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segunda-feira, 1 de junho de 2009

CAPÍTULO 39

Juca andava de um lado para o outro no quarto do hotel. Tinha medo de sair e o agente da PF telefonar informando a situação de Bruna, Marcelo e Antônio Carlos. Mas apesar de toda sua ansiedade, o agente não ligou durante todo o dia. Juca então resolveu telefonar para saber o que estava acontecendo.
- Fala seu Juca! Estamos quase com o pedido de deportação na mão. Assim que isso acontecer, levo os três delinqüentes pro Brasil, onde poderemos cuidar deles direitinho.

Juca não gostava que Bruna fosse vista como mais uma delinqüente. Mas tinha que se controlar, afinal a ultima coisa que queria agora era perder a razão. Com calma falou:
- O advogado de Bruna me informou que vai conseguir uma condição especial para ela, devido o trauma que passou e pela ajuda que deu para localizar o Marcelo.

- É verdade. A bonitinha deve ir antes pro Brasil.

Juca definitivamente não ia com a cara daquele policial. O jeito malandro com que tratava tudo e todos incomodava Juca. Especialmente quando se referia a Bruna. Irritado, Juca perguntou:
- Antes? Antes quando? Você está sabendo de alguma coisa e não quer me dizer?

O policial riu e respondeu ríspido:
- Dr. Juca, não esqueçamos que aqui eu sou a autoridade e o senhor é nada mais que um cidadão comum. Não vamos confundir o fato da PF permitir que o senhor viesse acompanhar o processo com participar do processo. Está entendido?

Juca respondeu que sim. Sabia que o agente estava certo, então tentou mais informações junto ao advogado que havia contratado para Bruna. Segundo ele, até o final da semana Bruna voltaria para o Brasil.
Depois de algumas horas, Juca não conseguia dormir, então zapeava os canais da TV. De repente o telefone do quarto tocou. Juca se assustou e atendeu correndo:
- Yes?

- Seu Juca? – disse uma voz feminina em um portunhol enrolado.

- Sim, sou eu. Quem é?

- Boa noite Seu Juca e desculpa incomodar a essa hora. Mas só agora consegui achar o senhor. Eu sou Consuelo, trabalhava para a Dona Bruna e do Seu Marcelo e gostaria de falar com o senhor. Estou aqui embaixo na frente do hotel.

Juca se vestiu e desceu. Ele e Consuelo foram para um café próximo e depois de devidamente apresentados, Consuelo começou a falar:
- Seu Juca, o que eu vou lhe contar é importante. Mas eu preciso pedir uma coisa.

- Hummm. Sabia que estava bom demais pra ser verdade. Quanto você quer?

- Assim, o senhor me ofende! Eu não quero nada! Eu só quero seu silêncio sobre uma coisa.

- Me desculpe, Consuelo. Estou de cabeça quente e tudo que tem acontecido na minha vida me faz crer que o mundo gira mesmo em torno de dinheiro. Sobre que coisa você está falando?

- Eu sou ilegal aqui em Miami. Se não fosse por isso, já tinha ido contar o que eu sei. Mas se eu for até a delegacia, eles me mandam de volta para Cuba. Eu não posso voltar. Preciso juntar dinheiro pros meus filhos.

Juca concordou em não denunciar Consuelo. Os dois combinaram que Juca consultaria o advogado para saber qual a melhor maneira de agir.

Juca pôs-se a ouvir o que a cubana falava. Enquanto ouvia, imaginava quem mais iria procurá-lo com uma prova contra Marcelo. Primeiro foi Antônio Carlos, agora Consuelo. Imaginava que com tudo isso, seria fácil manter Marcelo preso pelo resto dos seus dias.

Consuelo era educada, mas tinha um “trejeito” latino que era inegável. Falava gesticulando, às vezes aumentava a voz. Poderia se passar por uma brasileira, principalmente quando falava com emoção na voz:
- Seu Juca. Como está Dona Bruna? Ela está bem? Eu fiquei tão preocupada quando a levaram do hospital. Meu primo Ramirez, que encontrei aqui em Miami, descobriu pra mim sobre o senhor. Ele tem um amigo na policia que contou que o senhor era ex-marido da Dona Bruna e que estava aqui para ajudá-la.

