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domingo, 7 de fevereiro de 2010

LUCILA 33 NA RÁDIO ROQUETE PINTO

Pra galera que não conseguiu ouvir e pediu a postagem.

Clique
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pra ouvir minha entrevista no Programa Primeira mão sobre meu livro Lucila 33.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

CAPÍTULO 50 - THE END

Lucila dava os últimos retoques no seu visual. O vestido preto lhe garantia uma silhueta perfeita, a maquiagem bem desenhada a deixava orgulhosa de si mesma. Estava linda. Linda para o seu dia e para o seu amor.

Cadu a esperava ansioso na sala. Andava de um lado para outro. Estava nervoso e aparentemente não tinha nenhum motivo para isso.

Depois de alguns longos minutos, Lucila finalmente apareceu no corredor da sala:
- E aí? Como eu estou?

Ele não precisou fazer tipo, nem pensar em sua resposta. Aliás, depois da cara que fez, nem precisava ter dito nada. Era óbvio que estava encantado com o que via, mas mesmo assim, sua gentileza habitual o fez expressar o que via:
- Uau! Nossa!!!! Você está maravilhosa!

Lucila riu ainda mais orgulhosa. Sabia que estava bonita, mas o elogio da Cadú era muito importante, representava um novo momento na sua vida, com sua auto-estima, com sua nova idade que estava se aproximando.

Ana, André, Flávio, Marcos, Tadeu e Carla já esperavam pela aniversariante na boate reservada. Lucila havia chamado todos seus amigos. A meia-noite Lucila completaria 34 anos e este ano era diferente, ela se sentia especial e queria dividir isso com as pessoas que amava.

Pouco depois, Lucila entrou na boate radiante, foi aplaudida pelos amigos, estava pronta para curtir sua festa.

Aos poucos outros convidados foram chegando. Bardot, que surpreendeu aparecendo acompanhada de um belo rapaz. Sim, um rapaz! Ele não tinha trinta anos, mas parecia encantado com o jeito brincalhão e despojado de Bardot.

Outra surpresa da festa foi Juca que também surgiu de mãos dadas com uma exuberante mulher. Não era qualquer mulher. Com uma mini-saia e um enorme decote chamou atenção de todos no lugar. Lucila se aproximou para cumprimentá-los:
- Juca! Que surpresa! Que bom que você veio. Aliás, que bom que vocês vieram. Como você está Manú?

Manú sorriu docemente, contradizendo a sua aparência de mulher fatal.
Ainda curiosa sobre o novo casal, Lucila, que nunca teve papas-na-língua, perguntou:
- Mas, me diz uma coisa? Que novidade é essa? Vocês estão juntos?

Manú não respondeu, apenas olhou para Juca esperando uma resposta de seu amado, que prontamente respondeu:
- Existem coisas que só o tempo pode nos mostrar. Manú deixou de ser meu braço direito, passou a ser uma grande amiga e foi por esta amiga e hoje é a mulher por quem dia a dia eu me encanto mais e mais. O mundo gira, minha vida mudou e só quero acreditar que se tudo continua com seu curso, eu....aliás, nós vamos seguir o nosso curso.

Manú ria frouxo de felicidade. Finalmente tinha conseguido o que queria, estava ao lado de Juca. Agora como sua namorada. Neste momento Manú se afastou de Lucila e

Juca para cumprimentar alguém que passava. Lucila em tom de cúmplice aproveitou o momento e falou para Juca:
- Espero que esteja feliz, você merece. Sei que não devia tocar neste assunto, mas entenda como um pedido de uma aniversariante, ok? O que houve com Bruna, onde ela está?

Juca riu. E com bom humor respondeu:
- Ela está bem. Está com Jesus. Mas isso é uma história para outro dia. Vamos beber alguma coisa?

A noite corria muito bem, todos se divertiam. Ana e André dançavam, riam. Lucila reparou nos dois. Ficava em ver aquele casal tão feliz. Se juntou a eles. Ficaram muito tempo conversando, rindo, dançando. Até que Lucila olhou para o copo de Ana e exclamou:
- Coca-cola? Coca-cola normal? Não é light?

Ana riu. André ficou nervoso. E Lucila disparou com a intimidade de uma melhor amiga:
- Você está grávida!

Ana corou. Sabia que daria bandeira em rejeitar sua cervejinha habitual. Não tinha como negar. Estava grávida! Os três se abraçaram e Ana disse:
- Já que é um dia especial, saiba que você acaba de ganhar um afilhado!

Lucila se emocionou.

O que mais de bom poderia acontecer? A noite estava divina. Lucila e Cadú se completavam, apesar do evidente nervosismo que ele demonstrava. Ele estava inquieto, acanhado, nervoso. Mas podia ser pelo pouco tempo de namoro e a conseqüente falta de intimidade com a maioria dos convidados.

A meia-noite o DJ anunciou uma pausa para os parabéns. Cadu se juntou a ela perto do bolo. A luzes se acenderam e todos começaram a cantar. Pose para fotos. E entre um flash e outro Lucila achou ter visto Rafa. Mas não fazia nenhum sentido e a alegria do momento a fez dispersar.

Lucila entregou orgulhosa o primeiro pedaço de bolo ao seu namorado. A festa prosseguiu até altas horas.

Como era a anfitriã, Lucila foi a última a ir embora. Ela e Cadú já estavam mortos jogados nos sofás da boate, acompanhando os garçons em sua arrumação frenética. Cadeiras sobre as mesas, vassouras. Era hora de ir.

Lucila foi ao banheiro, antes do casal partir. Cadú ficou sentando a esperando. Foi quando alguém bateu em seu ombro:
- E aí bonitão? Aproveitou a festa?

- Você de novo? Não basta encher o eu saco me ligando o dia inteiro, querendo me intimidar. Você é muito cara-de-pau de vir a uma festa que não foi convidado.

- Tem certeza de que não fui? Não tem, não é?

Lucila voltou do banheiro e não acreditou na cena que via. Cadu discutia com... Rafa! Não tinha sido uma alucinação. Ele estava mesmo lá. Ela correu em direção aos dois que estavam a um passo de trocar socos.
- O que está acontecendo? O que vocês estão fazendo?

Rafa sorriu, como se nada tivesse acontecido. Se aproximou de Lucila, pegou sua mão e com a voz melada disse:
- Parabéns meu amor. Você está linda.

Lucila puxou a mão atordoada. Olhou para Cadu que estava vermelho de raiva e agora furioso perguntava:
- Lucila! Você convidou este canalha?

Antes que Lucila pudesse responder, irônico, Rafa disse para Cadú:
- Ah... você achava mesmo que eu não viria? Meu amigo, você acabou de chegar. E eu? Eu faço parte da vida de Lucila há muito tempo. Não existe a possibilidade de eu não estar na sua festa de aniversário. Entendeu?

Lucila estava tonta. Não entendia o que Rafa estava fazendo ali. Estava magoada com o jeito que Cadu se dirigiu a ela. Decidiu sair e deixar os dois pra trás. Saiu correndo em direção a porta.

Cadu foi atrás gritando seu nome. Lucila se irritou:
- Me deixa em paz. Eu cansada. Chega dessa confusão!

Batendo a porta do táxi, foi embora.

Foi chorando até sua casa. Não sabia direito por que. Não era por Rafa, nem por Cadú. Era por ela. Vivia tão em função dos homens ou a procura deles, que às vezes se esquecia dela mesma. Dos seus gostos, dos seus desejos.
- O que eu realmente quero para mim? – pensou em voz alta, despertando a curiosidade do motorista.

Ela queria um trabalho legal, ela tinha. Um apartamento confortável, ela tinha. Talvez não tivesse todas as roupas de que gostaria, mas certamente tinha os melhores amigos. E tinha Cadú, com quem não precisava fingir ser outra pessoa. Não existiam expectativas, nem cobranças, era bom. Mas até onde iria? Até onde Lucila queria ir?

Entrando em casa, foi direto para a cama. Se atirou sem mesmo tirar a roupa. Sentiu que tinha deitado em cima de alguma coisa. Era uma caixa. Uma caixa de jóia em feltro preto. Lucila abriu e eram duas alianças douradas. Sentiu um calafrio.

A campainha tocou, ela saiu em disparada. Só podia ser Cadú que correu para a ver abrir seu presente e para a pedir em casamento. Lucila abriu a porta afoita, com a caixa na mão.
- Oi Lú. Humm estou vendo que achou meu presentinho. Pelo seu sorriso, entendo que isso é um sim.

Ele se aproximou dela. Lucila sem pensar reagiu aos seus instintos e lhe deu um tapa na cara.
- O que você acha que eu sou, hein, Rafa? Acha que eu vou amolecer por causa dessa porcaria? Quem te deu permissão pra entrar na minha casa! Toma isso e vai embora. Você já arruinou demais minha vida, não vai estragar meu aniversário.

Batendo a porta na cara do ex-namorado, Lucila correu para ligar para Cadú.
- Onde você está?

- Estou aqui embaixo. Acabei de ver um pilantra saindo do prédio com cinco dedos estampados na cara. Você tem idéia do que seja isso?

Os dois riram. Cadú subiu.

Não foi naquela noite que Cadú a pediu em casamento, e na verdade, nem ela sabia quando seria. Mas estavam felizes, se completavam, se entendiam.
Lucila teve certeza de que era aquilo que ela queria para sua vida. A forma como o relacionamento aconteceria, se seria um namoro, um casamento, morar juntos ... isso agora não era a questão. Ela tinha o mais importante: o amor da sua vida.


FIM

terça-feira, 23 de junho de 2009

CAPÍTULO 48

Bruna entrou no apartamento e sentiu algo que há muito tempo não sentia: se sentia em casa. Nem no apartamento de Marcelo ou na mansão em Miami conseguia ficar tão a vontade como estava agora. Aquela era sua casa. Ou tinha sido. Lá havia passado ótimos momentos. Momentos com Juca, com ela mesma, com os amigos.

Amigos. Não tinha mais amigos, não tinha coragem nem de tentar reconquistá-los. Traíra a confiança de suas melhores amigas. Usou Lucila, sabia disso.
No momento em que tudo aconteceu, não percebia o tamanho da sua própria traição. Não percebeu como foi baixa, dissimulada, cruel. Agora tinha vergonha de si mesma e aceitava estar sozinha sob pena de seus próprios erros.

Sentou-se na beirada da cama. Apesar de sentir em casa, não se sentia livre para se esparramar naquela cama. Voltou pra sala, onde as lembranças eram mais amenas. Pegou um porta-retrato com uma foto de seu casamento. Ela e Juca lindos, felizes, olhos brilhantes, caras rosadas, cheios de amor. “- Acabou” – pensou em sua certeza.

Estava cansada e com fome. Resolveu tomar um banho e preparar algo para comer. Ainda enrolada na toalha, foi até a cozinha ver o que encontrava. Encontrou Juca. Sentando na mesa, cabeça baixa, parecia não saber direito que estava fazendo. E não sabia.

Bruna se assustou, mas logo ficou calma. A presença de Juca lhe dava muita paz. Como se eles tivessem voltado ao passado, Bruna caminhou tranqüilamente até a dispensa e perguntou:
- Está com fome?

Juca entrou no mesmo clima. Sacudiu a cabeça dizendo que sim. E os dois juntos, sem explicarem nada, começaram a preparar o almoço. Conversaram amenidades, riram, arrumaram a mesa. Comeram juntos com uma conversa gostosa, sem pretensões. Nenhum dos dois sabia como e porque isso acontecia, mas deixaram fluir. Juca que não tinha certeza de como tinha ido parar ali, agora tirava os sapatos. Estava em sua casa, com alguém que se parecia com sua esposa. Não houve carícias de casal. Na verdade nem se tocaram. Apenas conversaram e também dividiram o mesmo silêncio. Ficaram a tarde juntos e a noite também. Dormiram no sofá da sala com a TV ligada. Era tudo muito tranqüilo, muito normal. Parecia que nada havia mudado.

No dia seguinte, os dois seguiram sua rotina, ignorando os últimos meses. Bruna tentou por algumas vezes falar com Juca sobre o que estava acontecendo. Ele sempre mudava de assunto. Quando estava pronto para ir para a JAEH, Bruna insistiu mais uma vez:
- Juca, não podemos fingir que nada aconteceu. Precisamos conversar.

Juca se irritou, respondeu ríspido:
- Quem foi o lesado da situação fui eu não foi? Então eu decido quando quero conversar, Bruna.

Bruna também gritou:
- Eu te fiz mal. Muito mal. O maior mal que eu poderia de fazer, eu sei disso! Mas eu também sofri, também levei meu troco. Me apaixonei por um canalha, perdi um filho, perdi meus amigos, minhas referências, minha ética. Agora estou aqui recebendo seu carinho. Um carinho de que preciso, mas sei que não mereço. Sinto o mesmo amor por você que sentia há meses, mas ele tem marcas, tem cicatrizes. Você sabe disso e não podemos fingir que nada aconteceu. Como você vai passar por cima de tudo que eu te fiz passar?

