certa. Disso eu tenho certeza. E o que aconteceu com ele....
Bruna não conseguiu mais falar. Nesse momento entrou o policial mais jovem perguntando a Juca se estava tudo bem. Juca respondeu que sim e pediu lenços de papel.
Juca tinha sido avisado pela Polícia Federal que Marcelo havia sido encontrado em Miami e que Bruna estava em poder da polícia local e provavelmente seria deportada par ser julgada no Brasil. Marcelo tinha conseguido fugir, mas com avisos em todas as fronteiras, acreditavam que ele não iria muito longe. Juca não pensou duas vezes, aceitou acompanhar o agente da PF até Miami para ver de perto todo o processo. Ou melhor, para dizer poucas e boas para Bruna e Marcelo.
Mas não foi isso que aconteceu quando viu a fragilidade daquela que foi por tantos anos a mulher da sua vida. Juca havia desmontado. Sentia raiva por ter amolecido, mas não seria justo despejar em Bruna toda sua raiva num momento tão triste como este.
Os dois ainda ficaram alguns minutos sozinhos na sala, até que o agente brasileiro da PF entrou para explicar a situação em Bruna se encontrava:
- Boa tarde, Dona Bruna Andrade. Antes de mais nada gostaria de dar meus sentimentos pelo acontecido. Apesar deste momento dramático, não posso deixar de fazer meu trabalho.
Bruna suspirou, olhou para o agente e perguntou:
- O que o senhor quer de mim? É só falar. Eu respondo tudo o que o senhor quiser.
O agente olhou para Juca e continuou:
- Primeiro vamos cuidar da sua extradição. Estamos pedindo sua extradição para ser julgada no Brasil. A senhora tem direito a um advogado brasileiro para cuidar do seu caso.
Juca o interrrompeu:
- Eu cuido disso.
O agente não entendeu, mas prosseguiu:
- Dependendo da orientação do seu advogado ele pode dificultar o processo de extradição.
Bruna olhou pra Juca e disse:
- Eu quero voltar pro Brasil. Não interessa o que aconteça comigo. Eu quero voltar.
O agente sabia que talvez esta não fosse a melhor opção para Bruna, mas era de seu interesse e da sua corporação levar Bruna para o Brasil. Ainda ficou um tempo explicando alguns trâmites até que perguntou:
- Agora a senhora sabe da sua situação. Quando for julgada, existe condições que podem aliviar sua pena. Por exemplo, se nos ajudar a encontrar o Sr. Marcelo Zacaro. A senhora sabe onde ele está?
- Não.
- Se a senhora nos ajudar, isso também ajudará no seu processo. A senhora me entendeu?
- Entendi. Mas eu não sei onde ele está. E nem porque não veio saber como eu estava quando perdi nosso filho!
O agente percebeu que havia raiva naquele comentário e se aproveitou:
- A senhora me desculpe a franqueza, mas deve ser pelo mesmo motivo que ele colocou vários imóveis e bens em seu nome. Agora a senhora terá que nos explicar como conseguiu adquiri-los e não ele.
Bruna não acreditou no que ouvia. Tinha realmente assinado alguns papéis, mas nunca pensou que precisaria desconfiar de alguma coisa. O agente tentou mais uma vez:
- A senhora pensa com calma. Não existe nenhum lugar onde o Sr. Marcelo possa estar?
Bruna pensou por um tempo e teve um “estalo”:
- O barco! Vocês procuraram o barco?
- Não encontramos nenhum barco registrado em nome dele ou em seu nome.
- Não está registrado. Me lembro que Marcelo comentou que não iria registrar o iate. Ele colocou em nome de um amigo mexicano que trabalhava com ele no projeto da operadora de turismo.
O agente anotou o nome e todos os dados que Bruna sabia sobre o mexicano e saiu da sala agitado. Bruna e Juca se olharam. Por alguns instantes Bruna sentiu um arrependimento imenso. Mas depois pensou que não tinha feito tudo isso à toa, mesmo agora sendo tão difícil sentir o tamanho do amor que ela tinha por Marcelo.
Juca desviou o olhar, mesmo sem querer parar de olhar para Bruna.
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sexta-feira, 24 de abril de 2009
CAPÍTULO 29
Era inegável! Suas melhores transas tinham sido com Rafa. Não pela performance em si, mas pelo sabor do inesperado. Rafa era ótimo em surpresas. Quando se menos esperava, lá estava ele cheio de vontade. E nos lugares mais improváveis. Lucila tinha apagado isso da sua cabeça. Mas depois da sua visita ao escritório de Rafa, era impossível esquecer. Ela adorava isso nele. Esse eterno tesão, parecia um adolescente.
Claro que nem sempre foi assim. Havia períodos enquanto namoravam que ele se distanciava. Era um indício de que havia algo acontecendo. Era como se o tratamento que Rafa dispensava a Lucila passasse de namorado apaixonado a irmão dedicado. O carinho continuava, mas de uma forma diferente. A relação se tornava quase fraternal.
Agora Lucila não pensava no passado. Ou pelo menos tentava não pensar. Focava no que ele tinha de melhor. E realmente tudo estava indo muito bem. Ele realmente estava mudado e parecia disposto a fazê-la feliz.