Juca se assustou com o que ouviu. Como tinha passado essa percepção de que viera para Miami para ajudar Bruna? Não era verdade! Ele queria justiça! Mesmo que isso significasse prender também Bruna. Pensando rápido, Juca concluiu que o fato de ter contratado um advogado de defesa para Bruna, pudesse passar a impressão de que ele estava ajudando a ex-mulher. Mas ele sabia que não era verdade. Ele apenas contratou um advogado, nada mais.

Juca ia se defender e explicar que não veio para ajudar Bruna, mas achou que isso pudesse reprimir Consuelo e queria ouvir o que ela tinha para contar. Consuelo tomou mais um gole do seu café e disse com cara feia:
- Ôô povo que não sabe fazer um café, não é mesmo? Bom, seu Juca, o que eu tenho pra contar, eu antes contei pra esse meu primo e ele acha que pode ajudar na investigação do Dr. Marcelo. Pra falar a verdade, eu nunca fui com a cara dele. Ao contrário de Dona Bruna. Ela sim é um doce de pessoa. Não merecia passar por isso. Não mesmo!

Em um momento de extrema frieza, Juca pensou o contrário. Bruna estava pagando pelo que fizera a ele. Consuelo notou algo estranho na expressão de Juca, que disfarçou:
- Continue Dona Consuelo, por favor.

- Claro, claro. Bom, primeiro eu queria contar que a mulher do jornal, foi atrás do seu Marcelo.

- Mulher do jornal?

- É a mulher que apareceu morta. – Consuelo tirou um recorte dobrado de jornal da bolsa e mostrou e entregou para Juca. Era um jornal de quinta, especializado em atrocidades, tragédias e todo tipo de fofoca. Nele tinha a foto do corpo de Dra. Joana.

- Dra. Joana. Sim, eu sei que ela e o Dr. Antônio Carlos deixaram um bilhete, não é isso?

Antônio Carlos já havia contato isso para Juca, mas deixou a cubana continuar:
- Ah o senhor já sabe, né? Então tá bem. A segunda coisa é que eu vi o Dr. Marcelo entregando um envelope para um homem mal encarado e depois disse uma coisa muito estranha. Ele falou pro homem que era para parecer um assalto. Achei isso muito esquisito e quando vi a foto da mulher morta, achei que pudesse ter alguma ligação.

Juca se animou. Prender Marcelo também como mandante de um crime seria maravilhoso. E perguntou:
- Você seria capaz reconhecer esse homem?

Consuelo engasgou. Ela seria sim capaz de reconhecê-lo, mas não podia ir até a delegacia. Notando o desespero de Consuelo, Juca se apressou em dizer:
- Calma. Não vou pedir pra que você vá até a delegacia. Estou só pensando.

Consuelo então contou que seria capaz de reconhecer o homem. Juca se apressou em ligar para o advogado, que sugeriu negociar com a polícia o Green Card de Consuelo em troca do seu depoimento.

Consuelo se animou.

terça-feira, 26 de maio de 2009

CAPÍTULO 37

Apesar da ansiedade em encontrar Marcelo Zacaro, Juca estava preocupado. Não entendia o que estava acontecendo consigo, mas sentia algo parecido com ciúmes e talvez por isso não quisesse que Marcelo aparecesse.

Juca e o agente da PF estavam sentados no escritório da Polícia Especial de Miami. O agente fazia ligações, acessava o computador, falava num inglês precário pelo rádio. Juca apenas observava. Não tinha muito o que fazer, a não ser esperar. Sempre que tinha autorização ia até a cela de Bruna. Eles conversavam, normalmente sobre o processo. Mas nunca tinham muito tempo. O permitido era no máximo vinte minutos.

Enquanto observava toda a agitação do lugar, notou um entusiasmo exacerbado do agente brasileiro, que imediatamente correu até Juca e disse:
- Pegamos o filho da puta!

Juca não comemorou. Estava com todos aqueles sentimentos confusos. Apenas sorriu e bateu nas costas do policial, o cumprimentado pela vitória. Logo depois perguntou:
- Posso contar à Bruna?

O agente quase se ofendeu:
- Não! Aliás, ninguém fala com a garota até segunda ordem!

O agente saiu e passou a orientação para os demais. Bruna ficaria um tempo sem receber visitas. A sua idéia era confrontá-los em testemunho, pois ao contrário de Juca, o agente desconfiava da inocência de Bruna.