Juca se sentou novamente, largou sua pasta. Começou a chorar. Sabia que Bruna estava certa. Podia fingir que nada aconteceu apenas por alguns dias. Certamente em algum momento, alguma palavra, algum gesto, alguma coisa o lembraria de Marcelo, dos dois juntos, da dor. Ele amava Bruna, mas não conseguia perdoá-la.

Bruna interpretava o choro de Juca:
- Você não me perdoou, não é? Eu sei. Eu entendo e acho que também não conseguiria passar por cima de tudo. Eu quero voltar a nossa vida. Quero muito! Mais do que tudo! Mas não posso! A culpa, o sentimento de remorso e a falta do seu perdão, não vão nos permitir sermos felizes de novo.

Juca desabou, mas soluçando falou:
- Eu não entendo. O que aconteceu? Porque você fez isso comigo? Eu sei que não merecia. Éramos felizes, não éramos?

- Éramos muito felizes, Juca. Não me faltava nada, nem material, nem amor, nem nada. Nunca esperei que nosso casamento fosse uma eterna história romântica, sabia que um dia as coisas iam esfriar. Estava pronta pra isso, teria seu companheirismo, sua amizade e nosso amor. Já seria suficiente. Mas me enganei. Quando vi a possibilidade de transbordar novamente romantismo e paixão em minha vida, não resisti. Marcelo apareceu, se mostrou mais presente, mais apaixonado, mais disponível. Eu me encantei por ele. Fui manipulada em meu romantismo.

Juca nunca imaginou compreender Bruna. Mas compreendeu. A conhecia tão bem, que sabia o quanto era romântica, o quanto precisava disso. Foi assim que a conquistou, com o mais puro romantismo. Entendia o que havia acontecido, se culpava por ter deixado acontecer, mas também sabia que o casamento chegaria a ter dias mais amenos e também não achava isso ruim. Se perguntava se perdoaria Bruna algum dia. Se conseguiria confiar nela novamente.

Os dois ficaram um tempo em silêncio. Não havia mais nada pra ser dito. Juca reafirmou que o apartamento seria dela. Ele voltaria a seu flat.

Antes de sair, Juca a olhou pra Bruna com ternura. Bruna retribuiu e disse:
- Quando quiser, se quiser, como quiser. Podemos tentar.
Juca balançou a cabeça e saiu.

Nos dias que seguiram, eles se falavam por telefone. Depois começaram a almoçar juntos em um ou outro restaurante. Foram ao cinema. Eram bons amigos.



Na Bahia outro casal também adormeceu junto. Mas dormiram exaustos, cansados de se sentirem felizes, de se amarem. Lucila recuperou suas forças e também as extinguiu nos braços de Cadu. Os dois não conversaram, não acertaram os pontos. Não houve DR*, apenas seguiram seus instintos, exatamente como na primeira noite que ficaram juntos.

O dia acordou ensolarado, como se espera de um dia na Bahia. Os dois se olharam amassados, riram com a intimidade de quem nunca acordou junto. Se abraçaram, se beijaram e se amaram novamente. Lucila em alguns momentos achava que ia acordar, que tudo não passava de um sonho.

No seu íntimo confundia Cadú com outra pessoa. Não sabia direito quem ele era. Mas o Cadú piadista, às vezes sem graça, descombinado, largado não era o mesmo Cadu que a puxava pelos cabelos, que a beijava com delicadeza. Era difícil entender que eles eram um só. Lucila sabia, em sua experiência, que entre quatro paredes as pessoas se revelam novas pessoas. Mas também conhecia o Cadú que a consolou no calçadão de Copacabana, que foi seu amigo. O Cadú companheiro de trabalho, inteligente, esperto, ativo e que duplava com ela como ninguém. Todos esses “cadus” eram aquele homem que estava ao seu lado agora. Não era um príncipe encantado, não era perfeito, nem lindo, nem o melhor amante do mundo. Era o homem que ela queria agora. Pra agora e pra sempre. Ou para quanto o sempre durasse.


* discutir a relação

segunda-feira, 15 de junho de 2009

CAPÍTULO 45

De roupa nova e já pronta, Lucila esperava pela ligação de Cadu. Eram amigos, então é claro, ele não iria a buscar em casa. Não era um encontro romântico! Era apenas um jantar de bons amigos.

Cadu ligou dizendo que já estava indo para o restaurante. Lucila saiu de casa logo depois. Os dois chegaram na mesma hora. Cadu elogiou Lucila, que retribuiu o elogio. E não era mentira. Cadu estava mesmo bonito. Claro, que de novo vestia uma calça jeans e uma camiseta branca, seguindo outra vez o conselho de Lucila. Mas estava com um novo ar, algo diferente que nem Lucila conseguia identificar o que era.

Os dois pareciam se conhecer há muito tempo. Ambos falaram de suas vidas com muita tranqüilidade. Até as piadinhas de Cadu não atrapalhavam a conversa. Os dois conversaram a noite inteira e por fim Cadu perguntou a Lucila:
- Então amanhã você vai conversar com Rafa?

- Vou. Não sei como, mas não estou nervosa. E pra falar a verdade, nem sei o que vou dizer.

- Seja sincera. Conte a ele o que você está sentindo.

- É eu farei isso. Acho que nossa relação recomeçará muito mais forte se eu for sincera com ele como ele foi comigo.


Cadu engasgou:
- Recomeçará? Eu entendi que você tinha descoberto que não gostava mais dele.

- É, mas eu acho que eu e Rafa merecemos tentar. São muitos anos, muita história. Você acha que eu estou errada?


- Não. Se é o que você quer...


Cadu saiu do jantar menos animado. Não tinha percebido o quanto a idéia de Lucila continuar seu namoro tinha o abatido. Mas ao mesmo tempo estava feliz em ter tido uma noite tão agradável. Lucila era um delicioso presente. Uma mulher incrível. Uma excelente amiga. Ficaria feliz a vendo feliz. Ela merecia.

Mesmo descumprindo o combinado, Rafa ligou pra Lucila quando ela chegava em casa.
- Oi amor. Eu sei que não era pra eu ligar, mas estou com saudade.

- Tudo bem Rafa. Já estou chegando em casa. Amanhã nos vemos, certo?

- Não pode ser agora?


Quando Lucila saiu do carro viu Rafa parado na garagem. Trazia um buquê de rosas vermelhas. Lucila agradeceu. Tinha gostado da surpresa. Mas há poucos dias, teria se sentido a mulher mais feliz do mundo. Agora, ela apenas tinha gostado.

Os dois subiram. Lucila não queria transar com Rafa antes de conversarem. Queria ser honesta, abrir o jogo. Disfarçou pegando um copo de água na cozinha enquanto pensava no que fazer. Rafa se aproximou, bem mais tímido do que usual. Lucila o parou:
- Rafa, calma. Na verdade, eu não pretendia te ver hoje. Eu queria conversar com você amanhã, mas também não acho justo ficar fazendo mistério.

Os dois se sentaram na mesa da cozinha. Lucila não se lembrava de estar tão calma sobre um assunto tão sério, em anos. Rafa estava tenso. Mas Lucila conduziu como se falasse com uma criança. Falou por muito tempo sem nenhuma interrupção do namorado:

- Rafa, acho que não preciso te dizer que desde que me entendo por gente fui apaixonada por você. No nosso primeiro namoro éramos muito novos, vinte anos. Por quase todo o tempo não percebia nada de errado em nosso namoro, até que amadureci. Então percebi que nem tudo era tão bonito quanto parecia. Tentamos, nos separamos, voltamos. Acreditei que você tivesse amadurecido até que no casamento de Bruna...bom, você sabe. Achei que não podia mais me submeter a um relacionamento onde não havia confiança, sinceridade. Até que por causa da confusão de Bruna, nos reencontramos.E apesar do seu deslize, acho que acertamos a mão. Aliás, você acertou. Fez a coisa certa, foi sincero. E eu me senti dona da situação, sentia orgulho em te ver tão, tão... tão meu. Meu como nunca senti que fosse. Por sorte, percebi a tempo que estava sendo uma babaca contigo. Dominando você, usando o sentimento que você teve coragem de me mostrar. Mas junto com isso também percebi que meu sentimento por você não era mais o mesmo. Não é mais o mesmo.

- Lú, a gente se ama.

- Não sei, Rafa. Acho que não. Mas, não estou aqui pra terminar com você. Eu quero que dê certo. Quero me apaixonar de novo por você. Tenho certeza de que com a maturidade que você agora tem, vai dar certo, você vai ver.


Lucila não tinha esta certeza, mas não sabia como continuar aquela conversa. Então abraçou Rafa, que ainda atordoado com tudo que tinha ouvido, mal correspondeu. Os dois apenas dormiram juntos, abraçados.


Alguns dias se passaram e a rotina dos dois era sempre a mesma. Se encontravam depois do trabalho, às vezes jantavam fora, outras iam ao cinema. Rafa nitidamente se empenhava para reconquistar a namorada e Lucila também fazia o que podia pra sentir aquela paixão, que agora teimava em se esconder.

O trabalho no escritório seguia bem. Lucila e Cadu se encontravam com freqüência e os dois faziam uma bela dupla. Cadu não perguntava mais sobre o relacionamento de Lucila. O que era ótimo, pois ela também não tinha vontade de falar. Era como se Cadu e Lucila retrocedessem em sua amizade e tivessem voltado a ser apenas bons colegas de trabalho.

Na inauguração da casa de Itaipava, o cliente decidiu oferecer uma festa na própria casa para seus amigos e claro, para a equipe envolvida. Lucila, Cadu e Bardot eram os convidados de honra. Os três reservaram uma pousada e foram juntos para Itaipava.

Como era esperado, a festa estava deslumbrante. Lucila e Cadu estavam muito orgulhosos de seu trabalho. Beberam, dançaram, comemoraram. Talvez por conta da bebida voltaram a se tratar como aqueles amigos que jantaram juntos numa noite. Lucila ria das piadas sem graça de Cadu e mais uma vez achava ele bastante atraente.

Em momento da noite, Bardot se aproximou de Lucila e disse:
- Lucila, Lucila! Há tempo não te vejo tão brilhante, hein? Sabia que você e Cadu fazem um belo casal? Uma dupla do barulho! No trabalho, no amor....

- Que isso, Bardot! Imagina! Somos só amigos e eu tenho namorado, você sabe.

- Sei, sei. O famoso Rafa. Tá feliz?


Lucila não respondeu. Cadu chegou em seguida e a puxou pra dançar. Primeiro Lucila tentou escapar, mas depois, embalada pela música, se deixou levar.

Já eram altas horas da madrugada. Bardot já tinha ido embora. Cadu e Lucila estavam cansados e resolveram ir para a pousada. No caminho conversavam sem parar, nem eles entendiam como podiam ter tanto assunto e ser sempre tão bom. Quando chegaram na pousada, cada um foi para seu quarto. Lucila não sabia bem porque, mas achou melhor se despedir de longe.

Lucila entrou em seu quarto e ficou relembrando os bons momentos da sua noite. Alguém bateu na porta. Lucila abriu. Era Cadu que a puxou e lhe deu um beijo na boca. O beijo era meio desajeitado, molhado demais, mas Lucila não se importou.

Os dois se entregaram ao tesão. Um tesão completamente inesperado, imprevisível. Cadu era cuidadoso, romântico, atencioso. Não era um furacão como Rafa, mas era doce, meigo e tinha sua pegada. Eles se entrosaram tão bem na cama como nas conversas.

Quando terminaram, Cadu olhou Lucila nos olhos e disse:
- Você é uma mulher apaixonante.

Lucila respondeu:
- Você também.

terça-feira, 9 de junho de 2009

CAPÍTULO 44

Lucila não dormiu. Não parava de pensar nas palavras de Ana. Revia seu comportamento desde o jantar com Rafa, o dia em que ouviu dele próprio que tinha sido infiel. Nem ela sabia como havia lidado com tudo isso. Era um estranho sentimento. Em todos os seus namoros com Rafa, sempre o forçou a dizer a verdade e nunca conseguiu. E agora que sabia a verdade, não soube lidar com ela. Ao contrário Lucila suprimiu a infidelidade e apenas enxergou um Rafa submisso, humilde, desesperado pelo seu amor. Era louco isso tudo. No que ela havia se tornado? E o pior: no que o sentimento que ela tinha por Rafa havia se transformado?

“Nada” – pensou. Ela não sentia nada. Apenas orgulho, orgulho de vê-lo passar pelo que ele sempre a fez passar. Será que todo o amor que ela sempre achou ter por se resumia a um simples desejo de vingança?

Que mulher nunca sonhou em ver o ex namorado suplicando pelo seu amor e ter o gostinho de dizer um redondo não? Seria nisso que toda aquela paixão de uma vida inteira teria se transformado? Rafa só seria atraente se fosse um desafio?

Lucila rolou na cama até o dia amanhecer. Desistiu de dormir e se levantou. Era pouco mais de seis horas e Lucila decidiu ir caminhar na praia. Colocou seu tênis, um short e se foi. Copacabana já estava movimentada. Diversos velhinhos faziam seus exercícios matutinos. Lucila os acompanhava.