Faltavam apenas alguns dias pro casamento de Ana e André quando eles convidaram Lucila e Rafa para jantar. Rafa se dava muito bem com André, o que deixava as meninas muito felizes. Sempre sonharam em terem pares que fossem amigos. E a última tentativa de Lucila, quando ela ficou com Rodolfo, um amigo de André, não tinha dado nada certo. Mas agora tudo ia bem. Tão bem que no meio do jantar Ana fez uma pausa na conversa batendo o talher no copo e pediu a atenção formal do casal:
- Eu tenho duas perguntas pra vocês. Na verdade, nós temos. Não é amor? – André balançou a cabeça dizendo que sim - A segunda pergunta é condicionada a resposta da primeira.
Lucila riu com a enrolação de Ana. E interrompeu:
- Anda Ana, pergunta logo! O que você quer saber?
Ana riu também e levantou as mãos pedindo calma:
- Bom o que eu quero saber. Aliás, nós queremos saber, é... – olhou pra Rafa e perguntou – Vocês estão namorando de novo?
Lucila tremeu. Não consegui disfarçar. Não sabia o que fazer. Então riu. E foi muito pior, pois saiu uma gargalhada debochada de bruxa louca que chamou atenção de todo o restaurante. Quando notou o efeito da sua reação, enrubesceu e se calou. Então Rafa disse olhando para Lucila:
- Bom eu tinha a resposta na ponta da língua, mas não sei muito bem o que a Lú pensa. Depois dessa gargalhada, estou com medo de levar um fora. – o tom era de brincadeira, mas também tinha o objetivo de entender se ele podia ou não prosseguir na sua resposta.
Lucila sorriu. Aliviada, sentiu que suas bochechas esfriavam. Então se virou pra Rafa e disse:
- Minha gargalhada não quer dizer nada, juro. Pode continuar.
Ana e André eram expectadores atentos. Olhavam todos os gestos e movimentos de seus entrevistados, torcendo por um final feliz.
Então Rafa olhou pra Ana, que aguardava a resposta e disse:
- Aninha, eu estou namorando a Lú. Agora se ela está me namorando você tem que perguntar a ela.
Ana e Lucila riram alto, como se tivessem ouvido algo muito, muito engraçado. Mas não era isso. As duas sabiam o quanto estavam torcendo por isso. Ana nem esperou a resposta da amiga e logo emendou a segunda pergunta.
- Bom se vocês estão namorando. Eu queria fazer nossa segunda pergunta. – olhou pra André pedindo aprovação, que ele deu com uma piscadinha – Lú, você é minha madrinha número um. Ah! Você sabe disso! E por isso precisa de um bom par e sei que não é o caso do meu primo punk.
Lucila e Rafa sorriram. Sabiam onde Ana ia chegar. Ela continuou:
- Então. Pensando nisso. Rafa, você aceita ser nosso padrinho junto com a Lucila?
Rafa olhou pra Lú e deu um beijo em seu rosto. Depois respondeu:
- Se você me prometer que seu primo punk não vai me bater. Eu aceito.
Todos riram e comemoraram com brindes e abraços. Rafa pediu um vinho caríssimo pra os noivos. Lucila era só alegria.
Diante de tanta felicidade, Ana não podia nem pensar e falar o que não saía de sua cabeça: o casamento de Bruna e Juca. Rafa e Lucila namoravam e ele tinha sido um completo cafajeste se agarrando com uma prima do noivo. Foi a gota d’água pra Lucila que acabou o namoro ali mesmo. Ana estava muito insegura com essa decisão de convidar Rafa para padrinho. Sabia que tinha que apoiar sua melhor amiga, mas tinha muito medo de que aquela cena pudesse se repetir. Como não conseguia esquecer esta história, deu um jeito de chamar André num canto e pediu para que André tivesse uma conversa séria com Rafa. André concordou.
Ana chamou Lucila pro banheiro e fez um sinal pro noivo. Lucila já estava meio altinha e esbarrava nas cadeiras por onde passava. A idéia de Ana era segurar a amiga no banheiro pelo maior tempo possível para que André pudesse enquadrar Rafa.
André tinha entendido o sinal da noiva e logo que as duas se afastaram se virou pra Rafa:
- E aí meu chapa? Agora é pra valer o lance com a Lucila? Cara, você sabe que eu segurei algumas armações suas no passado, mas eu queria te dizer que desta vez não vou aliviar pra você. Gosto muito de Lucila e não acho que ela mereça sofrer. E acho que você já percebeu que de novo ela ta caidinha por você, né?
Rafa estava sério. Nunca tinha pensado o quanto tinha feito mal pra Lucila. Acreditava que tinha errado, mas no fundo, achava que eram erros bobos, conseqüência da sua imaturidade na época. Agora sabia o que queria. Queria Lucila. André não parou:
- Você sabe que compromisso sério significa sair só com a sua mulher? E se você pretende ir a fundo nessa relação, vai chegar o momento da calcinha de algodão e você vai ter que encarar.
- Calcinha de algodão?
- É, brother! Lingerie de renda é só no namoro, no início. Depois que vocês ficam mais íntimos ela vai aparecer de calcinha de algodão e sutiã descombinado. E se você realmente for apaixonado por ela não só via encarar, como vai achar um tesão!