Horas depois, Juca ainda esperava o retorno da equipe. Mas já tinha sido avisado que também não teria acesso à Marcelo. Então, resolveu sair da delegacia. Foi caminhando até o hotel, pediu indicação de um barbeiro e cortou os cabelos que estavam em total descuido. Fez a barba, comprou um casaco novo e de banho tomado, o vestiu. De novo parecia o antigo Juca: alinhado, charmoso, um gentleman.

Ao invés de voltar para delegacia, apenas ligou para saber se poderia ser útil. Não seria. Apenas o advogado de Bruna poderia participar das averiguações. Diante disso, saiu novamente do hotel afim de procurar um bom restaurante para comer. Assim que saiu do hotel foi interceptado por Antônio Carlos, seu antigo funcionário que junto com Dra. Joana se tornaram cúmplices de Marcelo e Waldemar Zacaro no esquema dos hospitais. Juca se assustou quando viu Antônio Carlos:
- Juca? Me desculpe, não queria te assustar.

- Mas assustou. O que você está fazendo aqui seu filho da mãe! ? – alterado, ficou vermelho e parecia querer agredir Antônio Carlos. Este, deu passou para trás e disse nitidamente apavorado:
- Desculpa! Me desculpe! Eu vim aqui para falar com você. Preciso da sua ajuda!

Juca riu debochado.
- Da minha ajuda? E porque você acha que eu iria ajudá-lo? Você é um desgraçado e por causa da sua ambição, acabou com a minha vida!

- Eu sei! Mas por favor, me escute! Eu vou me entregar! Eu conto tudo o que precisarem! Mas preciso de proteção.
- Proteção?

Antônio Carlos claramente tinha entrado no esquema de gaiato. Era óbvia a sua não vocação para este tipo de golpe. Era medroso, covarde e agora se parecia com uma criança assuntada. Gaguejando e olhando para os lados como se precisasse se certificar de que não era seguido, falou:
- Marcelo contratou um homem para nos matar. Ele matou Joana! Ela está morta. Morta!

Juca entendendo a gravidade da situação, o fez entrar no hotel. Subiram para o quarto. Juca lhe deu copo d’água e pediu para que ele se acalmasse. Depois falou:
- Agora me conta tudo desde o começo.

Antônio Carlos contou que quando o esquema fora descoberto e Waldemar preso, ele e Joana não conseguiam mais contato com Marcelo. Depois de um tempo foragidos, conseguiram localizar Marcelo em Miami. Ele também contou do acordo que os três fizeram e sobre o pedido de Marcelo para que eles saíssem de Miami e enviassem seus novos endereços para uma caixa postal. Dias depois do envio do endereço, Joana e Antônio Carlos tiveram a impressão de estarem sendo seguidos. Estavam certos. Um dia pela manhã, diferente de sua rotina habitual, Antonio Carlos acordou antes de Joana e resolveu ir até a padaria. Foi a sua sorte, pois quando voltou Joana já estava morta e seu assassino o esperava. Mas Antonio conseguiu fugir.

Juca ouvia tudo apavorado. Pensava em Bruna e que talvez ele tivesse sido agressivo com ela. Mas conseguiu retomar seu foco para o problema principal: o que fazer com Antônio Carlos? Tentou ligar para o agente da PF, mas não conseguiu falar. Ele deveria estar na apreensão de Marcelo. Juca então, decidiu que Antônio passaria a noite no hotel com ele. No dia seguinte ele mesmo o levaria para a delegacia.

Antônio estava tão cansado que depois do banho e de vestir as roupas emprestadas por Juca, desmaiou na cama. Arrependimento era mais do que uma palavra para descrever aquele homem que agora tinha medo da morte.

No dia seguinte, logo cedo, Juca contou ao agente o que havia acontecido. Foram para a delegacia. Antônio iria depor também. Mas desta vez, Juca não providenciaria nenhum advogado. Enquanto explicava isso ao agente, Marcelo entrou algemado e escoltado por dois policiais. Ele passou pelo corredor lateral da sala onde Juca estava. Cabeça erguida, andar imponente, nem parecia estar sendo preso.

Ele e Juca trocaram olhares e Marcelo ainda teve a empáfia de cumprimentá-lo com um balançar de cabeça. Juca se controlou para não voar em cima dele.