Enquanto caminhava achou que alguém tinha gritado seu nome. Não podia ser. Não aquela hora da manhã. Mas não era impressão. Um homem acenava. Lucila não enxergava quem era, estava contra o sol. Lucila espremeu os olhos e o reconheceu. Era Cadu que corria na orla. Ele veio em sua direção e Lucila não pode deixar de reparar no belo corpo do rapaz. Ela nunca imaginaria que por baixo daquelas roupas maltrapilhas e descombinadas pudesse ter um homem tão, tão...gostoso.

Cadu chegou perto de Lucila. Estava suado, seu cabelo como sempre despenteado, agora combinava com seu visual de atleta. Ele observou Lucila, como se surpreendesse com sua aparência.
- Oi Lú. Não sabia que você também gostava de acordar cedo.

Lucila sorriu. Tentou disfarçar, mas sabia que seria em vão. A ressaca física e moral da noite anterior estavam estampadas no seu rosto. Sem rodeios, Cadu disse:
- Não dormiu não é?

Lucila sacudiu a cabeça afirmativamente. Cadu a levou para um banco próximo onde os dois se sentaram. Ele a olhou com carinho como se quisesse saber dizer a frase perfeita para animá-la. Não sabia. Então, arriscou ser sincero:
- Desculpe me intrometer. Mas eu ontem percebi algo estranho em você. Sei que não nos conhecemos muito bem, mas você estava... diferente.

- É eu sei. Estava insuportável, não é?

Cadu não respondeu. E o ditado “quem cala consente” nunca foi tão apropriado. Ele tentou ajudar:
- Às vezes temos maus momentos. Acontece com todo mundo.

Lucila exausta e com a sensibilidade a flor da pele, começou a chorar. Entre seus soluços falou:
- Eu passei os últimos anos da minha vida procurando um grande amor. Sempre desconfiei que já tinha achado e que por circunstâncias da vida, eu tive que me afastar. Agora finalmente estávamos novamente juntos e eu consegui o que sempre queria de Rafa: sua sinceridade. Sinto que finalmente Rafa sente por mim o que eu sempre desejei que ele sentisse. Mas...

Lucila voltou a soluçar como uma criança. Cadu, meio desajeitado a abraçou. Apesar do suor no seu corpo, Lucila se aconchegou em seu peito. Precisava de um ombro amigo. Entre soluços continuou:
- Cadu, eu não sei. Mas eu acho que tudo que eu sentia por Rafa era uma ilusão. Fazia parte da minha imaginação.

Cadu a abraçou novamente, tirou o cabelo do seu rosto e a afagou como uma criança.

Lucila se sentia perdida. Não entendia toda aquela confusão de sentimentos. Mas a verdade era que Lucila caía na real: Rafa era muito mais interessante quando era um desafio. Vê-lo aos seus pés a fez perder todo o encanto. Conseguia entender o peso da traição de uma forma completamente racional. Via tudo com uma clareza impossível de existir no coração de uma mulher apaixonada.

Como se adivinhasse o que se passava na cabeça da amiga, Cadu disse:
- Tem vezes que nós buscamos fantasias para nos sentirmos vivos. Foi o que aconteceu em meu último relacionamento. Ignorei todos os sinais que ela me deu de que a relação não ia a diante. Cismei como um louco de seguir em frente, me forçando a acreditar que eu estava apaixonado e o pior: que era correspondido. Foi muito difícil pra mim admitir que me enganei, que me sabotei gratuitamente. Não se culpe, não se exija além do que você pode ir. A carência não é apenas uma palavra cafona e pejorativa, ela perigosa, mexe com os olhos, os ouvidos e com o coração da gente.

Lucila não imaginava que logo Cadu, que conhecia há poucos dias, pudesse ser tão incrivelmente sensível ao perceber o que se passava com ela. Cadu continuou com sua fala macia:
- Nós não somos mais crianças. Nossos amigos estão casando, alguns até se separando. Outros tem filhos e a sociedade, nossa família e até estes mesmos amigos começam a nos ver como vítimas, como os infelizes solteiros. E nós vestimos esta carapuça. Nos comportamos de forma irracional pra conseguir.... pra conseguir um amor.

Lucila sorriu. Era sua história, era descrição sincera dos seus sentimentos. Cadu se levantou e foi até o quiosque da praia. Lucila o observava de longe. Ainda estava absorvida pelas palavras de Cadu. Era como se ele conseguisse a ver por dentro. Já se sentia melhor e acreditava que não tinha mais que carregar nenhum peso por sentir o que sentia. Estava mais leve.

Cadu voltou trazendo duas águas de coco. Foram muito bem-vindas, já que Lucila não colocava nada no estômago desde a noite anterior. Os dois tomaram os cocos em silêncio. Quando acabou Cadu disse:
- Que tal marcarmos uma reunião em meu escritório durante a manhã?

Lucila não entendeu. Ele estava mesmo virando a chave e falando de trabalho e ainda mais marcando uma reunião com ela, que não tinha pregado o olho a noite inteira, pra daqui há algumas horas?

Cadu riu diante da cara de espanto de Lucila e continuou:
- Você liga pra Bardot, sua chefe, e diz que tem uma reunião comigo até o almoço. Que tal? Assim, você descansa e recupera o sono de que você precisa.

- Ahhh. Você me assustou. É eu acho que uma mentirinha não faz mal, né? Além do mais eu não seria capaz de fazer nada do jeito que estou.

- Então tá combinado! Descanse e se você estiver melhor, à noite podemos sair pra espairecer. Acho que nós como solteiros carentes assumidos merecemos um pouco de diversão, não é?

Lucila rindo concordou. E fez como combinado. Foi pra casa e dormiu algumas horas. Foi o que precisava pra se recuperar. Quando acordou, tinham duas ligações de Rafa. Não queria resolver nada sobre Rafa ainda, mas também não queria ser ainda mais filha da mãe com ele. Então ligou de volta:
- Oi Rafa. Desculpa não ter te atendido antes.
- Tudo bem meu amor. Como você está?
- Estou bem. Mas preciso te pedir uma coisa.
- Qualquer coisa, Lú.
- Preciso de um tempo pra mim, não quero mais agir de forma tão idiota. Sei que você vai dizer que não, mas eu sei. Então, me dê até amanhã, ok? Eu combinei um jantar hoje com uma pessoa amiga. Preciso disso. E prometo que amanhã nós vamos nos sentar e colocar tudo no lugar está bem?
- Mas o que aconteceu? Aconteceu alguma coisa? Eu fiz algo de errado? Me desculpe eu não queria...


Lucila o interrompeu. A humilhação que Rafa se permitia, agora a machucava. Se sentia ainda mais horrível.
- Rafa, você não fez nada. Por favor. Não faça isso. Eu só quero um dia pra mim, ok?

Rafa não se conformou, mas com o pavor que agora sentia em magoar e perder Lucila, nem ele entendia a forma como agia. Nunca tinha se sentido tão frágil, tão fora do controle e parecia que pela primeira vez sentia algo parecido com ciúme.

Lucila trabalhou tranqüila durante a tarde. Antes de ir pra casa parou no shopping com a desculpa de que comprar a deixaria melhor, mas na verdade queria vestir algo novo no jantar com Cadu.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

CAPÍTULO 43

Estava quase tudo acertado com a Polícia Especial de Miami. Faltava apenas um retorno sobre os filhos de Consuelo. O advogado não tinha muitas esperanças sobre isso. Sabia que os EUA não poderiam abrir um precedente como este.

Consuelo estava assustada. Acompanhada por Juca se sentia um pouco mais segura, mas sabia que ele não poderia ficar todo o tempo ao seu lado e isso a deixava apavorada. Sabia de histórias de outros latinos com a polícia e o desfecho nem sempre era bom. Mesmo assim, sabia que precisava arriscar. Por Bruna e por ela mesma.

Juca pediu para que se acalmasse e contasse tudo como tinha feito pra ele, sem medo que tudo daria certo. Consuelo entrou acompanhada de seu advogado de Bruna, que agora também era seu advogado.

Juca ficou aguardando do lado de fora. Sabia que todos os depoimentos já haviam sido colhidos, inclusive o de Bruna, que agora apenas aguardava sua extradição para o Brasil, que seria no dia seguinte. Assim, ela seria julgada em seu país, pelas leis brasileiras. Juca tinha marcado sua passagem para o dia seguinte. Depois do depoimento de Consuelo e sua legalização, não teria mais no que ser útil. Além disso, precisava voltar para a JAEH. Desde que Manú se demitira não tinha ninguém a quem pudesse confiar sua empresa.

O depoimento durou pouco mais de uma hora. Primeiro saiu o advogado. Ele fazia um sinal de positivo. Logo depois Consuelo. Logo que viu Juca, correu em sua direção:
- Seu Juca! Seu Juca! Eles vão me dar o Green Card! E meus filhos poderão vir daqui há dois anos! O senhor acredita?

A alegria de Consuelo era enorme. Juca não entendia como podia ser bom ter que esperar dois longos anos para ter seus filhos. Mas para uma mulher que não sabia se os veria novamente, realmente isso era uma grande vitória.

Juca e o advogado foram buscar as últimas informações sobre o caso com o agente brasileiro. Ele informou que se o crime de assassinato se comprovasse dificilmente Marcelo conseguiria ser safar. Sobre a extradição, talvez acontecesse por Marcelo estar respondendo a outro crime no Brasil, era a fraude da JAEH.

O advogado ainda explicou mais alguns trâmites. Depois de ficar a par de tudo, Juca fez um último pedido. Queria ver Bruna antes de partir para o Brasil. Sabia que lá seria mais difícil para ele estar com ela. O agente da PF mais uma vez deixou claro que não entendia e muito menos concordava com todo o cuidado que Juca tinha com ela, mas deu um jeitinho brasileiro e conseguiu a visita.

Bruna estava de pé olhando para a pequena janela. Não havia vista, apenas um pedacinho de céu, que Bruna agora admirava. Desde que capturaram Marcelo ela só recebia visita de seu advogado e apesar da curiosidade, se continha em perguntar sobre Juca. Como já haviam se passado alguns dias, Bruna imaginava que Juca já tivesse retornado ao Brasil. Sua surpresa foi enorme quando ouviu sua voz:
- Bruna?

- Juca? Nossa que bom te ver! Achei... achei que você já tinha voltado pro Brasil.


O guarda abriu a porta da cela e Juca entrou. Bruna que desde seu confronto com Marcelo rezava por essa visita, não se conteve e o abraçou. Juca ficou desconfortável. Ele queria corresponder, mas não podia. Se manteve duro, braços arriados ao lado do corpo. Bruna percebeu que não foi correspondida e disse:
- Desculpe. Me desculpe, eu não devia. Mas desde que eu vi o Marcelo. Aquele cachorro! Eu me sinto completamente sozinha e só você, só você que...

Bruna parou de falar. Se sentou na beira da cama e apoiou a cabeça com as mãos por um tempo e repetiu:
- Juca, me desculpe. Eu só tenho que te agradecer por tudo que tem feito por mim, mesmo eu não merecendo. Obrigada.

No seu íntimo Juca concordou. Mas se sentia frágil diante de Bruna. Pensou em falar alguma coisa, mas Bruna foi mais rápida. Ela contou sobre o rápido encontro com Marcelo, que agora não estava mais naquela delegacia. Contou sobre o que pensou, o que sentia e reforçou:
- Eu quero te ajudar. Vamos colocar ele atrás das grades. Eu vou te ajudar a recuperar tudo. Eu prometo.

Definitivamente Bruna voltava a ser a mulher por quem Juca havia se apaixonado. Decidida, forte, mas com uma aparência frágil, feminina, linda. Pensava que nada do que Bruna queria ajudá-lo a recuperar era realmente importante. O maior bem que ele tinha perdido estava ali na sua frente.

Interrompidos pelo guarda que avisou que o tempo de visita havia acabado, Juca se apressou em contar que também voltaria para o Brasil no dia seguinte e que provavelmente os dois só se veriam sob juízo. Bruna concordou. O advogado já a havia informado de como seria sua volta.

Os dois se despediram de longe e Juca saiu da visão de Bruna.

Bruna chorou.

domingo, 7 de junho de 2009

CAPÍTULO 42

Até Rafa, que não tinha nenhum tipo de pudor quando o assunto era sexo, se impressionou com a postura de Lucila na cama. Depois de arrancar as roupas de Rafa, Lucila se mostrou bem mais atrevida do que o normal. Era dona da situação, estava no comando e isso aumentava ainda mais seu tesão. Rafa, apesar de um pouco assustado, não podia negar que era uma maravilhosa surpresa ver sua namorada tão sexy e segura de si. Mas de alguma foram isso mexia com seu brios de homem acostumado ao comando.

Foi uma noite intensa, que acabou com os dois extasiados na cama. Rafa ainda não entendia muito bem tudo que acontecia, mas sabia que o melhor era deixar levar.
Lucila se levantou, colou um hobby e antes de entrar no banheiro falou para o namorado:
- Meu amor, melhor você ir. Já é tarde e amanhã tenho que acordar cedo. Preciso dormir bem, tenho uma importante reunião logo cedo.