Rafa riu. Mas não gostou muito da metáfora do amigo. Aliás, ele teve medo de não ser uma metáfora. Mas fez cara de quem concorda.
- André, eu descobri que amo a Lucila!
André o interrompeu:
- Quando você percebeu isso? Não foi agora! Você sempre a amou e isso nunca te impediu de pular a cerca.
Rafa se desconsertou, mas tentou continuar:
- Eu sei! Eu sei! André, eu era um moleque. Mandei mal eu sei. Eu não vou repetir os mesmos erros. Eu quero calcinha de algodão! Pode acreditar.
Vendo que as duas voltavam do banheiro, André apenas concordou com a cabeça. Rafa estava devidamente advertido e até mesmo André acreditou que ele estivesse disposto a namorar direito com Lucila. Com um sorriso calmo que deu pra Ana, ela entendeu que tudo estava bem.
Claro que nem sempre foi assim. Havia períodos enquanto namoravam que ele se distanciava. Era um indício de que havia algo acontecendo. Era como se o tratamento que Rafa dispensava a Lucila passasse de namorado apaixonado a irmão dedicado. O carinho continuava, mas de uma forma diferente. A relação se tornava quase fraternal.
Agora Lucila não pensava no passado. Ou pelo menos tentava não pensar. Focava no que ele tinha de melhor. E realmente tudo estava indo muito bem. Ele realmente estava mudado e parecia disposto a fazê-la feliz.
Faltavam apenas alguns dias pro casamento de Ana e André quando eles convidaram Lucila e Rafa para jantar. Rafa se dava muito bem com André, o que deixava as meninas muito felizes. Sempre sonharam em terem pares que fossem amigos. E a última tentativa de Lucila, quando ela ficou com Rodolfo, um amigo de André, não tinha dado nada certo. Mas agora tudo ia bem. Tão bem que no meio do jantar Ana fez uma pausa na conversa batendo o talher no copo e pediu a atenção formal do casal:
- Eu tenho duas perguntas pra vocês. Na verdade, nós temos. Não é amor? – André balançou a cabeça dizendo que sim - A segunda pergunta é condicionada a resposta da primeira.
Lucila riu com a enrolação de Ana. E interrompeu:
- Anda Ana, pergunta logo! O que você quer saber?
Ana riu também e levantou as mãos pedindo calma:
- Bom o que eu quero saber. Aliás, nós queremos saber, é... – olhou pra Rafa e perguntou – Vocês estão namorando de novo?
Lucila tremeu. Não consegui disfarçar. Não sabia o que fazer. Então riu. E foi muito pior, pois saiu uma gargalhada debochada de bruxa louca que chamou atenção de todo o restaurante. Quando notou o efeito da sua reação, enrubesceu e se calou. Então Rafa disse olhando para Lucila:
- Bom eu tinha a resposta na ponta da língua, mas não sei muito bem o que a Lú pensa. Depois dessa gargalhada, estou com medo de levar um fora. – o tom era de brincadeira, mas também tinha o objetivo de entender se ele podia ou não prosseguir na sua resposta.
Lucila sorriu. Aliviada, sentiu que suas bochechas esfriavam. Então se virou pra Rafa e disse:
- Minha gargalhada não quer dizer nada, juro. Pode continuar.
Ana e André eram expectadores atentos. Olhavam todos os gestos e movimentos de seus entrevistados, torcendo por um final feliz.
Então Rafa olhou pra Ana, que aguardava a resposta e disse:
- Aninha, eu estou namorando a Lú. Agora se ela está me namorando você tem que perguntar a ela.
Ana e Lucila riram alto, como se tivessem ouvido algo muito, muito engraçado. Mas não era isso. As duas sabiam o quanto estavam torcendo por isso. Ana nem esperou a resposta da amiga e logo emendou a segunda pergunta.
- Bom se vocês estão namorando. Eu queria fazer nossa segunda pergunta. – olhou pra André pedindo aprovação, que ele deu com uma piscadinha – Lú, você é minha madrinha número um. Ah! Você sabe disso! E por isso precisa de um bom par e sei que não é o caso do meu primo punk.
Lucila e Rafa sorriram. Sabiam onde Ana ia chegar. Ela continuou:
- Então. Pensando nisso. Rafa, você aceita ser nosso padrinho junto com a Lucila?
Rafa olhou pra Lú e deu um beijo em seu rosto. Depois respondeu:
- Se você me prometer que seu primo punk não vai me bater. Eu aceito.
Todos riram e comemoraram com brindes e abraços. Rafa pediu um vinho caríssimo pra os noivos. Lucila era só alegria.
Diante de tanta felicidade, Ana não podia nem pensar e falar o que não saía de sua cabeça: o casamento de Bruna e Juca. Rafa e Lucila namoravam e ele tinha sido um completo cafajeste se agarrando com uma prima do noivo. Foi a gota d’água pra Lucila que acabou o namoro ali mesmo. Ana estava muito insegura com essa decisão de convidar Rafa para padrinho. Sabia que tinha que apoiar sua melhor amiga, mas tinha muito medo de que aquela cena pudesse se repetir. Como não conseguia esquecer esta história, deu um jeito de chamar André num canto e pediu para que André tivesse uma conversa séria com Rafa. André concordou.