Logo depois, Juca voltou ao hotel a pedido do agente , que prometia ter respostas sobre a deportação dos três em poucos dias.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

CAPÍTULO 34

Consuelo voltou dias depois para visitar Bruna, mas ela já não estava mais no hospital. Segundo o rapaz que alternava o turno com seu primo Ramirez, ela tinha tido alta e tinha sido levada por um carro da polícia. Consuelo assustada perguntou:
- Imigração?

O rapaz respondeu que não. Era um carro da polícia especial de Miami. Nem ele sabia dizer o nome da unidade.

Diante disso Consuelo não sabia o que fazer. Sendo ilegal no país não poderia procurar a patroa nas delegacias de Miami, muito menos nessa tal de polícia especial. Então, fez o que sempre fazia quando precisava de ajuda: rezou.

Bruna não parecia preocupada com seu destino. Ao contrário, sua apatia dava um ar de desdém a tudo que acontecia a sua volta. Chegou na delegacia acompanhada por dois indivíduos bem vestidos, de terno. Não pareceriam policiais se não fosse pelos distintivos pendurados no pescoço e as armas encaixadas numa espécie de coldre sobre o peito. Apesar do silêncio absoluto no carro, eles foram gentis todo o tempo. Assim que chegaram, um deles abriu a porta e ofereceu ajuda para que Bruna saísse do carro. A apoiou até a entrada e por todo percurso nos corredores do prédio. Parecia uma cena de um filme policial americano. Todos aqueles homens com seus copos de café, falando alto, às vezes rindo. Poucos sentados em suas mesas, a maioria de pé discutindo alguma coisa. Bruna chamou atenção do grupo quando entrou. Apesar do seu abatimento, era uma mulher bonita, que se destacava especialmente em um ambiente tão masculino quanto aquele.

O policial abriu a porta de uma sala onde havia uma mesa e duas cadeiras. Era ladeada por uma grande janela de espelho e apenas um bebedor. Bruna se sentou ali e recusou a água ou o café oferecidos. Havia passado alguns dias no hospital e já não ligava em não comer. Comia obrigada pelas enfermeiras, que diante da sua recusa intensificaram o mix de vitaminas. Não sentia nada na verdade. Nenhuma vontade, fome ou sono. Queria somente saber de Marcelo. Mas até isso ela já não queria tanto. Tinha medo de saber a verdade e talvez a ausência de pensamentos que se forçava a ter, a confortassem mais.

Bruna ficou um bom tempo sozinha na sala. Aguardando conforme o pedido do policial. Não sabia direito o que aconteceria com ela. Não se importava. De repente a porta da sala abriu. Era uma pequena fresta por onde entrou o outro policial. Ele era um homem mais velho, com um ar mais impaciente. Ele colocou a cabeça através da fresta da porta e disse em um inglês quase incompreensível:
- A senhora tem visita.

Bruna arregalou os olhos e pela primeira vez olhou para o policial. Ficou quieta observando ansiosamente o movimento da porta. Sabia que só poderia ser Marcelo. Finalmente ele viria levá-la pra casa, tirá-la daquele pesadelo.
A porta então abriu e alguém entrou. Bruna chegou a sorrir, era como se tivesse ensaiado mentalmente um sorriso para quando Marcelo viesse. Então o homem falou:
- Não achei que ficaria feliz em me ver.
Bruna caiu em si. Apesar da familiaridade daquela voz, agora bem mais áspera, não era quem ela esperava, então com um tom quase irônico respondeu:
- Juca? Talvez seja saudade. Quem sabe.

Bruna se virou de lado, olhando para a parede e deixando claro que não queria conversa com Juca. Mesmo assim, ele fechou a porta e se sentou a sua frente. Seu rosto queimava e ele sentia que suas mãos estavam trêmulas. Tinha sonhado muito com aquele momento em que poderia dizer tudo o que pensava para Bruna. Xingar, gritar e mostrar como ela o tinha feito sofrer. Apesar disso, Juca olhou para Bruna com pena. Ver seu olhar perdido no nada, a mão ainda sobre a barriga, as olheiras e o cabelo preso sem cuidado. Era nítido o quanto aquela mulher estava sofrendo. A dor de Bruna doeu em Juca. Ele não esperava sentir isso. Ao contrário pensava que sentiria um gosto de vingança em ver que ela também tinha tido o que merecia.

Bruna continuava olhando para o nada. Juca engoliu algo que poderia ser até um choro. Virou se para ela:
- Eu sinto muito. De verdade. Sinceramente não imaginava que sentiria tanto.