- Melhor eu ir? Ir pra casa?

- Isso.

Lucila entrou no banheiro e Rafa confuso começou a catar suas roupas pela casa. Não entendia porque tinha que ir embora. Eles sempre dormiam juntos. Mas estava em desvantagem, então obedeceu.

Ela o levou até a porta, se despediram com um beijo quente. Lucila disse:
- Obrigada! Precisava relaxar.

E fechou a porta. Rafa ficou parado esperando o elevador. Definitivamente aquela não era a Lucila que ele conhecia.

Lucila teve uma maravilhosa noite de sono. Acordou absurdamente bem disposta e cheia de idéias para seu novo projeto da casa de Itaipava. Mesmo do caminho para o escritório ligou para Cadu. Tinha que dividir com ele as idéias que tinha. Os dois marcaram um almoço para discutirem as idéias.

No almoço Lucila falava sem parar. Sua criatividade estava a mil por hora. Contava seus planos, fazia anotações. Cadu apenas ouvia e concordava com um sacudir de cabeça. Depois que comeram, Cadu finalmente abriu a boca:
- Lucila, suas idéias são ótimas. Desculpe se não demonstrei entusiasmo, mas não tem nada a ver com suas propostas. Eu que não estou muito bem.

Lucila que até então não tinha parado para olhar Cadú, reparou que ele estava ainda mais esculhambado do que o normal. Fora suas roupas amassadas e descombinadas, tinha olheiras profundas e um ar de total desamparo. Lucila perguntou:
- Aconteceu alguma coisa Cadu? Você está tão abatido.

- Aconteceu sim. Eu nem sei como estou de pé. Estou arrasado. Minha namorada terminou comigo. Não entendo. Não sei o que eu fiz.

Cadu começou a chorar, como se fosse uma criança. Lucila em princípio havia se arrependido de perguntar o que havia acontecido. Não queria que nada atrapalhasse seu momento tão criativo. Mas aos poucos foi sentindo pena de Cadu. Era óbvio que aquele namoro não duraria muito. Mas ele por algum motivo, não havia percebido isso.

Lucila tentou confortá-lo. Mentiu ao dizer que o achava um cara muito interessante e que tinha certeza de que não faltariam boas opções para ele.
Ele agradeceu o carinho de Lucila e se desculpou pelo papelão. Disse que tiraria a tarde de folga para se recuperar e que no dia seguinte procuraria Lucila para detalharem o projeto. Lucila compreendeu e como sua mais nova amiga o fez prometer que não ligaria para a ex.


Alguns dias se passaram e Lucila e Rafa mantinham sua nova relação. Lucila dizia onde e quando queria vê-lo e ele prontamente atendia. Cadu também parecia bem melhor, mais disposto e falava ter conseguido se reerguer por causa da ajuda da nova amiga.

Lucila então teve uma idéia brilhante: iria apresentar Carla, sua amiga de trabalho ao Cadu. Como ela ainda não tinha pensado nisso? Carla vivia cada dia da sua vida pela esperança de arrumar um namorado. Estava tão desesperada que nem se importaria com a aparência de Cadu.
Cadu por sua vez era tão carente, que cairia como uma luva à obsessão louca de Carla. Estava resolvido! Eles seriam um casal perfeito!

Lucila resolveu fazer um queijos e vinhos em seu apartamento. Convidaria Ana e André que tinham acabado de chegar de viagem, Carla, Cadu e claro ela e Rafa. Ligou pra Rafa pedindo para que ele providenciasse os vinhos, enquanto ela cuidaria dos petiscos. Lucila não contou seu plano para Carla ou Cadu, queria que fosse uma surpresa. Os dois certamente se apaixonariam assim que se olhassem.

Os dois confirmaram a presença. Estava tudo certo. Lucila arrumou a casa, decorou com velas acesas e contou seu plano para Rafa e Ana, que seriam seus cúmplices na missão de unir mais um casal feliz.
Os primeiros a chegar foram Ana e André, que trouxeram lembrancinhas da viagem e tinham muita história pra contar. Lucila dava as coordenadas dos últimos detalhes e Rafa obedecia. Ana percebeu a mudança da amiga e principalmente a total obediência de Rafa.

O segundo a chegar foi Cadu. Seguindo os conselhos de Lucila, ele vestia uma calça jeans e uma camiseta branca lisa, sem nenhum estampa de Che Guevara ou algo parecido que ele costumava usar. Lucila o olhou e viu que tinha feito um bom trabalho. Ele estava até bonito. Tinha aparado o cabelo e feito a barba. Sorriu aberto quando Lucila abriu a porta e pareceu surpreso quando viu que haviam outras pessoas no apartamento.

Logo depois, o porteiro avisou que Carla estava subindo. Rafa que a recebeu. Quando abriu a porta não entendeu. Carla estava acompanhada de um rapaz. Rafa olhou para Lucila que sem perceber foi totalmente indiscreta:
- Carla? Você não disse que vinha acompanhada!

Carla ficou sem graça e mais ainda seu par. Ana vendo a situação constrangedora disfarçou:
- AHHAHAHA. Essa nossa amiga, né Carla! Tão ciumenta. Aposto que vai brigar com você por não ter contado sobre seu amigo. Ela é assim com todo mundo. Não liga não.

Lucila sorriu amarelo.

A noite transcorreu de uma forma curiosa. Ana e André abismados com o novo comportamento de Lucila, que falava alto, cortava os assunto dos outros, parecia se achar melhor do que os outros e dava comandos à Rafa que surpreendentemente cumpria sem reclamar.

Cadu estava completamente calado, louco para ir embora. Se achava mais uma vez um completo idiota. Como podia ter imaginado que Lucila tinha o chamado para um encontro a dois. Claro que não.

Carla dando atenção, como sempre excessiva, ao seu novo casinho, que parecia procurar o botão de eject.

No final da noite, só Lucila parecia feliz com seu queijos e vinhos, apesar de seus planos iniciais não terem dado certo.
Todos começaram a ir embora e Rafa também se despediu, já sabendo que não era do desejo de sua namorada que ele dormisse por ali. Ficaram Ana e Lucila arrumando as coisas. Ana não resistiu e falou:
- O que está acontecendo Lucila? Você está tão.. tão...tão...insuportável. Foi extremamente desagradável como todo mundo esta noite. E o Rafa? O que aconteceu pra você tratar ele assim?

Sem papas na língua, Lucila respondeu em seu tom mais arrogante:
- O que aconteceu? Ele me traiu. E se quiser ficar comigo, vai ter que agüentar.

- Ele te traiu e você se tornou uma vaca! Ah que ótimo! Uma bela maneira de se vingar dele é sendo insuportável com seus amigos. E eu duvido que você esteja feliz sendo assim. Pensa bem se é isso que você quer ser.

Ana e André foram embora e Lucila pela primeira vez desde o maldito jantar com Rafa, se deu conta do que estava acontecendo. Ana mais uma vez estava certa: ela não estava feliz.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

CAPÍTULO 39

Juca andava de um lado para o outro no quarto do hotel. Tinha medo de sair e o agente da PF telefonar informando a situação de Bruna, Marcelo e Antônio Carlos. Mas apesar de toda sua ansiedade, o agente não ligou durante todo o dia. Juca então resolveu telefonar para saber o que estava acontecendo.
- Fala seu Juca! Estamos quase com o pedido de deportação na mão. Assim que isso acontecer, levo os três delinqüentes pro Brasil, onde poderemos cuidar deles direitinho.

Juca não gostava que Bruna fosse vista como mais uma delinqüente. Mas tinha que se controlar, afinal a ultima coisa que queria agora era perder a razão. Com calma falou:
- O advogado de Bruna me informou que vai conseguir uma condição especial para ela, devido o trauma que passou e pela ajuda que deu para localizar o Marcelo.

- É verdade. A bonitinha deve ir antes pro Brasil.

Juca definitivamente não ia com a cara daquele policial. O jeito malandro com que tratava tudo e todos incomodava Juca. Especialmente quando se referia a Bruna. Irritado, Juca perguntou:
- Antes? Antes quando? Você está sabendo de alguma coisa e não quer me dizer?

O policial riu e respondeu ríspido:
- Dr. Juca, não esqueçamos que aqui eu sou a autoridade e o senhor é nada mais que um cidadão comum. Não vamos confundir o fato da PF permitir que o senhor viesse acompanhar o processo com participar do processo. Está entendido?

Juca respondeu que sim. Sabia que o agente estava certo, então tentou mais informações junto ao advogado que havia contratado para Bruna. Segundo ele, até o final da semana Bruna voltaria para o Brasil.
Depois de algumas horas, Juca não conseguia dormir, então zapeava os canais da TV. De repente o telefone do quarto tocou. Juca se assustou e atendeu correndo:
- Yes?

- Seu Juca? – disse uma voz feminina em um portunhol enrolado.

- Sim, sou eu. Quem é?

- Boa noite Seu Juca e desculpa incomodar a essa hora. Mas só agora consegui achar o senhor. Eu sou Consuelo, trabalhava para a Dona Bruna e do Seu Marcelo e gostaria de falar com o senhor. Estou aqui embaixo na frente do hotel.

Juca se vestiu e desceu. Ele e Consuelo foram para um café próximo e depois de devidamente apresentados, Consuelo começou a falar:
- Seu Juca, o que eu vou lhe contar é importante. Mas eu preciso pedir uma coisa.

- Hummm. Sabia que estava bom demais pra ser verdade. Quanto você quer?

- Assim, o senhor me ofende! Eu não quero nada! Eu só quero seu silêncio sobre uma coisa.

- Me desculpe, Consuelo. Estou de cabeça quente e tudo que tem acontecido na minha vida me faz crer que o mundo gira mesmo em torno de dinheiro. Sobre que coisa você está falando?

- Eu sou ilegal aqui em Miami. Se não fosse por isso, já tinha ido contar o que eu sei. Mas se eu for até a delegacia, eles me mandam de volta para Cuba. Eu não posso voltar. Preciso juntar dinheiro pros meus filhos.

Juca concordou em não denunciar Consuelo. Os dois combinaram que Juca consultaria o advogado para saber qual a melhor maneira de agir.

Juca pôs-se a ouvir o que a cubana falava. Enquanto ouvia, imaginava quem mais iria procurá-lo com uma prova contra Marcelo. Primeiro foi Antônio Carlos, agora Consuelo. Imaginava que com tudo isso, seria fácil manter Marcelo preso pelo resto dos seus dias.

Consuelo era educada, mas tinha um “trejeito” latino que era inegável. Falava gesticulando, às vezes aumentava a voz. Poderia se passar por uma brasileira, principalmente quando falava com emoção na voz:
- Seu Juca. Como está Dona Bruna? Ela está bem? Eu fiquei tão preocupada quando a levaram do hospital. Meu primo Ramirez, que encontrei aqui em Miami, descobriu pra mim sobre o senhor. Ele tem um amigo na policia que contou que o senhor era ex-marido da Dona Bruna e que estava aqui para ajudá-la.

Juca se assustou com o que ouviu. Como tinha passado essa percepção de que viera para Miami para ajudar Bruna? Não era verdade! Ele queria justiça! Mesmo que isso significasse prender também Bruna. Pensando rápido, Juca concluiu que o fato de ter contratado um advogado de defesa para Bruna, pudesse passar a impressão de que ele estava ajudando a ex-mulher. Mas ele sabia que não era verdade. Ele apenas contratou um advogado, nada mais.

Juca ia se defender e explicar que não veio para ajudar Bruna, mas achou que isso pudesse reprimir Consuelo e queria ouvir o que ela tinha para contar. Consuelo tomou mais um gole do seu café e disse com cara feia:
- Ôô povo que não sabe fazer um café, não é mesmo? Bom, seu Juca, o que eu tenho pra contar, eu antes contei pra esse meu primo e ele acha que pode ajudar na investigação do Dr. Marcelo. Pra falar a verdade, eu nunca fui com a cara dele. Ao contrário de Dona Bruna. Ela sim é um doce de pessoa. Não merecia passar por isso. Não mesmo!

Em um momento de extrema frieza, Juca pensou o contrário. Bruna estava pagando pelo que fizera a ele. Consuelo notou algo estranho na expressão de Juca, que disfarçou:
- Continue Dona Consuelo, por favor.

- Claro, claro. Bom, primeiro eu queria contar que a mulher do jornal, foi atrás do seu Marcelo.

- Mulher do jornal?

- É a mulher que apareceu morta. – Consuelo tirou um recorte dobrado de jornal da bolsa e mostrou e entregou para Juca. Era um jornal de quinta, especializado em atrocidades, tragédias e todo tipo de fofoca. Nele tinha a foto do corpo de Dra. Joana.

- Dra. Joana. Sim, eu sei que ela e o Dr. Antônio Carlos deixaram um bilhete, não é isso?

Antônio Carlos já havia contato isso para Juca, mas deixou a cubana continuar:
- Ah o senhor já sabe, né? Então tá bem. A segunda coisa é que eu vi o Dr. Marcelo entregando um envelope para um homem mal encarado e depois disse uma coisa muito estranha. Ele falou pro homem que era para parecer um assalto. Achei isso muito esquisito e quando vi a foto da mulher morta, achei que pudesse ter alguma ligação.