Ana chamou Lucila pro banheiro e fez um sinal pro noivo. Lucila já estava meio altinha e esbarrava nas cadeiras por onde passava. A idéia de Ana era segurar a amiga no banheiro pelo maior tempo possível para que André pudesse enquadrar Rafa.
André tinha entendido o sinal da noiva e logo que as duas se afastaram se virou pra Rafa:
- E aí meu chapa? Agora é pra valer o lance com a Lucila? Cara, você sabe que eu segurei algumas armações suas no passado, mas eu queria te dizer que desta vez não vou aliviar pra você. Gosto muito de Lucila e não acho que ela mereça sofrer. E acho que você já percebeu que de novo ela ta caidinha por você, né?
Rafa estava sério. Nunca tinha pensado o quanto tinha feito mal pra Lucila. Acreditava que tinha errado, mas no fundo, achava que eram erros bobos, conseqüência da sua imaturidade na época. Agora sabia o que queria. Queria Lucila. André não parou:
- Você sabe que compromisso sério significa sair só com a sua mulher? E se você pretende ir a fundo nessa relação, vai chegar o momento da calcinha de algodão e você vai ter que encarar.
- Calcinha de algodão?
- É, brother! Lingerie de renda é só no namoro, no início. Depois que vocês ficam mais íntimos ela vai aparecer de calcinha de algodão e sutiã descombinado. E se você realmente for apaixonado por ela não só via encarar, como vai achar um tesão!
Rafa riu. Mas não gostou muito da metáfora do amigo. Aliás, ele teve medo de não ser uma metáfora. Mas fez cara de quem concorda.
- André, eu descobri que amo a Lucila!
André o interrompeu:
- Quando você percebeu isso? Não foi agora! Você sempre a amou e isso nunca te impediu de pular a cerca.
Rafa se desconsertou, mas tentou continuar:
- Eu sei! Eu sei! André, eu era um moleque. Mandei mal eu sei. Eu não vou repetir os mesmos erros. Eu quero calcinha de algodão! Pode acreditar.
Vendo que as duas voltavam do banheiro, André apenas concordou com a cabeça. Rafa estava devidamente advertido e até mesmo André acreditou que ele estivesse disposto a namorar direito com Lucila. Com um sorriso calmo que deu pra Ana, ela entendeu que tudo estava bem.
quarta-feira, 22 de abril de 2009
CAPÍTULO 28
Lucila havia aceitado depor no processo contra Marcelo e Waldemar Zacaro. Ela iria contar para a polícia como aconteceram os fatos com Bruna, mostrar o bilhete, a gravação na secretária eletrônica e até a caixa com os documentos da investigação. Juca acreditava que isso poderia ajudar a comprovar a intenção de fuga.
Apesar de saber que estava fazendo o certo, a idéia de acusar sua melhor ou ex melhor amiga de cúmplice a deixava arrasada. Entendia que isso é necessário. Mas no fundo acreditava que Bruna estava iludida por Marcelo, cega de paixão. O que Lucila não entendia é porque surgiu esta brecha na vida de Bruna a ponto dela se apaixonar por Marcelo tendo um casamento tão feliz com Juca. Ou não seria tão feliz assim?
No dia do depoimento Lucila ligou para Juca para tirar suas últimas dúvidas. Ele sugeriu que os dois almoçassem juntos. Lucila adorou. Era um sinal de que os ressentimentos haviam realmente sumido.
Foram se encontrar em um restaurante próximo ao escritório de Lucila. Juca parecia melhor do que no dia que eles se encontraram na JAEH. Mas ainda estava bem abatido, magro e o cabelo precisava de cuidados. Ele todo precisava de cuidados. Ou melhor: de alguém para cuidar dele.
Os dois se abraçaram. Juca ainda estava visivelmente muito sensível. Lucila perguntou:
- Como você está?
Ele sorriu forçado e respondeu:
- Estou caminhando. Às vezes acho que não vou conseguir, principalmente agora sem ajuda da Manú.
Lucila arregalou os olhou. E ele continuou:
- Ela pediu pra sair da JAEH.
Lucila tinha entendido tudo. Não sabia como. Mas tinha certeza de que o que veio na sua cabeça era a verdade. Então arriscou:
- Ela é apaixonada por você, não é?
Juca se espantou. Sabia do sexto sentido feminino, mas não acreditava que fosse tão eficaz. Ou será que era tão óbvio que todos percebiam, menos ele?
Com um sorriso de sabichona, Lucila continuou:
- Quando estivemos na JAEH eu percebi uma tristeza diferente nos olhos dela. No momento achava que era pela traição de Marcelo. Mas fiquei com isso na cabeça e não estava totalmente convencida dessa teoria. Quando você disse que ela se demitiu, só podia ser por amor. Ela vivia pela empresa. Era completamente dedicada ao trabalho. Não largaria a JAEH se não fosse por algo que não tem como controlar.
Ainda espantado, mas com uma fisionomia bem mais relaxada, falou:
- É! A cabeça feminina realmente é o maior mistério da humanidade. – riu de leve e continuou – Eu jamais imaginei que Manú tivesse qualquer interesse em mim. Em algumas épocas, Bruna até tinha um pouco de ciúmes dela, mas eu achava que era somente pela proximidade necessária que tínhamos por causa dos negócios. Manú era meu braço direito e esquerdo.