Bruna segurou a cabeça com as mãos. As lágrimas começaram a cair. Não queria chorar. Não queria sentir nada, mas agora sentia. Olhou para Juca e falou:
- Dói muito. Era meu filho. Meu filho! E agora? Agora acabou. O que eu vou fazer?

Juca quis abraçá-la, mas se conteve. Apenas segurou o choro. Bruna continuou:
- Minha vida mudou nos últimos meses mais do que qualquer coisa. Não sei se fiz as escolhas certas. Talvez não. Mas meu filho era uma escolha certa. Disso eu tenho certeza. E o que aconteceu com ele....

Bruna não conseguiu mais falar. Nesse momento entrou o policial mais jovem perguntando a Juca se estava tudo bem. Juca respondeu que sim e pediu lenços de papel.

Juca tinha sido avisado pela Polícia Federal que Marcelo havia sido encontrado em Miami e que Bruna estava em poder da polícia local e provavelmente seria deportada par ser julgada no Brasil. Marcelo tinha conseguido fugir, mas com avisos em todas as fronteiras, acreditavam que ele não iria muito longe. Juca não pensou duas vezes, aceitou acompanhar o agente da PF até Miami para ver de perto todo o processo. Ou melhor, para dizer poucas e boas para Bruna e Marcelo.

Mas não foi isso que aconteceu quando viu a fragilidade daquela que foi por tantos anos a mulher da sua vida. Juca havia desmontado. Sentia raiva por ter amolecido, mas não seria justo despejar em Bruna toda sua raiva num momento tão triste como este.

Os dois ainda ficaram alguns minutos sozinhos na sala, até que o agente brasileiro da PF entrou para explicar a situação em Bruna se encontrava:
- Boa tarde, Dona Bruna Andrade. Antes de mais nada gostaria de dar meus sentimentos pelo acontecido. Apesar deste momento dramático, não posso deixar de fazer meu trabalho.

Bruna suspirou, olhou para o agente e perguntou:
- O que o senhor quer de mim? É só falar. Eu respondo tudo o que o senhor quiser.

O agente olhou para Juca e continuou:
- Primeiro vamos cuidar da sua extradição. Estamos pedindo sua extradição para ser julgada no Brasil. A senhora tem direito a um advogado brasileiro para cuidar do seu caso.

Juca o interrrompeu:
- Eu cuido disso.

O agente não entendeu, mas prosseguiu:
- Dependendo da orientação do seu advogado ele pode dificultar o processo de extradição.

Bruna olhou pra Juca e disse:
- Eu quero voltar pro Brasil. Não interessa o que aconteça comigo. Eu quero voltar.

O agente sabia que talvez esta não fosse a melhor opção para Bruna, mas era de seu interesse e da sua corporação levar Bruna para o Brasil. Ainda ficou um tempo explicando alguns trâmites até que perguntou:
- Agora a senhora sabe da sua situação. Quando for julgada, existe condições que podem aliviar sua pena. Por exemplo, se nos ajudar a encontrar o Sr. Marcelo Zacaro. A senhora sabe onde ele está?

- Não.

- Se a senhora nos ajudar, isso também ajudará no seu processo. A senhora me entendeu?

- Entendi. Mas eu não sei onde ele está. E nem porque não veio saber como eu estava quando perdi nosso filho!

O agente percebeu que havia raiva naquele comentário e se aproveitou:
- A senhora me desculpe a franqueza, mas deve ser pelo mesmo motivo que ele colocou vários imóveis e bens em seu nome. Agora a senhora terá que nos explicar como conseguiu adquiri-los e não ele.

Bruna não acreditou no que ouvia. Tinha realmente assinado alguns papéis, mas nunca pensou que precisaria desconfiar de alguma coisa. O agente tentou mais uma vez:
- A senhora pensa com calma. Não existe nenhum lugar onde o Sr. Marcelo possa estar?

Bruna pensou por um tempo e teve um “estalo”:
- O barco! Vocês procuraram o barco?

- Não encontramos nenhum barco registrado em nome dele ou em seu nome.

- Não está registrado. Me lembro que Marcelo comentou que não iria registrar o iate. Ele colocou em nome de um amigo mexicano que trabalhava com ele no projeto da operadora de turismo.