Juca se animou. Prender Marcelo também como mandante de um crime seria maravilhoso. E perguntou:
- Você seria capaz reconhecer esse homem?

Consuelo engasgou. Ela seria sim capaz de reconhecê-lo, mas não podia ir até a delegacia. Notando o desespero de Consuelo, Juca se apressou em dizer:
- Calma. Não vou pedir pra que você vá até a delegacia. Estou só pensando.

Consuelo então contou que seria capaz de reconhecer o homem. Juca se apressou em ligar para o advogado, que sugeriu negociar com a polícia o Green Card de Consuelo em troca do seu depoimento.

Consuelo se animou.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

CAPÍTULO 38

Depois de uma exaustiva viagem ouvindo Carlos Eduardo tagarelar pela estrada, eles finalmente chegaram em Araras. Antes passaram na pousada para deixar as malas e depois seguiram para a obra.

A casa era realmente magnífica. Lucila tinha que reconhecer que o que aquele engenheiro tinha de chato, tinha também de talentoso. Era impossível não se empolgar em trabalhar num projeto como aquele.

Carlos Eduardo ou Cadu – como pediu pra ser chamado - mostrou todo o imóvel e fez suas considerações a respeito de cada ambiente. Lucila se surpreendeu com sua competência, ele realmente sabia o que estava falando e tinha idéias incríveis. Valeria a pena agüentar aquele hippie chato, se fosse pra fazer um bom trabalho.

Os dois discutiram idéias, fizeram anotações, tiraram fotos. A hora passou e nenhum dos dois percebeu. Então, foram almoçar em um restaurante bem charmoso próximo a casa.

Se não fosse pelo senso de humor duvidoso, Cadu seria uma boa companhia. Mas sua mania insuportável de fazer piada com absolutamente tudo, irritava Lucila. Eram trocadilhos sem graça, piadas batidas. Só ele mesmo achava graça. No início, Lucila pra ser simpática, ainda sorria. Com o passar do tempo, preferia fingir não ter ouvido. Mas isso não inibia Cadu, que inventava logo uma nova piada.

Enquanto almoçavam, o celular de Lucila tocou. Era Rafa. Ela não atendeu. Não queria falar com ele naquele momento. Logo depois foi o telefone de Cadu que tocou. Ele atendeu:
- Oie minha bijujujuca!!!!!!!!!

"Bijujujuca”???? - Lucila prendeu o riso e fingiu não prestar atenção na conversa em tom infantil que seu colega tinha ao telefone. Lucila pensava quem poderia ser essa “bijujujuca” que agüentava essa voz irritante e ainda encarava esse modelito descombinado de Cadú? Ele desligou e falou:
- Desculpa, não podia deixar de atender.

Lucila falou que tudo bem e voltou ao assunto do projeto. Como se a ignorasse, Cadu, voltou no assunto anterior. Ele queria falar sobre sua bijujujuca. Era importante pra ele. Interrompendo Lucila, disse:
- Desculpa te interromper, mas custo a voltar ao meu normal quando falo com essa mulher. A mulher da minha vida. Você entende?

Lucila arregalou os olhos e balançou a cabeça concordando, apesar de que não tinha a menor idéia do que Cadú estivesse falando. Ele continuou:
- Eu falo com ela e perco o foco. Me desculpe. Ahh... quem manda ter uma namorada tão especial, não é? Você tem namorado?

Lucila sem graça, não esperava ter que dividir detalhes da sua vida particular com aquele chato. Respondeu secamente:
- Tenho. Mas voltando ao projeto, Cadu. Eu pensei em esquadrias de alumínio. O que você acha?

Cadu demorou um tempo para voltar ao normal. Como ele mesmo havia dito, falar com sua namorada parecia mesmo o tirar do sério.

O almoço acabou e os dois pediram a conta. Voltariam para a casa para fechar mais alguns detalhes. Tinham pouco tempo pra decidir tudo.


Enquanto isso, Rafa estacionava seu carro em frente a um prédio na Barra da Tijuca. Não precisou se anunciar, o porteiro parecia o conhecer. Ele subiu e abriu a porta com sua própria chave. Não havia ninguém em casa, então apenas colocou o anel sobre a mesa. Pensou em aproveitar para deixar também as chaves, mas desistiu.

No caminho de volta para o escritório, tentou mais uma vez ligar para Lucila, que de novo não atendeu. Deixou um recado simpático, apesar de já estar de saco cheio daquela situação. Sabia que tinha que agüentar. Por sorte Lucila nem se lembraria do anel. Estava bêbada, talvez as lembranças estivessem confusas. Rafa torcia para isso. Não saberia explicar como o anel de Silvia estava na sua casa.

Silvia era mais velha que Rafa. A relação dos dois sempre foi tranqüila, nenhum dos dois esperava mais do que o outro poderia dar. Porém, um pouco depois de Rafa reencontrar Lucila, Silvia contou que havia se separado. A partir daí a relação dos dois mudou. Silvia não queria apenas exclusividade, queria começar uma nova vida com Rafa. Ela o culpava pelo fim do seu casamento, se dizia apaixonada e que não podia mais manter a relação com seu marido. Rafa pulou fora. Não era mais do jeito que ele queria. Ainda mais quando começou a namorar Lucila, queria fazer tudo direito. Lucila merecia isso.

Porém, Silvia parecia uma pedra no sapato de Rafa. Quase arruinou tudo quando o fez perder a hora justo no dia do casamento de Ana. Rafa acreditava que não tinha culpa, foi vítima da situação.

Ele já havia rompido com Silvia. Pelo menos na cabeça dele, o fato de não atender mais as ligações de Silvia, deixava claro que ele não queria mais nada com ela. No dia do casamento de Ana e André, era quase hora do almoço e Rafa desceu pra comprar alguma coisa pra comer. Quando voltou encontrou Silvia no corredor do prédio. Ela chorava, gritava. Estava totalmente descontrolada. Rafa, desesperado a colocou para dentro. Foi buscar um pouco d’água e quando voltou Silvia estava só de calcinha deitada no seu sofá.
Como Silvia estava com objetivo claro de ter Rafa de volta, a "brincadeira" foi até tarde. Rafa só se deu conta da hora quando Lucila telefonou várias vezes. Nas primeiras vezes, ele não pôde atender, mas depois percebeu a fria que havia se metido. Correu para se arrumar, pedindo que Silvia fosse embora. Ela se negava. Depois de muito tempo e de uma certa agressividade, Rafa conseguiu sair vestindo seu fraque e levando Silvia pra fora do apartamento.

No caminho para a igreja Rafa até se arrependeu. Mas sabia que não podia se cobrar tanto. Pois ele não teve culpa. Foi obrigado a ceder aos seus desejos animais de macho reprodutor, nada além disso.

Já de volta ao escritório, Rafa tentou mais uma vez falar com Lucila. Desta vez, ela atendeu:
- Oi Rafa.

- Oie meu amor. Estou louco de saudades. Quando você volta?

- Acho que até amanhã conseguiremos terminar tudo.

- Conseguiremos?

- Sim. Estou eu e o Cadú.

- Cadú?

-É! O engenheiro do cliente. Gente boa ele.

- Ah.. gente boa? Que bom, que bom.

- Bom, estamos indo tomar um banho pra jantar. Amanhã te ligo.

- Tá bem, meu amor. Te adoro, viu?


Lucila desligou. Ainda não conseguia fazer declarações de amor. Entrou no chuveiro e resolveu arrumar mentalmente tudo que precisava pensar. Lembrava do anel. Lembrava do atraso de Rafa e a sua justificativa de ter trabalhado no sábado. Então decidiu que desta vez iria pôr tudo em pratos limpos. Precisava saber se Rafa estava ou não falando a verdade.
Logo que saiu do banho, pegou o celular e ligou para o escritório de Rafa. Falseando a voz pediu para falar com Gabriel, o sócio de Rafa que ela odiava especialmente por ele só a chamar de Lucilda. Gabriel atendeu:
- Eu!

- Oi Gabriel, é Lucila. Tudo bem?

- Lucilda!!!!!!!!!! Olá gatona! Tudo bem? Quer falar com o varão do seu namorado?

- Não! Não precisa. Na verdade quero uma ajuda. Eu emprestei meu carro pro Rafa ir pro escritório no sábado. Ele tá todo arranhado. Não queria preocupar Rafa com isso, então pensei em ligar pro estacionamento e resolver. Eles devem ter registro dos carros, não é?

- Sábado? Ahh... bom, Lucilda eu não tenho não. Mas vou te passar pra minha “secretina” e ela te arruma isso aí, tá bem?

Lucila esperou até que a secretária arrumasse o telefone. Ficou olhando pro papel. Sabia que se Rafa tivesse mentido, ela teria que tomar uma atitude. Ligou pro estacionamento e deu os dados do carro de Rafa. Não havia registro do carro no sábado. Lucila se apegou na idéia de que Rafa poderia ter ido sem o carro. Sabia que isso era praticamente impossível, mas precisava ter essa esperança. Perguntaria pra ele assim que voltasse.

terça-feira, 26 de maio de 2009

CAPÍTULO 37

Apesar da ansiedade em encontrar Marcelo Zacaro, Juca estava preocupado. Não entendia o que estava acontecendo consigo, mas sentia algo parecido com ciúmes e talvez por isso não quisesse que Marcelo aparecesse.

Juca e o agente da PF estavam sentados no escritório da Polícia Especial de Miami. O agente fazia ligações, acessava o computador, falava num inglês precário pelo rádio. Juca apenas observava. Não tinha muito o que fazer, a não ser esperar. Sempre que tinha autorização ia até a cela de Bruna. Eles conversavam, normalmente sobre o processo. Mas nunca tinham muito tempo. O permitido era no máximo vinte minutos.

Enquanto observava toda a agitação do lugar, notou um entusiasmo exacerbado do agente brasileiro, que imediatamente correu até Juca e disse:
- Pegamos o filho da puta!

Juca não comemorou. Estava com todos aqueles sentimentos confusos. Apenas sorriu e bateu nas costas do policial, o cumprimentado pela vitória. Logo depois perguntou:
- Posso contar à Bruna?

O agente quase se ofendeu:
- Não! Aliás, ninguém fala com a garota até segunda ordem!

O agente saiu e passou a orientação para os demais. Bruna ficaria um tempo sem receber visitas. A sua idéia era confrontá-los em testemunho, pois ao contrário de Juca, o agente desconfiava da inocência de Bruna.

Horas depois, Juca ainda esperava o retorno da equipe. Mas já tinha sido avisado que também não teria acesso à Marcelo. Então, resolveu sair da delegacia. Foi caminhando até o hotel, pediu indicação de um barbeiro e cortou os cabelos que estavam em total descuido. Fez a barba, comprou um casaco novo e de banho tomado, o vestiu. De novo parecia o antigo Juca: alinhado, charmoso, um gentleman.

Ao invés de voltar para delegacia, apenas ligou para saber se poderia ser útil. Não seria. Apenas o advogado de Bruna poderia participar das averiguações. Diante disso, saiu novamente do hotel afim de procurar um bom restaurante para comer. Assim que saiu do hotel foi interceptado por Antônio Carlos, seu antigo funcionário que junto com Dra. Joana se tornaram cúmplices de Marcelo e Waldemar Zacaro no esquema dos hospitais. Juca se assustou quando viu Antônio Carlos:
- Juca? Me desculpe, não queria te assustar.

- Mas assustou. O que você está fazendo aqui seu filho da mãe! ? – alterado, ficou vermelho e parecia querer agredir Antônio Carlos. Este, deu passou para trás e disse nitidamente apavorado:
- Desculpa! Me desculpe! Eu vim aqui para falar com você. Preciso da sua ajuda!

Juca riu debochado.
- Da minha ajuda? E porque você acha que eu iria ajudá-lo? Você é um desgraçado e por causa da sua ambição, acabou com a minha vida!

- Eu sei! Mas por favor, me escute! Eu vou me entregar! Eu conto tudo o que precisarem! Mas preciso de proteção.
- Proteção?

Antônio Carlos claramente tinha entrado no esquema de gaiato. Era óbvia a sua não vocação para este tipo de golpe. Era medroso, covarde e agora se parecia com uma criança assuntada. Gaguejando e olhando para os lados como se precisasse se certificar de que não era seguido, falou:
- Marcelo contratou um homem para nos matar. Ele matou Joana! Ela está morta. Morta!

Juca entendendo a gravidade da situação, o fez entrar no hotel. Subiram para o quarto. Juca lhe deu copo d’água e pediu para que ele se acalmasse. Depois falou:
- Agora me conta tudo desde o começo.