Lucila concordou com a cabeça. Pensava que o coitado além de ter perdido seu patrimônio, sua esposa, agora também perdia uma importante funcionária.
Enquanto almoçaram, Juca tirou as dúvidas de Lucila e explicou que a investigação ia além da localização de Marcelo. A polícia também precisava localizar os cúmplices de Marcelo que eram o contador Dr. Antonio Carlos e a advogada Dra. Joana, que também haviam sumido depois que a bomba estourou. Os interrogatórios ao Waldemar Zacaro não levaram a polícia a nenhuma pista. E agora, ele aguardava julgamento em liberdade.
Lucila contou pra Juca que na época que ela e Rafa ainda acreditavam na inocência de Bruna, eles investigaram pra tentar descobrir o que havia motivado o sumiço dela. Explicou que eles acreditavam que a pessoa que supostamente havia enviado os documentos sobre a fraude, poderia estar envolvida. Lucila então contou que ela e Rafa já sabiam que o Dr. Antonio Carlos e Dra Joana eram as únicas pessoas, além de Juca e Manú, responsáveis pelos contratos com o governo. E que eles tinham conseguido essas informações através de um amigo de Rafa, que trabalha na JAEH.
Depois do almoço, Lucila foi até a Polícia Federal. Já tinha pedido dispensa pra Bardot, sua chefe, explicando a situação confusa que tinha se metido.
Tudo correu bem por lá. Ela até que ficou calma em seu depoimento. O que não era muito usual, pois Lucila morria medo de polícia. Mesmo sem ter absolutamente nada a dever, ela tremia toda vez que era parada numa blitz. Mas felizmente sua fobia não a atacou. Ela contou tudo, mostrou os bilhetes e a gravação. Logo depois foi liberada.
Como foi muito mais rápido do que imaginava e tinha sido liberada do trabalho a tarde toda, resolveu não desperdiçar sua tarde de folga e decidiu fazer uma surpresa para Rafa. Comprou pãezinhos de queijo e café e foi até o escritório dele o convidar para um coffe break.
Há anos não entrava naquele escritório. Muita coisa tinha mudado. Estava mais bonito, reformado e agora ocupava mais salas. Rafa tinha se dado muito bem em sua carreira. Colecionava bons clientes, que só se multiplicavam. O escritório foi fruto do rompimento de quatro advogados, entre eles, Rafa, com um famoso escritório de advocacia. Os quatro começaram com apenas um cliente que foi tão bem sucedido que virou vitrine para a conquista de novos clientes. E pelo que Lucila avaliava, desde a separação deles, os negócios prosperaram.
Lucila chegou na recepção e apesar de perceber que tinha sido reconhecida pela recepcionista, fingiu não ser quem ela pensava que ela era – “a Lucila corna” – pensou.
A recepcionista fez uma ligação e imediatamente a levou por um corredor. No caminho Lucila esbarrou com um dos sócios de Rafa. Era Gabriel. Lucila nunca morreu de amores por ele. Era um daqueles caras que faz piada de loira pra loira. Que se acha o mais machão do mundo e que adora dar a entender que tem um pinto enorme.
Mesmo tentando fingir que não o viu, ele veio falar com ela. Parou na sua frente e fez cara de “eu te conheço”. Lucila o ajudou e disse:
- Olá Gabriel. Quanto tempo, né? Eu vim dar um oi pro Rafael.
O rapaz fez cara de que tinha a reconhecido. E disparou um abraço exagerado e gritou:
- Lucilda!!!! Nossa!!!!!!!! Faz muito tempo mesmo, hein? Quer dizer que você tá de novo nadando nessas águas!!!! Ah grande Rafa!!! Garoto esperto! Não podia deixar você escapar mesmo!
Lucila pensou em corrigir seu nome, mas se isso significava ficar mais alguns minutos com aquele traste, era melhor desistir. Ela continuou andando e acenou pra ele encerrando a conversa. Quando já estava quase na sala da Rafa ainda ouviu:
- Lucilda! Grande Lucilda! AHHAHA
Respirou fundo. Ela nunca entendeu como Rafa agüentava aquela mala sem alça. Sua raiva se dissipou quando viu Rafa a esperando na porta de sua sala. Ele se virou pra recepcionista e com seu sorriso insuportavelmente lindo, disse:
- Obrigada por trazê-la. Por favor, avise que não quero ser incomodado, ok?
A recepcionista se virou e Rafa puxou Lucila com força pra dentro da sua sala. Olhou os pacotes do lanche que ela trazia, trancou a porta da sala e disse:
- Pena que vamos comer isso tudo frio.
Apesar de saber que estava fazendo o certo, a idéia de acusar sua melhor ou ex melhor amiga de cúmplice a deixava arrasada. Entendia que isso é necessário. Mas no fundo acreditava que Bruna estava iludida por Marcelo, cega de paixão. O que Lucila não entendia é porque surgiu esta brecha na vida de Bruna a ponto dela se apaixonar por Marcelo tendo um casamento tão feliz com Juca. Ou não seria tão feliz assim?