O agente anotou o nome e todos os dados que Bruna sabia sobre o mexicano e saiu da sala agitado. Bruna e Juca se olharam. Por alguns instantes Bruna sentiu um arrependimento imenso. Mas depois pensou que não tinha feito tudo isso à toa, mesmo agora sendo tão difícil sentir o tamanho do amor que ela tinha por Marcelo.

Juca desviou o olhar, mesmo sem querer parar de olhar para Bruna.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

CAPÍTULO 32

Já eram quase duas horas da manhã, quando Bruna ouviu um barulho na porta. Correu até o pé da escada e viu que era Marcelo entrando trôpego. Bruna não acreditou. Primeiro voltou pro quarto e pensou em fingir que dormia. Mas o sangue quente não a deixou engolir as horas de preocupação, de ligações não antendidas, que Marcelo tinha a feito passar.

Bruna desceu a escada determinana, marchando. Logo que Marcelo olhou pra cima, ela falou:
- Não acredito que você não podia me dar ao menos um telefonema.

Marcelo sacodiu a cabeça como alguém que não queria ouvir toda aquela ladainha. Estava bêbado, o que dificultava sua fala, mas mesmo assim puxou ar dos pulmões e falou. Ou melhor gritou:
- Pode parar! Bruna! Bruna! Bruna! Pára! Eu durmo no sofá, é isso? Sem bronca! Não tenho saco pra isso não! Tá ouvindo? Saco... exxxposa. É isso! Dá nisso!

Apesar de enrolar a língua, sua voz era enfática, calaria qualquer um. Principalmente Bruna. Ela olhava e não entendia a cena, a voz, a atitude não era do homem da sua vida, do seu grande amor. Então um enjôo tomou conta de Bruna. Sua vista começou a escurecer. Se segurou com força no corrimão, no alto da escada. Suas mãos estavam frias e suadas. Lá embaixo só enxergava o vulto de Marcelo. Não conseguiu falar nada. Apenas desmaiou.



Todos os vizinhos olhavam das suas varandas o tumulto da casa 9. Carros de polícia, ambulância. Isso sem falar na fuga de todos os empregados pela janela dos fundos quando descobriram que o carro da polícia estava vindo pra casa 9. Todos eles eram ilegais e morriam de medo de serem deportados. Consuelo, apesar do pavor em ser deportada, não conseguiu fugir e deixar sua querida patroa sozinha ali no chão. Marcelo estava bêbado demais pra fazer qualquer coisa, por isso, sem pensar, ligou para ambulância.

Quando os paramédicos entraram, Bruna ainda estava desacordada. Marcelo sentando no último degrau da escada, cabeça baixa apoiada pelos braços. Estava tonto e agora sentia vontade de vomitar. Olhava para os paramédicos e via que eles perguntavam alguma coisa. Não conseguia entender. Consuelo entrou e respondeu todas as perguntas em seu inglês confuso.

A polícia entrou e Consuelo respirou fundo. Olhou para Marcelo que agora tentava se levantar. Uma dupla de policiais se apresentou a Marcelo que os olhava com cara de quem nada entendia. Um dos dois olhou para Consuelo e perguntou:
- Ele é o dono da casa?

Consuelo respondeu que sim e informou que ele acabava de chegar de uma festa e que quando chegou encontrou a esposa no chão e logo ligou chamando ajuda.
O policial mais alto fazia cara de quem não acreditava na história e olhava fixamente para aquele homem bêbado. Ele o conhecia de algum lugar. Seu parceiro, mais atencioso ouvia atentamente a história de Consuelo. Enquanto isso, Bruna era erguida em uma maca. Consuelo correu e perguntou:
- Pra onde vocês vão a levar? Seu Marcelo, pelo amor de Deus. O senhor precisa ir com ela. Dona Bruna não pode ir sozinha.

O policial bonzinho permitiu que Consuelo acompanhasse Bruna na ambulância. Sabia que o marido não tinha condições de ajudar em nada. Insistiu em ver os documentos de Marcelo que só apontou para o alto da escada. O policial bonzinho riu e achou melhor deixar pra lá. O outro não gostou. Pediu um minuto e subiu as escadas. Não achou a carteira de Marcelo, apenas a de Bruna.
- Brasileira? E pelo jeito ilegal.