Antônio Carlos contou que quando o esquema fora descoberto e Waldemar preso, ele e Joana não conseguiam mais contato com Marcelo. Depois de um tempo foragidos, conseguiram localizar Marcelo em Miami. Ele também contou do acordo que os três fizeram e sobre o pedido de Marcelo para que eles saíssem de Miami e enviassem seus novos endereços para uma caixa postal. Dias depois do envio do endereço, Joana e Antônio Carlos tiveram a impressão de estarem sendo seguidos. Estavam certos. Um dia pela manhã, diferente de sua rotina habitual, Antonio Carlos acordou antes de Joana e resolveu ir até a padaria. Foi a sua sorte, pois quando voltou Joana já estava morta e seu assassino o esperava. Mas Antonio conseguiu fugir.

Juca ouvia tudo apavorado. Pensava em Bruna e que talvez ele tivesse sido agressivo com ela. Mas conseguiu retomar seu foco para o problema principal: o que fazer com Antônio Carlos? Tentou ligar para o agente da PF, mas não conseguiu falar. Ele deveria estar na apreensão de Marcelo. Juca então, decidiu que Antônio passaria a noite no hotel com ele. No dia seguinte ele mesmo o levaria para a delegacia.

Antônio estava tão cansado que depois do banho e de vestir as roupas emprestadas por Juca, desmaiou na cama. Arrependimento era mais do que uma palavra para descrever aquele homem que agora tinha medo da morte.

No dia seguinte, logo cedo, Juca contou ao agente o que havia acontecido. Foram para a delegacia. Antônio iria depor também. Mas desta vez, Juca não providenciaria nenhum advogado. Enquanto explicava isso ao agente, Marcelo entrou algemado e escoltado por dois policiais. Ele passou pelo corredor lateral da sala onde Juca estava. Cabeça erguida, andar imponente, nem parecia estar sendo preso.

Ele e Juca trocaram olhares e Marcelo ainda teve a empáfia de cumprimentá-lo com um balançar de cabeça. Juca se controlou para não voar em cima dele.

Logo depois, Juca voltou ao hotel a pedido do agente , que prometia ter respostas sobre a deportação dos três em poucos dias.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

CAPÍTULO 36

Conforme prometeu, Juca contratou um advogado para cuidar do caso de Bruna. Enquanto isso, a polícia especial de Miami e o agente da PF brasileiro procuravam Marcelo Zacaro.

Seguindo a dica dada por Bruna, o próprio Juca acompanhou o agente até a marina onde o iate de Marcelo estaria. Logo que chegaram lá descobriram que Marcelo tinha zarpado há alguns dias.

Os trâmites para organizar uma busca no Brasil são inúmeros e nem sempre se consegue o que se quer. Isso não acontecia em Miami. Foi só informar o acontecido que a guarda costeira de Miami foi acionada.

Bruna ainda estava sob custódia da polícia. Apesar de tecnicamente ser uma cela, não se parecia com uma. Pelo menos não na visão de uma brasileira. Era arejada, tinha cama confortável com lençóis limpos. Uma mesa com um abajur para leitura e um banheiro quase privativo. Bruna lia um livro que Juca havia lhe dado. Ela passava o tempo todo lendo ou dormindo. Mal comia o que lhe ofereciam. Esperava o tempo passar como se não tivesse pressa. Juca sempre que podia ia até lá. Às vezes junto com o advogado, outras não. Era o melhor momento do dia de Bruna ... e de Juca.


***************************


Lucila acordou antes de Rafa e entrou no chuveiro com a cabeça à mil. Sabia que tinha se rendido cedo demais aos encantos de Rafa. Lembrava-se de Bardot, que por causa de caprichos como este, ficou vinte anos longe do seu grande amor. Isso a deixava confiante de ter feito a coisa certa. Mas quando pensava em Ana e no que ela diria se soubesse de toda história, se arrependia.

Antes de acabar seu banho, foi surpreendida por Rafa que entrou no chuveiro para lhe dar “bom dia”. Lucila mais uma vez deixou de lado os pensamentos e de novo mergulhou na paixão que não a deixava raciocinar.
Os dois se arrumaram e Rafa a deixou no escritório. Lucila falava pouco, sentia uma espécie de culpa. Enquanto Rafa agia naturalmente, como se nada tivesse acontecido.

Ao chegar no escritório Lucila foi interceptada por sua chefe Bardot. Ela falava sem parar sobre seus planos para os pontos finais do projeto da joalheria que as duas tocavam juntas. Lucila não conseguia prestar atenção. Só reparava na vitalidade da chefe e se forçava a acreditar que era obra da felicidade de Bardot junto ao seu amor Luis Antônio.

- Lucila??? Alou??? – Bardot percebendo que a funcionária estava longe, chamou atenção de Lucila.

Lucila sem graça, não disfarçou:
- Desculpa Bardot. Estava te olhando. Você está tão cheia de energia, tão “pra cima”.

Antes de chegar onde queria, Lucila foi interrompida por Bardot que disse:
- Em momentos de pesadelo emocional, só o trabalho me salva.

Lucila não esperava esta resposta. Ao contrário, esperava ter uma motivação, um embasamento para continuar acreditando em Rafa. Precisava de uma força, um exemplo que assegurasse de que ela não estava errada.

Nesse momento a energia de Bardot desapareceu. Ela se sentou no canto da mesa e falou baixo para Lucila:
- Acabou, Lucila. Eu e Luiz. Acabou. Mas desta vez não vou me arrepender por não ter tentado, não é? Eu tentei, acreditei que ele tinha mudado, tinha amadurecido. Mas me enganei.

Lucila quase chorou. Vendo seu desespero, Bardot se apressou em dizer:
- Lucila! Calma! Cada caso é um caso. Não é uma regra. Você não pode se basear no fracasso da minha relação. Viva a sua vida.

Lucila sorriu, mas não foi o suficiente para se sentir confortada. Precisava de mais. Precisava de certezas que não tinha. Bardot pensando em desviar o assunto falou:
- Vamos trabalhar? Pegue suas plantas e vamos, ok?

Mesmo meio perdida em seus pensamentos, Lucila tentou se concentrar e acompanhou Bardot. Os clientes já a aguardavam na sala de reunião e estavam ansiosos pelas criações de Bardot.

A reunião foi um sucesso, apesar as total dispersão de Lucila. Os clientes ficaram satisfeitos e um novo projeto foi encomendado. Era um pedido especial do dono da joalheria: a sua casa da serra. Bardot não pegava mais este tipo de projeto, mas era sem dúvida um caso especial. Lucila ficaria responsável pelo projeto junto com o engenheiro que construiu a casa. Logo depois da reunião já marcaram de irem juntos ver o imóvel.

Lucila estava agradecida por ficar uns dias fora neste projeto. E Bardot sabia disso. De alguma maneira ela se sentia responsável por encorajar Lucila na relação com o ex namorado, e percebia que as coisas não iam tão bem.

Logo que voltou pra sua mesa, Rafa ligou. Lucila foi seca, estava estranha. Sabia que em algum momento teria que confrontar Rafa a respeito da cena do anel, que ele fingia não ter existido. Falaram rapidamente e Lucila contou que passaria dois dias fora e que hoje não o poderia vê-lo, pois teria que providenciar as coisas para a viagem.
Rafa sabia que era uma desculpa, mas também conhecia muito bem Lucila e sua esperança é que com o tempo ela voltasse ao normal.

Ao final do dia, Lucila passou na farmácia e comprou algumas coisas que precisaria para sua viagem. A casa do dono da joalheria ficava em Araras, na serra do Rio. Pelo que tinha combinado com Carlos Eduardo, o engenheiro, eles ficariam uns dois dias pelo menos e se hospedariam em uma pousada próxima à casa.

Depois de duas horas tentando fazer uma mala pelo menos razoável. Lucila desmaiou de cansaço. Estava exausta emocionalmente.

Conforme combinado, no dia seguinte às 8h da manhã o tal Carlos Eduardo estava em sua portaria. Lucila desceu e se apresentaram. Carlos Eduardo não era feio, mas estava longe de ser bonito. Com certeza era solteiro, pois sua camisa xadrez nada tinha a ver com sua calça meio cargo, de uma cor indefinida, provavelmente desbotada pelo tempo. Os cabelos meio compridos e totalmente desalinhados ainda reforçavam ainda mais sua imagem “casual”, quase “hippie”

A viagem era curta, cerca de uma hora e meia, mas parecia uma eternidade. Carlos Eduardo era uma das pessoas mais chatas que Lucila já havia conhecido. Queria ser engraçado, simpático em excesso. Aquela hora da manhã falava sem parar, enquanto Lucila só queria sossego.

Lucila só pensava que teria que agüentar aquela mala ainda mais dois dias. Ele e suas piadas e trocadilhos infames. Mas tudo bem, ela precisava ficar longe de Rafa. Mesmo que ele não saísse da sua cabeça.

terça-feira, 19 de maio de 2009

CAPÍTULO 35

Lucila acordou e Rafa não estava na cama. Sentiu um alívio. Olhou em volta, foi até a sala e nada. Voltou para o quarto e viu que havia um bilhete no espelho:

Meu amor,
tive uma urgência no escritório. Deixei café pronto.
Te amo,
Rafa.


Lucila riu debochado. Mesmo assim achou melhor não ter que se encontrar com Rafa. Estava mal humorada e acordou sem a menor vontade de olhar pra cara do namorado. Beliscou alguma coisa na cozinha, se vestiu e foi embora. Precisava relaxar. No caminho, ligou para Carla que estava saindo da praia e indo para o Bracarense. – “Perfeito” – pensou Lucila. Passou em casa tirou o vestido de festa e foi se encontrar com Carla.

Carla estava numa mesa com Flávio e Tadeu. Marcos já tinha ido embora se encontrar com seu novo casinho. Além deles, estava também uma amiga de Carla que tinha acabado de se separar .

Lucila chegou sorrindo. Nem parecia que na noite anterior tinha achado um anel de mulher no banheiro do seu namorado. Mas ela era assim. Quanto mais chateada com um assunto, menos se prendia a ele. Pelo menos nos primeiros momentos. Agora ela só queria se divertir um pouco e quem sabe, deixar Rafa um pouco preocupado com um leve sumiço de sua namorada.

Então se sentou e logo pediu um chope. Não comentou nada sobre Rafa, apesar de perguntarem sobre ele. Apenas explicou que ele tinha ido trabalhar em pleno domingo. Falou sobre o casamento, omitindo a parte de que quase foi daminha de honra. Logo começou a ouvir a história da amiga de Carla, que como toda mulher que acaba de se separar, quer contar toooooda história para toooodo mundo.

Lucila sempre adorou ouvir e se meter na vida dos outros. Não tinha problemas em aconselhar sobre qualquer assunto. Na verdade, ela também era assim com a própria vida. Hoje, não comentou os acontecimentos pois nem ela mesma queria ouvir sobre o assunto. Mas sabia que quando superasse isso, a história seria contata para todos seus amigos, em tom de piada, rindo da própria situação. Esse era o jeito de Lucila. Assim, ela sempre tentava disfarçar os medos e seus pontos fracos. Rafa era um ponto fraco. Ele resistia ao tempo, ao temperamento vulnerável de Lucila e a sua inconstância geminiana. Ela continuava louca por ele.

Mais um chope e mais uma ligação de Rafa. Lucila tentava disfarçar que não estava atendendo ao namorado, mas era em vão. Todo viam a cara de satisfação a cada olhada no celular. Era como comemora um gol em torcida adversária – discreto, mas possível de perceber.

Depois de muito papo e muito conselho pra amiga de Carla, que a essas alturas acreditava que a vida de solteira era a mais divina da face da terra, Tadeu falou para Lucila:
- Então Lú, agora que só estamos nós, conta o que aconteceu com Rafa?

Lucila se fez de desentendida. Estava determinada a não assumir o possível fracasso do seu namoro. Não queria passar por aquilo mais um vez. Não merecia aquilo. Queria um tempo. Agora o álcool suavizava o peso do que tinha acontecido. Ela não queria pensar nisso agora. Dissimulada respondeu:
- Tudo bem, nem eu me entendo direito, Tadeu. Eu só sei que to adorando ficar sozinha hoje com meus amigos. Eu tava com saudade de vocês!

Todos se abraçaram desviando do assunto. Era o que Lucila esperava. Rafa já tinha deixado três recados e enviado dois sms. Lucila havia decidido não responder. Pelo menos até a noite não responderia. Também não o veria naquele domingo.
O chope se transformou em sono e com o tempo, todos começaram a se calar. Já eram quase dez horas da noite e eles tinham passado a tarde bebendo, comendo e papeando. Lucila amava esse tipo de programa, principalmente quando era precedido de uma prainha. Hoje, como havia acordado tarde, não conseguiu chegar a tempo pra praia, mas conseguiu o que queria: esvaziar sua cabeça.

Pediram a conta e Lucila foi pra casa. No caminho, mais um recado. Não ia responder agora, somente quando já estivesse em casa.

Embicou o carro na garagem e Rafa estava na porta. Com a cara fechada, encostado na grade. Quando Lucila parou, ele andou até o carro. Se abaixou e disse:
- Está tudo bem?

Lucila respondeu que sim. Não sabia muito como agir, não esperava em vê-lo. Rafa então falou:
- Era isso que eu queria saber. Se está tudo bem, fico mais tranqüilo. Boa noite, meu amor.

