terça-feira, 19 de maio de 2009

CAPÍTULO 35

Lucila acordou e Rafa não estava na cama. Sentiu um alívio. Olhou em volta, foi até a sala e nada. Voltou para o quarto e viu que havia um bilhete no espelho:

Meu amor,
tive uma urgência no escritório. Deixei café pronto.
Te amo,
Rafa.


Lucila riu debochado. Mesmo assim achou melhor não ter que se encontrar com Rafa. Estava mal humorada e acordou sem a menor vontade de olhar pra cara do namorado. Beliscou alguma coisa na cozinha, se vestiu e foi embora. Precisava relaxar. No caminho, ligou para Carla que estava saindo da praia e indo para o Bracarense. – “Perfeito” – pensou Lucila. Passou em casa tirou o vestido de festa e foi se encontrar com Carla.

Carla estava numa mesa com Flávio e Tadeu. Marcos já tinha ido embora se encontrar com seu novo casinho. Além deles, estava também uma amiga de Carla que tinha acabado de se separar .

Lucila chegou sorrindo. Nem parecia que na noite anterior tinha achado um anel de mulher no banheiro do seu namorado. Mas ela era assim. Quanto mais chateada com um assunto, menos se prendia a ele. Pelo menos nos primeiros momentos. Agora ela só queria se divertir um pouco e quem sabe, deixar Rafa um pouco preocupado com um leve sumiço de sua namorada.

Então se sentou e logo pediu um chope. Não comentou nada sobre Rafa, apesar de perguntarem sobre ele. Apenas explicou que ele tinha ido trabalhar em pleno domingo. Falou sobre o casamento, omitindo a parte de que quase foi daminha de honra. Logo começou a ouvir a história da amiga de Carla, que como toda mulher que acaba de se separar, quer contar toooooda história para toooodo mundo.

Lucila sempre adorou ouvir e se meter na vida dos outros. Não tinha problemas em aconselhar sobre qualquer assunto. Na verdade, ela também era assim com a própria vida. Hoje, não comentou os acontecimentos pois nem ela mesma queria ouvir sobre o assunto. Mas sabia que quando superasse isso, a história seria contata para todos seus amigos, em tom de piada, rindo da própria situação. Esse era o jeito de Lucila. Assim, ela sempre tentava disfarçar os medos e seus pontos fracos. Rafa era um ponto fraco. Ele resistia ao tempo, ao temperamento vulnerável de Lucila e a sua inconstância geminiana. Ela continuava louca por ele.

Mais um chope e mais uma ligação de Rafa. Lucila tentava disfarçar que não estava atendendo ao namorado, mas era em vão. Todo viam a cara de satisfação a cada olhada no celular. Era como comemora um gol em torcida adversária – discreto, mas possível de perceber.

Depois de muito papo e muito conselho pra amiga de Carla, que a essas alturas acreditava que a vida de solteira era a mais divina da face da terra, Tadeu falou para Lucila:
- Então Lú, agora que só estamos nós, conta o que aconteceu com Rafa?

Lucila se fez de desentendida. Estava determinada a não assumir o possível fracasso do seu namoro. Não queria passar por aquilo mais um vez. Não merecia aquilo. Queria um tempo. Agora o álcool suavizava o peso do que tinha acontecido. Ela não queria pensar nisso agora. Dissimulada respondeu:
- Tudo bem, nem eu me entendo direito, Tadeu. Eu só sei que to adorando ficar sozinha hoje com meus amigos. Eu tava com saudade de vocês!

Todos se abraçaram desviando do assunto. Era o que Lucila esperava. Rafa já tinha deixado três recados e enviado dois sms. Lucila havia decidido não responder. Pelo menos até a noite não responderia. Também não o veria naquele domingo.
O chope se transformou em sono e com o tempo, todos começaram a se calar. Já eram quase dez horas da noite e eles tinham passado a tarde bebendo, comendo e papeando. Lucila amava esse tipo de programa, principalmente quando era precedido de uma prainha. Hoje, como havia acordado tarde, não conseguiu chegar a tempo pra praia, mas conseguiu o que queria: esvaziar sua cabeça.

Pediram a conta e Lucila foi pra casa. No caminho, mais um recado. Não ia responder agora, somente quando já estivesse em casa.

Embicou o carro na garagem e Rafa estava na porta. Com a cara fechada, encostado na grade. Quando Lucila parou, ele andou até o carro. Se abaixou e disse:
- Está tudo bem?

Lucila respondeu que sim. Não sabia muito como agir, não esperava em vê-lo. Rafa então falou:
- Era isso que eu queria saber. Se está tudo bem, fico mais tranqüilo. Boa noite, meu amor.

Ele deu um beijo estalado e saiu em direção a seu carro. Lucila não acreditou. Como ele não ia nem perguntar onde ela estava? Não agüentou e saltou do carro e fez sinal para que ele esperasse. Insatisfeita com a completa falta de ciúmes do namorado, falou:
- Está tudo bem sim, Rafa. Aliás está tudo ótimo. Eu não te atendi por que eu não quis! Entendeu? Eu não quis! Eu estava me divertindo e não queria falar com você. Está claro agora?

Rafa sorriu de leve como se achasse engraçado o desabafo da namorada meio bebunzinha. Ajeitou a alça do sutiã dela que aparecia sobre a blusa de Lucila e com uma voz carinhosa disse:
- Entendi, meu amor. Por isso que vou pra casa. Não é por que eu queira. Mas eu tenho que respeitar seu espaço.

Deu um beijo na testa de Lucila e entrou no carro, antes de arrancar prometeu ligar no dia seguinte. Lucila ficou parada vendo o carro se afastar. Estava ainda mais irritada! Que compreensão toda era essa? E o ciúme? E a insegurança? Rafa não tinha estes sentimentos? Era só ela que era atormentada por eles?

Ainda irritada subiu pro apartamento. O sono tranqüilo que achava que teria, foi embora. Lucila não agüentou mais do que trinta minutos. Ligou pra Rafa e pediu para que ele voltasse. Ele respondeu:
- Estou chegando, meu amor. E estou levando o jantar.

Rafa chegou com uma pizza. Lucila não se deu conta, mas pelo tempo e a temperatura da pizza, ele tinha certeza de que Lucila ligaria e provavelmente já havia encomendado a refeição antes mesmo dela ligar.

O constrangimento durou muito pouco. Rafa sabia exatamente como acabar com esse tipo de situação. E foi do seu modo mais “Rafa” de ser, que ele fez Lucila esquecer todos os “poréns” que a atormentavam horas antes. Os dois dormiram abraçadinhos depois de saborear uma pizza...já fria.

2 comentários:

  1. Esse é o pior tipo que existe, ai que ódio desse Rafa !!! Sempre consegue o que quer !

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  2. Esse Rafa é irritantemente interessante...

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