No dia do depoimento Lucila ligou para Juca para tirar suas últimas dúvidas. Ele sugeriu que os dois almoçassem juntos. Lucila adorou. Era um sinal de que os ressentimentos haviam realmente sumido.
Foram se encontrar em um restaurante próximo ao escritório de Lucila. Juca parecia melhor do que no dia que eles se encontraram na JAEH. Mas ainda estava bem abatido, magro e o cabelo precisava de cuidados. Ele todo precisava de cuidados. Ou melhor: de alguém para cuidar dele.
Os dois se abraçaram. Juca ainda estava visivelmente muito sensível. Lucila perguntou:
- Como você está?
Ele sorriu forçado e respondeu:
- Estou caminhando. Às vezes acho que não vou conseguir, principalmente agora sem ajuda da Manú.
Lucila arregalou os olhou. E ele continuou:
- Ela pediu pra sair da JAEH.
Lucila tinha entendido tudo. Não sabia como. Mas tinha certeza de que o que veio na sua cabeça era a verdade. Então arriscou:
- Ela é apaixonada por você, não é?
Juca se espantou. Sabia do sexto sentido feminino, mas não acreditava que fosse tão eficaz. Ou será que era tão óbvio que todos percebiam, menos ele?
Com um sorriso de sabichona, Lucila continuou:
- Quando estivemos na JAEH eu percebi uma tristeza diferente nos olhos dela. No momento achava que era pela traição de Marcelo. Mas fiquei com isso na cabeça e não estava totalmente convencida dessa teoria. Quando você disse que ela se demitiu, só podia ser por amor. Ela vivia pela empresa. Era completamente dedicada ao trabalho. Não largaria a JAEH se não fosse por algo que não tem como controlar.
Ainda espantado, mas com uma fisionomia bem mais relaxada, falou:
- É! A cabeça feminina realmente é o maior mistério da humanidade. – riu de leve e continuou – Eu jamais imaginei que Manú tivesse qualquer interesse em mim. Em algumas épocas, Bruna até tinha um pouco de ciúmes dela, mas eu achava que era somente pela proximidade necessária que tínhamos por causa dos negócios. Manú era meu braço direito e esquerdo.
Lucila concordou com a cabeça. Pensava que o coitado além de ter perdido seu patrimônio, sua esposa, agora também perdia uma importante funcionária.
Enquanto almoçaram, Juca tirou as dúvidas de Lucila e explicou que a investigação ia além da localização de Marcelo. A polícia também precisava localizar os cúmplices de Marcelo que eram o contador Dr. Antonio Carlos e a advogada Dra. Joana, que também haviam sumido depois que a bomba estourou. Os interrogatórios ao Waldemar Zacaro não levaram a polícia a nenhuma pista. E agora, ele aguardava julgamento em liberdade.
Lucila contou pra Juca que na época que ela e Rafa ainda acreditavam na inocência de Bruna, eles investigaram pra tentar descobrir o que havia motivado o sumiço dela. Explicou que eles acreditavam que a pessoa que supostamente havia enviado os documentos sobre a fraude, poderia estar envolvida. Lucila então contou que ela e Rafa já sabiam que o Dr. Antonio Carlos e Dra Joana eram as únicas pessoas, além de Juca e Manú, responsáveis pelos contratos com o governo. E que eles tinham conseguido essas informações através de um amigo de Rafa, que trabalha na JAEH.
Depois do almoço, Lucila foi até a Polícia Federal. Já tinha pedido dispensa pra Bardot, sua chefe, explicando a situação confusa que tinha se metido.
Tudo correu bem por lá. Ela até que ficou calma em seu depoimento. O que não era muito usual, pois Lucila morria medo de polícia. Mesmo sem ter absolutamente nada a dever, ela tremia toda vez que era parada numa blitz. Mas felizmente sua fobia não a atacou. Ela contou tudo, mostrou os bilhetes e a gravação. Logo depois foi liberada.
Como foi muito mais rápido do que imaginava e tinha sido liberada do trabalho a tarde toda, resolveu não desperdiçar sua tarde de folga e decidiu fazer uma surpresa para Rafa. Comprou pãezinhos de queijo e café e foi até o escritório dele o convidar para um coffe break.
Há anos não entrava naquele escritório. Muita coisa tinha mudado. Estava mais bonito, reformado e agora ocupava mais salas. Rafa tinha se dado muito bem em sua carreira. Colecionava bons clientes, que só se multiplicavam. O escritório foi fruto do rompimento de quatro advogados, entre eles, Rafa, com um famoso escritório de advocacia. Os quatro começaram com apenas um cliente que foi tão bem sucedido que virou vitrine para a conquista de novos clientes. E pelo que Lucila avaliava, desde a separação deles, os negócios prosperaram.
Lucila chegou na recepção e apesar de perceber que tinha sido reconhecida pela recepcionista, fingiu não ser quem ela pensava que ela era – “a Lucila corna” – pensou.
A recepcionista fez uma ligação e imediatamente a levou por um corredor. No caminho Lucila esbarrou com um dos sócios de Rafa. Era Gabriel. Lucila nunca morreu de amores por ele. Era um daqueles caras que faz piada de loira pra loira. Que se acha o mais machão do mundo e que adora dar a entender que tem um pinto enorme.