Ele deu um beijo estalado e saiu em direção a seu carro. Lucila não acreditou. Como ele não ia nem perguntar onde ela estava? Não agüentou e saltou do carro e fez sinal para que ele esperasse. Insatisfeita com a completa falta de ciúmes do namorado, falou:
- Está tudo bem sim, Rafa. Aliás está tudo ótimo. Eu não te atendi por que eu não quis! Entendeu? Eu não quis! Eu estava me divertindo e não queria falar com você. Está claro agora?

Rafa sorriu de leve como se achasse engraçado o desabafo da namorada meio bebunzinha. Ajeitou a alça do sutiã dela que aparecia sobre a blusa de Lucila e com uma voz carinhosa disse:
- Entendi, meu amor. Por isso que vou pra casa. Não é por que eu queira. Mas eu tenho que respeitar seu espaço.

Deu um beijo na testa de Lucila e entrou no carro, antes de arrancar prometeu ligar no dia seguinte. Lucila ficou parada vendo o carro se afastar. Estava ainda mais irritada! Que compreensão toda era essa? E o ciúme? E a insegurança? Rafa não tinha estes sentimentos? Era só ela que era atormentada por eles?

Ainda irritada subiu pro apartamento. O sono tranqüilo que achava que teria, foi embora. Lucila não agüentou mais do que trinta minutos. Ligou pra Rafa e pediu para que ele voltasse. Ele respondeu:
- Estou chegando, meu amor. E estou levando o jantar.

Rafa chegou com uma pizza. Lucila não se deu conta, mas pelo tempo e a temperatura da pizza, ele tinha certeza de que Lucila ligaria e provavelmente já havia encomendado a refeição antes mesmo dela ligar.

O constrangimento durou muito pouco. Rafa sabia exatamente como acabar com esse tipo de situação. E foi do seu modo mais “Rafa” de ser, que ele fez Lucila esquecer todos os “poréns” que a atormentavam horas antes. Os dois dormiram abraçadinhos depois de saborear uma pizza...já fria.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

CAPÍTULO 34

Consuelo voltou dias depois para visitar Bruna, mas ela já não estava mais no hospital. Segundo o rapaz que alternava o turno com seu primo Ramirez, ela tinha tido alta e tinha sido levada por um carro da polícia. Consuelo assustada perguntou:
- Imigração?

O rapaz respondeu que não. Era um carro da polícia especial de Miami. Nem ele sabia dizer o nome da unidade.

Diante disso Consuelo não sabia o que fazer. Sendo ilegal no país não poderia procurar a patroa nas delegacias de Miami, muito menos nessa tal de polícia especial. Então, fez o que sempre fazia quando precisava de ajuda: rezou.

Bruna não parecia preocupada com seu destino. Ao contrário, sua apatia dava um ar de desdém a tudo que acontecia a sua volta. Chegou na delegacia acompanhada por dois indivíduos bem vestidos, de terno. Não pareceriam policiais se não fosse pelos distintivos pendurados no pescoço e as armas encaixadas numa espécie de coldre sobre o peito. Apesar do silêncio absoluto no carro, eles foram gentis todo o tempo. Assim que chegaram, um deles abriu a porta e ofereceu ajuda para que Bruna saísse do carro. A apoiou até a entrada e por todo percurso nos corredores do prédio. Parecia uma cena de um filme policial americano. Todos aqueles homens com seus copos de café, falando alto, às vezes rindo. Poucos sentados em suas mesas, a maioria de pé discutindo alguma coisa. Bruna chamou atenção do grupo quando entrou. Apesar do seu abatimento, era uma mulher bonita, que se destacava especialmente em um ambiente tão masculino quanto aquele.

O policial abriu a porta de uma sala onde havia uma mesa e duas cadeiras. Era ladeada por uma grande janela de espelho e apenas um bebedor. Bruna se sentou ali e recusou a água ou o café oferecidos. Havia passado alguns dias no hospital e já não ligava em não comer. Comia obrigada pelas enfermeiras, que diante da sua recusa intensificaram o mix de vitaminas. Não sentia nada na verdade. Nenhuma vontade, fome ou sono. Queria somente saber de Marcelo. Mas até isso ela já não queria tanto. Tinha medo de saber a verdade e talvez a ausência de pensamentos que se forçava a ter, a confortassem mais.

Bruna ficou um bom tempo sozinha na sala. Aguardando conforme o pedido do policial. Não sabia direito o que aconteceria com ela. Não se importava. De repente a porta da sala abriu. Era uma pequena fresta por onde entrou o outro policial. Ele era um homem mais velho, com um ar mais impaciente. Ele colocou a cabeça através da fresta da porta e disse em um inglês quase incompreensível:
- A senhora tem visita.

Bruna arregalou os olhos e pela primeira vez olhou para o policial. Ficou quieta observando ansiosamente o movimento da porta. Sabia que só poderia ser Marcelo. Finalmente ele viria levá-la pra casa, tirá-la daquele pesadelo.
A porta então abriu e alguém entrou. Bruna chegou a sorrir, era como se tivesse ensaiado mentalmente um sorriso para quando Marcelo viesse. Então o homem falou:
- Não achei que ficaria feliz em me ver.
Bruna caiu em si. Apesar da familiaridade daquela voz, agora bem mais áspera, não era quem ela esperava, então com um tom quase irônico respondeu:
- Juca? Talvez seja saudade. Quem sabe.

Bruna se virou de lado, olhando para a parede e deixando claro que não queria conversa com Juca. Mesmo assim, ele fechou a porta e se sentou a sua frente. Seu rosto queimava e ele sentia que suas mãos estavam trêmulas. Tinha sonhado muito com aquele momento em que poderia dizer tudo o que pensava para Bruna. Xingar, gritar e mostrar como ela o tinha feito sofrer. Apesar disso, Juca olhou para Bruna com pena. Ver seu olhar perdido no nada, a mão ainda sobre a barriga, as olheiras e o cabelo preso sem cuidado. Era nítido o quanto aquela mulher estava sofrendo. A dor de Bruna doeu em Juca. Ele não esperava sentir isso. Ao contrário pensava que sentiria um gosto de vingança em ver que ela também tinha tido o que merecia.

Bruna continuava olhando para o nada. Juca engoliu algo que poderia ser até um choro. Virou se para ela:
- Eu sinto muito. De verdade. Sinceramente não imaginava que sentiria tanto.

Bruna segurou a cabeça com as mãos. As lágrimas começaram a cair. Não queria chorar. Não queria sentir nada, mas agora sentia. Olhou para Juca e falou:
- Dói muito. Era meu filho. Meu filho! E agora? Agora acabou. O que eu vou fazer?

Juca quis abraçá-la, mas se conteve. Apenas segurou o choro. Bruna continuou:
- Minha vida mudou nos últimos meses mais do que qualquer coisa. Não sei se fiz as escolhas certas. Talvez não. Mas meu filho era uma escolha certa. Disso eu tenho certeza. E o que aconteceu com ele....

Bruna não conseguiu mais falar. Nesse momento entrou o policial mais jovem perguntando a Juca se estava tudo bem. Juca respondeu que sim e pediu lenços de papel.

Juca tinha sido avisado pela Polícia Federal que Marcelo havia sido encontrado em Miami e que Bruna estava em poder da polícia local e provavelmente seria deportada par ser julgada no Brasil. Marcelo tinha conseguido fugir, mas com avisos em todas as fronteiras, acreditavam que ele não iria muito longe. Juca não pensou duas vezes, aceitou acompanhar o agente da PF até Miami para ver de perto todo o processo. Ou melhor, para dizer poucas e boas para Bruna e Marcelo.

Mas não foi isso que aconteceu quando viu a fragilidade daquela que foi por tantos anos a mulher da sua vida. Juca havia desmontado. Sentia raiva por ter amolecido, mas não seria justo despejar em Bruna toda sua raiva num momento tão triste como este.

Os dois ainda ficaram alguns minutos sozinhos na sala, até que o agente brasileiro da PF entrou para explicar a situação em Bruna se encontrava:
- Boa tarde, Dona Bruna Andrade. Antes de mais nada gostaria de dar meus sentimentos pelo acontecido. Apesar deste momento dramático, não posso deixar de fazer meu trabalho.

Bruna suspirou, olhou para o agente e perguntou:
- O que o senhor quer de mim? É só falar. Eu respondo tudo o que o senhor quiser.

O agente olhou para Juca e continuou:
- Primeiro vamos cuidar da sua extradição. Estamos pedindo sua extradição para ser julgada no Brasil. A senhora tem direito a um advogado brasileiro para cuidar do seu caso.

Juca o interrrompeu:
- Eu cuido disso.

O agente não entendeu, mas prosseguiu:
- Dependendo da orientação do seu advogado ele pode dificultar o processo de extradição.

Bruna olhou pra Juca e disse:
- Eu quero voltar pro Brasil. Não interessa o que aconteça comigo. Eu quero voltar.

O agente sabia que talvez esta não fosse a melhor opção para Bruna, mas era de seu interesse e da sua corporação levar Bruna para o Brasil. Ainda ficou um tempo explicando alguns trâmites até que perguntou:
- Agora a senhora sabe da sua situação. Quando for julgada, existe condições que podem aliviar sua pena. Por exemplo, se nos ajudar a encontrar o Sr. Marcelo Zacaro. A senhora sabe onde ele está?

- Não.

- Se a senhora nos ajudar, isso também ajudará no seu processo. A senhora me entendeu?

- Entendi. Mas eu não sei onde ele está. E nem porque não veio saber como eu estava quando perdi nosso filho!

O agente percebeu que havia raiva naquele comentário e se aproveitou:
- A senhora me desculpe a franqueza, mas deve ser pelo mesmo motivo que ele colocou vários imóveis e bens em seu nome. Agora a senhora terá que nos explicar como conseguiu adquiri-los e não ele.

Bruna não acreditou no que ouvia. Tinha realmente assinado alguns papéis, mas nunca pensou que precisaria desconfiar de alguma coisa. O agente tentou mais uma vez:
- A senhora pensa com calma. Não existe nenhum lugar onde o Sr. Marcelo possa estar?

Bruna pensou por um tempo e teve um “estalo”:
- O barco! Vocês procuraram o barco?

- Não encontramos nenhum barco registrado em nome dele ou em seu nome.

- Não está registrado. Me lembro que Marcelo comentou que não iria registrar o iate. Ele colocou em nome de um amigo mexicano que trabalhava com ele no projeto da operadora de turismo.

O agente anotou o nome e todos os dados que Bruna sabia sobre o mexicano e saiu da sala agitado. Bruna e Juca se olharam. Por alguns instantes Bruna sentiu um arrependimento imenso. Mas depois pensou que não tinha feito tudo isso à toa, mesmo agora sendo tão difícil sentir o tamanho do amor que ela tinha por Marcelo.

Juca desviou o olhar, mesmo sem querer parar de olhar para Bruna.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

CAPÍTULO 32

Já eram quase duas horas da manhã, quando Bruna ouviu um barulho na porta. Correu até o pé da escada e viu que era Marcelo entrando trôpego. Bruna não acreditou. Primeiro voltou pro quarto e pensou em fingir que dormia. Mas o sangue quente não a deixou engolir as horas de preocupação, de ligações não antendidas, que Marcelo tinha a feito passar.

Bruna desceu a escada determinana, marchando. Logo que Marcelo olhou pra cima, ela falou:
- Não acredito que você não podia me dar ao menos um telefonema.

Marcelo sacodiu a cabeça como alguém que não queria ouvir toda aquela ladainha. Estava bêbado, o que dificultava sua fala, mas mesmo assim puxou ar dos pulmões e falou. Ou melhor gritou:
- Pode parar! Bruna! Bruna! Bruna! Pára! Eu durmo no sofá, é isso? Sem bronca! Não tenho saco pra isso não! Tá ouvindo? Saco... exxxposa. É isso! Dá nisso!

Apesar de enrolar a língua, sua voz era enfática, calaria qualquer um. Principalmente Bruna. Ela olhava e não entendia a cena, a voz, a atitude não era do homem da sua vida, do seu grande amor. Então um enjôo tomou conta de Bruna. Sua vista começou a escurecer. Se segurou com força no corrimão, no alto da escada. Suas mãos estavam frias e suadas. Lá embaixo só enxergava o vulto de Marcelo. Não conseguiu falar nada. Apenas desmaiou.



Todos os vizinhos olhavam das suas varandas o tumulto da casa 9. Carros de polícia, ambulância. Isso sem falar na fuga de todos os empregados pela janela dos fundos quando descobriram que o carro da polícia estava vindo pra casa 9. Todos eles eram ilegais e morriam de medo de serem deportados. Consuelo, apesar do pavor em ser deportada, não conseguiu fugir e deixar sua querida patroa sozinha ali no chão. Marcelo estava bêbado demais pra fazer qualquer coisa, por isso, sem pensar, ligou para ambulância.

Quando os paramédicos entraram, Bruna ainda estava desacordada. Marcelo sentando no último degrau da escada, cabeça baixa apoiada pelos braços. Estava tonto e agora sentia vontade de vomitar. Olhava para os paramédicos e via que eles perguntavam alguma coisa. Não conseguia entender. Consuelo entrou e respondeu todas as perguntas em seu inglês confuso.