Desceu com o documento na mão. Procurou em toda a sala os documentos de Marcelo, e nada. Queria deter Marcelo até que ele apresentasse alguma identificação. Mas seu parceiro recebeu uma emergência pelo rádio e saíram da casa ameaçando voltar.

O porre de Marcelo era maior do que a preocupação no retorno dos policiais. Marcelo se jogou no sofá e dormiu.

A ambulância voava na Ocean Drive. Consuelo segurava a mão da patroa e rezava. Rezava por ela, por Bruna e até por Marcelo. Tinha medo de ser deportada. Mas tinha ainda mais medo do sangue que manchava a camisola de Bruna.

Antes de chegarem ao hospital, Bruna acordou. Sentia dores e olhou com desespero para Consuelo que tentou a acalmar:
- Calma! Calma Dona Bruna. Está tudo bem, os doutores já vão cuidar da senhora, viu? Tá cheio de médico bacana aqui.

Bruna tentou falar, mas sentia uma pontada em sua barriga. Passava a mão sobre ela como se pudesse se certificar que estava tudo bem com o seu bebê. Mas não podia. Olhou em volta e não viu Marcelo. Então, veio a cabeça a última cena de que se lembrava: Marcelo bêbado e gritando com ela.

Chegaram ao hospital e Bruna foi levada. Consuelo respirou fundo. Sabia que não podia entrar. Enquanto ensaiava sua fuga, viu que era observada por um dos enfermeiros. Disfarçou mexendo na bolsa. O rapaz se aproximou e disse em bom castelhano:
- Olá! A senhora que é a acompanhante da gestante que foi para emergência?

Consuelo não sabia o que responder. O rapaz com sua prancheta na mão, prosseguiu:
- O hospital exige que se preencha uma ficha com os dados do paciente e acompanhante. A senhora trabalha pra ela?

Consuelo respondeu que sim. Ainda muito assustada prestava atenção no rapaz:
- Sei. Isso é exigido se a pessoa tiver um acompanhante. Como a senhora veio junto na ambulância não tenho como dizer na ficha dela que ela não tem acompanhante. A senhora me entende?

Mais um vez Consuelo respondeu que sim, sacudindo a cabeça. O rapaz colocou a mão no seu ombro e disse sorrindo:
- Mas os paramédicos são meus amigos. A gente dá um jeitinho. Só tem uma condição.

Consuelo se agitou e respondeu:
- Meu filho, eu tÔ aqui pra ganhar a vida. Você acha que se eu tivesse algum dinheiro estaria aqui?

O rapaz riu e a interrompeu:
- A condição não é essa, Dona Consuelo.

Consuelo se perguntou se havia tido seu nome àquele rapaz.

- A condição é que a senhora me dê um abraço. Não está me reconhecendo? Sou eu Ramirez, filho da sua prima Maria.

Consuelo não acreditou. Era muita sorte encontrar um parente querido, ainda mais numa situação como esta. Os dois se abraçaram e Ramirez conseguiu omitir a presença da prima nos relatórios do hospital. Consuelo permaneceu por perto e sabia noticiais da patroa pelo primo.

Umas duas horas depois, Ramirez apareceu com uma cara não muito boa. Consuelo sabia o que isso significava e logo perguntou:
- É o bebê? Ela perdeu o bebê?

Ramirez com um tom fúnebre respondeu que sim e disse:
- Sinto muito. Mas não é só isso prima. A sua patroa e o marido são procurados pela polícia do Brasil. A senhora sabia? Ela vai ser presa, assim que tiver alta. Acho melhor a senhora não ficar por perto. Sem Green Card e a corda sempre arrebenta do lado mais fraco, né?

- Meu Deus. Pobre Dona Bruna. Ela tava tão feliz com seu bebê. Eu achava que tinha alguma coisa errada, mas não achava que era tão grave. Ramirez, vou até a casa tentar buscar minhas coisas. Já estou com seu telefone. Eu te ligo pra saber notícia da moça, tudo bem?

- A senhora vai pra onde? Tem onde ficar? Pode ficar lá em casa, prima. Vou te dar o endereço e avisar a minha esposa.

Consuelo foi até a mansão e levou um susto. A casa estava revirada e nenhum sinal de Marcelo. Ela subiu até o quarto do casal e o closet de Marcelo estava praticamente vazio, assim como não haviam quase papéis sobre a escrivaninha. Consuelo pegou suas coisas e saiu. Sabia que não veria mais o Dr. Marcelo.