Mesmo tentando fingir que não o viu, ele veio falar com ela. Parou na sua frente e fez cara de “eu te conheço”. Lucila o ajudou e disse:
- Olá Gabriel. Quanto tempo, né? Eu vim dar um oi pro Rafael.
O rapaz fez cara de que tinha a reconhecido. E disparou um abraço exagerado e gritou:
- Lucilda!!!! Nossa!!!!!!!! Faz muito tempo mesmo, hein? Quer dizer que você tá de novo nadando nessas águas!!!! Ah grande Rafa!!! Garoto esperto! Não podia deixar você escapar mesmo!
Lucila pensou em corrigir seu nome, mas se isso significava ficar mais alguns minutos com aquele traste, era melhor desistir. Ela continuou andando e acenou pra ele encerrando a conversa. Quando já estava quase na sala da Rafa ainda ouviu:
- Lucilda! Grande Lucilda! AHHAHA
Respirou fundo. Ela nunca entendeu como Rafa agüentava aquela mala sem alça. Sua raiva se dissipou quando viu Rafa a esperando na porta de sua sala. Ele se virou pra recepcionista e com seu sorriso insuportavelmente lindo, disse:
- Obrigada por trazê-la. Por favor, avise que não quero ser incomodado, ok?
A recepcionista se virou e Rafa puxou Lucila com força pra dentro da sua sala. Olhou os pacotes do lanche que ela trazia, trancou a porta da sala e disse:
- Pena que vamos comer isso tudo frio.
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sexta-feira, 17 de abril de 2009
CAPÍTULO 27
Apesar da praia e do sol, ali não era seu lugar, sua terra. A praia era outra, o clima não era o mesmo e as pessoas eram bem diferentes. Apesar de o inglês ser a língua oficial, ela ouvia vários idiomas diferentes, como o espanhol e até o português.
Sentada em um banco, saboreava um tradicional hot dog enquanto apreciava as gaivotas que traçavam rasantes no mar. Sua vida agora era bem mais calma e muito mais luxuosa do que a de antes. Era bem mais do que ela precisava, agora era suntuosa demais: carros importados, uma mansão em frente à praia, tinham jóias, obras de arte. Não queria isso tudo. Mas se sentia feliz por ter tido coragem de seguir seu coração. E era isso que importava.
Bruna acariciava sua barriga como se já acariciasse seu filho. Tinha orgulho dele, mas temia pela infância que ele teria, tão diferente da sua. Em outro país, longe da família. Ela pensava se um dia poderia levar seu filho para conhecer uma praia bem mais bonita do que a de Miami: Ipanema. Praia onde passou sua vida inteira, comendo biscoito Globo e tomando Mate Leão de galão.
O vento começou a soprar mais forte, então resolveu voltar pra casa. Logo Marcelo iria pra casa e os dois haviam combinado um cinema. Pensando nisso, Bruna esqueceu-se do medo sobre o futuro. Marcelo era tudo que ela queria. E apesar da situação diferente em que se encontravam, Bruna acreditava que ele havia se arrependido e que com o rompimento com seu pai, Waldemar Zacaro, ele não teria recaídas.
Bruna não questionava as atitudes de Marcelo e a contradição que existia entre o arrependimento e o luxo. Estava cega de amor e só via coisas boas a sua frente.
Ela entrou no seu Lexus onde o motorista a esperava na Ocean Drive. Seguiram para um dos gigantescos condomínios na Collins Avenue. Era uma mansão de cinema. Colunas gregas na entrada, jardim, piscina. Com 11 quartos, Bruna não dava conta de percorrer toda a casa. Para cuidar deste palácio, contava com um exército de empregados, todos latinos, que na realidade eram sua maior companhia. Cada um tinha uma história mais fantástica que a outra. Tinha mais afinidade com Consuelo, uma cubana que fez a travessia dentro de um galão de gasolina e agora tentava a vida em Miami.
Bruna e Consuelo estavam se tornando muito próximas. Consuelo vibrava com a gravidez da patroa, talvez por lembra - lá de seus dois filhos, que deixou pra trás. As duas tinham a mesma idade, apesar de terem tido vidas muito diferentes. Mas também tinham em comum o fato de terem abandonado uma vida para começar outra.
Marcelo ainda não tinha chegado. Ele agora cuidava de seus novos negócios em Miami. Junto com um sócio mexicano, investia no mercado de turismo. Bruna entendia que ele precisava se ocupar. Um homem que passou anos comandando o conselho de uma grande empresa não podia simplesmente calçar chinelos e se aposentar.
Enquanto coordenava com Consuelo o cardápio da semana, ele chegou. Como sempre, muito carinhoso com Bruna. Pediu uns minutos para se arrumar e logo partiriam para o cinema. Diante da cena, Consuelo comentou no seu melhor portunhol:
- Dona Bruna, a senhora tirou a sorte grande, viu? Homem como Dr. Marcelo está pra nascer. Se a senhora conhecesse meu falecido. Ahh! Aquele traste! De bom mesmo só me deu o Juan e Carmem.
Bruna sorriu. Acreditava que Consuelo estava certa. Era muito feliz. E se o preço para essa felicidade fosse abrir mão do passado, tudo bem.