A polícia entrou e Consuelo respirou fundo. Olhou para Marcelo que agora tentava se levantar. Uma dupla de policiais se apresentou a Marcelo que os olhava com cara de quem nada entendia. Um dos dois olhou para Consuelo e perguntou:
- Ele é o dono da casa?

Consuelo respondeu que sim e informou que ele acabava de chegar de uma festa e que quando chegou encontrou a esposa no chão e logo ligou chamando ajuda.
O policial mais alto fazia cara de quem não acreditava na história e olhava fixamente para aquele homem bêbado. Ele o conhecia de algum lugar. Seu parceiro, mais atencioso ouvia atentamente a história de Consuelo. Enquanto isso, Bruna era erguida em uma maca. Consuelo correu e perguntou:
- Pra onde vocês vão a levar? Seu Marcelo, pelo amor de Deus. O senhor precisa ir com ela. Dona Bruna não pode ir sozinha.

O policial bonzinho permitiu que Consuelo acompanhasse Bruna na ambulância. Sabia que o marido não tinha condições de ajudar em nada. Insistiu em ver os documentos de Marcelo que só apontou para o alto da escada. O policial bonzinho riu e achou melhor deixar pra lá. O outro não gostou. Pediu um minuto e subiu as escadas. Não achou a carteira de Marcelo, apenas a de Bruna.
- Brasileira? E pelo jeito ilegal.

Desceu com o documento na mão. Procurou em toda a sala os documentos de Marcelo, e nada. Queria deter Marcelo até que ele apresentasse alguma identificação. Mas seu parceiro recebeu uma emergência pelo rádio e saíram da casa ameaçando voltar.

O porre de Marcelo era maior do que a preocupação no retorno dos policiais. Marcelo se jogou no sofá e dormiu.

A ambulância voava na Ocean Drive. Consuelo segurava a mão da patroa e rezava. Rezava por ela, por Bruna e até por Marcelo. Tinha medo de ser deportada. Mas tinha ainda mais medo do sangue que manchava a camisola de Bruna.

Antes de chegarem ao hospital, Bruna acordou. Sentia dores e olhou com desespero para Consuelo que tentou a acalmar:
- Calma! Calma Dona Bruna. Está tudo bem, os doutores já vão cuidar da senhora, viu? Tá cheio de médico bacana aqui.

Bruna tentou falar, mas sentia uma pontada em sua barriga. Passava a mão sobre ela como se pudesse se certificar que estava tudo bem com o seu bebê. Mas não podia. Olhou em volta e não viu Marcelo. Então, veio a cabeça a última cena de que se lembrava: Marcelo bêbado e gritando com ela.

Chegaram ao hospital e Bruna foi levada. Consuelo respirou fundo. Sabia que não podia entrar. Enquanto ensaiava sua fuga, viu que era observada por um dos enfermeiros. Disfarçou mexendo na bolsa. O rapaz se aproximou e disse em bom castelhano:
- Olá! A senhora que é a acompanhante da gestante que foi para emergência?

Consuelo não sabia o que responder. O rapaz com sua prancheta na mão, prosseguiu:
- O hospital exige que se preencha uma ficha com os dados do paciente e acompanhante. A senhora trabalha pra ela?

Consuelo respondeu que sim. Ainda muito assustada prestava atenção no rapaz:
- Sei. Isso é exigido se a pessoa tiver um acompanhante. Como a senhora veio junto na ambulância não tenho como dizer na ficha dela que ela não tem acompanhante. A senhora me entende?

Mais um vez Consuelo respondeu que sim, sacudindo a cabeça. O rapaz colocou a mão no seu ombro e disse sorrindo:
- Mas os paramédicos são meus amigos. A gente dá um jeitinho. Só tem uma condição.

Consuelo se agitou e respondeu:
- Meu filho, eu tÔ aqui pra ganhar a vida. Você acha que se eu tivesse algum dinheiro estaria aqui?

O rapaz riu e a interrompeu:
- A condição não é essa, Dona Consuelo.

Consuelo se perguntou se havia tido seu nome àquele rapaz.

- A condição é que a senhora me dê um abraço. Não está me reconhecendo? Sou eu Ramirez, filho da sua prima Maria.

Consuelo não acreditou. Era muita sorte encontrar um parente querido, ainda mais numa situação como esta. Os dois se abraçaram e Ramirez conseguiu omitir a presença da prima nos relatórios do hospital. Consuelo permaneceu por perto e sabia noticiais da patroa pelo primo.

Umas duas horas depois, Ramirez apareceu com uma cara não muito boa. Consuelo sabia o que isso significava e logo perguntou:
- É o bebê? Ela perdeu o bebê?

Ramirez com um tom fúnebre respondeu que sim e disse:
- Sinto muito. Mas não é só isso prima. A sua patroa e o marido são procurados pela polícia do Brasil. A senhora sabia? Ela vai ser presa, assim que tiver alta. Acho melhor a senhora não ficar por perto. Sem Green Card e a corda sempre arrebenta do lado mais fraco, né?

- Meu Deus. Pobre Dona Bruna. Ela tava tão feliz com seu bebê. Eu achava que tinha alguma coisa errada, mas não achava que era tão grave. Ramirez, vou até a casa tentar buscar minhas coisas. Já estou com seu telefone. Eu te ligo pra saber notícia da moça, tudo bem?

- A senhora vai pra onde? Tem onde ficar? Pode ficar lá em casa, prima. Vou te dar o endereço e avisar a minha esposa.

Consuelo foi até a mansão e levou um susto. A casa estava revirada e nenhum sinal de Marcelo. Ela subiu até o quarto do casal e o closet de Marcelo estava praticamente vazio, assim como não haviam quase papéis sobre a escrivaninha. Consuelo pegou suas coisas e saiu. Sabia que não veria mais o Dr. Marcelo.

terça-feira, 28 de abril de 2009

CAPÍTULO 30

Bruna e Marcelo saíram do cinema e foram jantar. Quem os olhava jamais pensaria que aquele casal era uma dupla de refugiados. A barriga de Bruna ainda reforçava o ar de família feliz. Os dois riam, eram carinhosos um com o outro. Apesar do jeito calado de Marcelo, ele a encantava. Sua sobriedade era um charme pra ela, era um toque de mistério na sua personalidade.

Depois do jantar, voltaram pra casa. Assim que entraram, Consuelo correu em direção à porta e entregou pra Marcelo o bilhete, em seguida falou:
- Dr. Marcelo eles vieram aqui, mas eu não os deixei entrar não, viu? Avisei que os senhores não estavam e ele pediram pra entregar esse bilhete.

Marcelo abriu o papel:


Marcelo,
Precisamos conversar. O círculo está fechando. Estamos no Royal Palm Hotel. Procure-nos com urgência.
Abraços,
Antônio e Joana


Depois que leu o guardou no bolso. Bruna perguntou:
- De quem é? O que é?

Ele fez um carinho na sua cabeça e respondeu com voz calma:
- Não se preocupe minha querida. São negócios.

Bruna não gostou da resposta, mas como tudo de estranho na sua vida atual, resolveu ignorar e se concentrar apenas nas coisas boas. Consuelo a olhava desconfiada, com cara de quem não entendia porque a patroa não insistia em saber o que era o tal papel.

Marcelo subiu as escadas e Bruna ficou olhando pra Consuelo, até que disse ríspida em resposta ao olhar desafiador da emprega:
- O que foi? Está precisando de mais alguma coisa? Olha, já jantamos. Quando terminar tudo pode se recolher.

Consuelo fez cara de quem não gostou. Pediu licença e foi pra cozinha. Pensava consigo mesma que por mais boazinhas que as patroas fossem na hora do aperto elas sempre descontavam nos empregados. Riu debochado como alguém que já está mais do que acostumada a ser tratada daquela forma.

Em seu escritório, Marcelo ligava para o Royal Palm Hotel. Marcou um encontro com os ex-funcionários da JAEH para o dia seguinte. Percebeu que eles estavam aflitos com o fato de que a Polícia Federal já ter os identificado como os cúmplices de Marcelo e Waldemar. Marcelo não sabia dos avanços da investigação e ficou furioso com a notícia.

Minutos depois, Bruna também subiu e o procurou no escritório:
- Oi amor, você não vem se deitar?

Marcelo estava sério, sentado em sua cadeira perdido em seus pensamentos e não gostou de ter sido interrompido. Em um lapso de raiva respondeu com grosseria:
- Você não pode se deitar sozinha um só dia?

Bruna se assustou com a reação do seu amor. Sua cara deve ter transparecido isso, pois imediatamente Marcelo tentou consertar:
- Desculpa meu amor. Estou nervoso. Já estou indo, tá bem?

Bruna assentiu com a cabeça e foi para o quarto. Dormiu antes que Marcelo aparecesse.

No dia seguinte quando acordou, Marcelo já havia saído da cama. Interfonou para cozinha e perguntou a Consuelo sobre Marcelo, que respondeu:
- Dona Bruna ele já saiu há um tempão. Tava com uma cara! Perguntei se ele queria tomar café e ele nem respondeu.

Bruna não sabia o que estava acontecendo. Mas sabia que não era algo bom que Marcelo não queria contar. Entendia que ele quisesse a poupar, afinal estava grávida.

Enquanto isso Marcelo se encontrava com Antônio e Joana. Ele não queria ser visto junto dos dois então os buscou no hotel e foram para um bistrô discreto. Chegando lá Antônio logo começou a desabafar:
- Marcelo, eles estão na nossa cola! Estão interrogando minha família, meus amigos. É uma questão de tempo para nos acharem. O que vamos fazer?

Marcelo irritado respondeu:
- Pra começar você poderia virar homem, né? Você achou o quê? Que a polícia não iria descobrir sobre vocês? E pelo jeito vocês querem mesmo se entregar. Como chegaram a Miami? Não me digam que usar seus nomes e passaportes verdadeiros?

Joana, bem mais durona do que Antônio, não deixou barato:
- Sinto muito se não somos delinqüentes como você e não temos documentos falsos, nomes falsos e tudo mais. Desculpe pela nossa ineficácia em ser falsários. Mas respondendo sua pergunta, viemos até o México de avião e até aqui de carro com um esquema para imigrantes, nem carimbaram nosso passaporte. Ninguém sabe que estamos nos EUA.

Marcelo ficou ainda mais irritado. Antônio estava apavorado e Joana estava firme e assim continuou:
- Temos um problema e como você mesmo nos garantiu, viemos aqui para que você possa resolver. Não é possível que nesta gama toda de corrupção você não conheça ninguém que possa molhar a mão pra nos livrar dessa.

Marcelo riu alto. Apesar do deboche, não sabia o que responder. Não tinha esses contatos, seu pai que tinha e agora não podia procurá-lo, certamente todas as ligações estariam grampeadas. Então pensou rápido. Precisava tirar eles de Miami.
- Vamos nos acalmar. Quando disse que vocês podiam confiar em mim, é porque podem. Temos algumas providências imediatas a tomar. Primeiro, não quero saber de ninguém aparecendo na minha casa, telefonando pra lá. Nada! Minha esposa não tem nada a ver com isso e ela está grávida. Entendido? Segundo, vocês fizeram check in nesse hotel, certo? Não vão voltar lá. Irão daqui direto pra outro estado, qualquer que seja, mais o mais longe daqui. – Tirando um bolo de dólares do bolso, entregou a Joana – isso aqui vai garantir uma viagem e uma estadia confortável a vocês até que baixe a poeira.

Joana pegou o dinheiro e colocou na bolsa. A idéia de continuar a viagem com Antônio não era das melhores. Ela não o agüentava mais vê-lo reclamar de tudo. Mas não tinha saída, também não queria ficar sozinha nesta situação. Pensava em seu marido e filhos e principalmente no que eles pensavam sobre ela. Antes que pudesse se emocionar com seu pensamentos, perguntou a Marcelo:
- E como você nos achará? Como saberemos que podemos sair da toca?

Marcelo anotou um endereço, uma caixa postal e entregou pra eles:
- Vocês vão escrever o contato de vocês e enviar para este endereço. Sem assinar, sem bilhetinhos, apenas o endereço e telefone que vocês irão estar.

Antônio ainda balbuciou algumas palavras sobre o pavor e arrependimento que sentia. Marcelo tentou tranqüilizá-lo afirmando que a PF não tem provas concretas contra eles e que quando tudo isso passasse eles seriam ricos e felizes.

Se despediram secamente. Marcelo voltou para o carro deixando os dois a procura de um transporte que os levasse para um lugar longe dali. Sabiam que não podiam levantar suspeitas, preencher fichas ou mostrar o passaporte. Os dois não tinham intimidade com esse tipo de transação. Ia ser uma tarefa difícil pra eles e Joana sabia que dependia dela conseguir o carro sem suspeitas.

Marcelo não voltou pra casa para o almoço e pela primeira vez não avisou Bruna. Ela ficou preocupadat, mas achou melhor não telefonar. Almoçou na cozinha na companhia de Consuelo, que atenta percebia o clima estranho do casal.