Marcelo voltou de roupa trocada. Os dois se beijaram novamente e saíram no Cayenne, o carro preferido de Marcelo.
Enquanto estavam fora bateu na porta um casal procurando por Marcelo. Ela era bem mais velha do que ele, o que deixava dúvidas se realmente eram um casal. Consuelo informou que os dois não estavam e seguindo orientações do patrão, não os deixou entrar. O casal deixou um bilhete com Consuelo pedindo para que ela entregasse para Marcelo assim que ele voltasse.
Apesar de ser uma empregada exemplar, a curiosidade de Consuelo era seu ponto fraco. Não resistiu e leu o bilhete, com dificuldade em entender o português só compreendeu que se tratava de algo importante. O bilhete escrito pelo homem dizia:
Marcelo,
Precisamos conversar. O círculo está fechando. Estamos no Royal Palm Hotel. Procure-nos com urgência.
Abraços,
Antônio e Joana
Sentada em um banco, saboreava um tradicional hot dog enquanto apreciava as gaivotas que traçavam rasantes no mar. Sua vida agora era bem mais calma e muito mais luxuosa do que a de antes. Era bem mais do que ela precisava, agora era suntuosa demais: carros importados, uma mansão em frente à praia, tinham jóias, obras de arte. Não queria isso tudo. Mas se sentia feliz por ter tido coragem de seguir seu coração. E era isso que importava.
Bruna acariciava sua barriga como se já acariciasse seu filho. Tinha orgulho dele, mas temia pela infância que ele teria, tão diferente da sua. Em outro país, longe da família. Ela pensava se um dia poderia levar seu filho para conhecer uma praia bem mais bonita do que a de Miami: Ipanema. Praia onde passou sua vida inteira, comendo biscoito Globo e tomando Mate Leão de galão.
O vento começou a soprar mais forte, então resolveu voltar pra casa. Logo Marcelo iria pra casa e os dois haviam combinado um cinema. Pensando nisso, Bruna esqueceu-se do medo sobre o futuro. Marcelo era tudo que ela queria. E apesar da situação diferente em que se encontravam, Bruna acreditava que ele havia se arrependido e que com o rompimento com seu pai, Waldemar Zacaro, ele não teria recaídas.
Bruna não questionava as atitudes de Marcelo e a contradição que existia entre o arrependimento e o luxo. Estava cega de amor e só via coisas boas a sua frente.
Ela entrou no seu Lexus onde o motorista a esperava na Ocean Drive. Seguiram para um dos gigantescos condomínios na Collins Avenue. Era uma mansão de cinema. Colunas gregas na entrada, jardim, piscina. Com 11 quartos, Bruna não dava conta de percorrer toda a casa. Para cuidar deste palácio, contava com um exército de empregados, todos latinos, que na realidade eram sua maior companhia. Cada um tinha uma história mais fantástica que a outra. Tinha mais afinidade com Consuelo, uma cubana que fez a travessia dentro de um galão de gasolina e agora tentava a vida em Miami.
Bruna e Consuelo estavam se tornando muito próximas. Consuelo vibrava com a gravidez da patroa, talvez por lembra - lá de seus dois filhos, que deixou pra trás. As duas tinham a mesma idade, apesar de terem tido vidas muito diferentes. Mas também tinham em comum o fato de terem abandonado uma vida para começar outra.
Marcelo ainda não tinha chegado. Ele agora cuidava de seus novos negócios em Miami. Junto com um sócio mexicano, investia no mercado de turismo. Bruna entendia que ele precisava se ocupar. Um homem que passou anos comandando o conselho de uma grande empresa não podia simplesmente calçar chinelos e se aposentar.
Enquanto coordenava com Consuelo o cardápio da semana, ele chegou. Como sempre, muito carinhoso com Bruna. Pediu uns minutos para se arrumar e logo partiriam para o cinema. Diante da cena, Consuelo comentou no seu melhor portunhol:
- Dona Bruna, a senhora tirou a sorte grande, viu? Homem como Dr. Marcelo está pra nascer. Se a senhora conhecesse meu falecido. Ahh! Aquele traste! De bom mesmo só me deu o Juan e Carmem.
Bruna sorriu. Acreditava que Consuelo estava certa. Era muito feliz. E se o preço para essa felicidade fosse abrir mão do passado, tudo bem.
Marcelo voltou de roupa trocada. Os dois se beijaram novamente e saíram no Cayenne, o carro preferido de Marcelo.
Enquanto estavam fora bateu na porta um casal procurando por Marcelo. Ela era bem mais velha do que ele, o que deixava dúvidas se realmente eram um casal. Consuelo informou que os dois não estavam e seguindo orientações do patrão, não os deixou entrar. O casal deixou um bilhete com Consuelo pedindo para que ela entregasse para Marcelo assim que ele voltasse.
Apesar de ser uma empregada exemplar, a curiosidade de Consuelo era seu ponto fraco. Não resistiu e leu o bilhete, com dificuldade em entender o português só compreendeu que se tratava de algo importante. O bilhete escrito pelo homem dizia:
Marcelo,
Precisamos conversar. O círculo está fechando. Estamos no Royal Palm Hotel. Procure-nos com urgência.
Abraços,
Antônio e Joana
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